Haverá um número mínimo? Tabela-se um teto máximo? Para uns, “não há duas sem três”. O mesmo é dizer que “à terceira é de vez”. Outros entendem, ainda, que “à dúzia é mais barato” e, por isso, “venham mais cinco”. Mas quantas são precisas, afinal? Como diria o futuro Secretário-geral da ONU é uma questão de “fazer as contas”.

Vários físicos e matemáticos defendem que é mais correto dizer que o universo é feito de números do que de matéria. Deste modo, partindo da base de toda a matemática de que “0=0”, ficamos com uma mão cheia de ar. Parece, assim, que “tudo” está baseado em “nada”. Cientes da importância dos números, prestamo-nos a quantificar várias situações quotidianas. Ao segundo cartão amarelo sabemos que vamos ver o cartão vermelho. Ao terceiro copo de vinho há grandes probabilidades de incorrermos numa contraordenação. Mais de 2500 Kcal por dia vai significar uma luta com a balança. Sabemos o número de faltas injustificadas necessárias para sermos despedidos ou para reprovarmos de ano. Estamos conscientes de que temos a possibilidade de mudar o Presidente da República de 5 em 5 anos e que as eleições legislativas são de 4 em 4 anos.

Esta necessidade de quantificar não vem do “nada”: é exigida pela sociedade que precisa de uma certa previsibilidade para poder levar avante a sua vida enquanto coletivo. São estas balizas que fazem mover as peças do nosso xadrez. Como pulula na voz sábia do povo: para tudo há limites!

Se assim é, como é que não há limites para Rocha Andrade? Quantas calinadas são precisas para que um governante seja convidado a sair? Não bastava o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais ter ido à “borleia” da Galp assistir a jogos da Seleção Portuguesa de Futebol durante o Euro 2016, ter obrigado António Costa a recuperar o projeto do governo anterior de desenvolver um código de conduta ou ética para agentes da administração pública e, agora, ainda vem revelar que todos os governantes têm uma lista de entidades sobre as quais não devem decidir. “Toda a gente que chega ao Governo vem de algum lado. E, desse algum lado de onde vem, das suas relações familiares, das anteriores ocupações profissionais ou cívicas, tem um conjunto de situações, toda a gente tem um conjunto de situações sobre as quais não deve decidir”, afirmou Rocha Andrade.

É verdade que do passado as pessoas não se livram – embora fosse de equacionar submeter os governantes (antes de o serem) a uma espécie de “fit and proper person test”, numa tentativa de apurar a sua “aptidão moral” para o cargo. Neste caso, contudo, nem esse argumento aproveita, já que Rocha Andrade não vem de um casamento – tampouco de um divórcio – com a Galp, mas de um muito atual e tórrido, embora fugaz, ‘affaire’ com uma entidade que detém contenciosos fiscais de cem milhões com a Autoridade Tributária, que se encontra sob tutela… do próprio Rocha Andrade.

O que terá o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais de mais vir dizer ou fazer para que Costa lhe responda: “Assim como toda gente que chega ao Governo vem de algum lado, também quem sai do Governo vai para algum lado… Olhe, vá dar um passeio a França e pode até levar outros consigo!”.