Quando pudermos respirar o ar fresco, grande e forte abraço

Fidelio, hino à justiça e liberdade composto por Beethoven após a Revolução Francesa, poderia ser o nosso hino no regresso à normalidade…

Em vez de Grândola Vila Morena, sugiro para as comemorações do 25 de abril, dois coros da ópera Fidelio de Ludwig van Beethoven (1770 – 1827): o Coro dos Prisioneiros e o Coro Final, cantados na Assembleia da República.

A ópera Fidelio é um hino à liberdade. O Coro dos Prisioneiros, no final do primeiro ato, começa com a frase O welche Lust in freier Luft (Oh que prazer respirar o ar fresco).

Foi escolhido pelo historiador de arte Kenneth Clark (1903 – 1983) para um dos 13 episódios da célebre série documental “Civilisation”, que escreveu para o canal de televisão BBC2, transmitida em 1969. A série foi sugerida a Clark, um pioneiro da TV, por David Attenborough, então diretor do novo canal BBC2. Aborda cultura, arte, arquitetura ocidental, e é ainda muito popular.

Clark afirma naquele episódio que a ópera de Beethoven é o maior hino à liberdade jamais escrito. Beethoven compôs a ópera entre 1805 e 1814, após a Revolução Francesa, e o libreto de Joseph Sonnleithner inspira-se numa história francesa.

O Coro dos Prisioneiros é uma das peças mais pungentes da história da música. Para mim, é impossível não ouvir nela ecos da maior obra da música ocidental, a Paixão Segundo S. Mateus de Bach (1685 – 1750).

Coro dos Prisioneiros

Oh, que prazer mais uma vez

Livres para respirar o ar fresco!

À luz do céu, vivemos novamente;

Da morte nós escapamos.

Confiamos no céu;

No céu dependem nossas esperanças:

Em nossas dores, ele olhará com pena.

De sua bondade todas as coisas dependem.

Oh, liberdade! oh, salvação!

Oh, Deus, sobre nossas misérias tenha piedade!

 

Fidelio é um glorioso hino à liberdade política, mas é mais.

O vigor e alegria do coro nos momentos finais da ópera contrasta com a tristeza do Coro dos Prisioneiros. Esse momento da ópera é um hino à figura da Mulher, à fidelidade da “heroica mulher” e “parceira do coração”.

A Mulher é na ópera representada por Leonore, mulher de Florestan, prisioneiro político em confinamento solitário, e para cuja libertação Leonore enfrenta perigo de morte com coragem e inteligência.

Florestan é chamado a juntar-se a Leonore, que o liberta das grilhetas, nos momentos finais de alegria para o jubileu de elogio da mulher, da devoção, da união.

Deixem-no juntar-se ao nosso Jubileu!

Num momento em que tantos portugueses vivem como se sobre eles pesasse termo de identidade e residência, penso que, se a ideia de comemorar o Dia da Liberdade persistir, o Coro dos Prisioneiros e o Coro Final cantados na Assembleia da República seriam adequados para um momento de grande elevação e emotividade coletiva.

E não seriam necessários quaisquer discursos.

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