A Caixa Geral de Depósitos e o BCP, sem surpresas, são os campeões dos lucros da banca. Em 2025 ambos destacam-se em escala (maior volume), ambos com lucros históricos, mas o Santander Totta ainda lidera em rentabilidade e eficiência.
A CGD registou um lucro de 1,9 mil milhões de euros em 2025 a subir 10%, impulsionado pelo aumento de 8 mil milhões no volume de negócios. Estes lucros históricos coincidem com os 150 anos da CGD. A atividade doméstica da Caixa contribuiu com 1,8 mil milhões para o resultado líquido consolidado, enquanto a atividade internacional acrescentou 110 milhões de euros.
Paulo Macedo, na conferência de imprensa, esta quinta-feira, disse que não antevê que este nível de resultados se mantenha no futuro, até porque este número inclui cerca de 190 milhões de extraordinários com a venda da Águas de Portugal e os 29 milhões de devolução de impostos relacionados com o Adicional de Solidariedade que foi considerado inconstitucional.
O Millennium BCP apresentou os melhores resultados da sua história em 2025, com um lucro líquido de 1.018,6 milhões, representando um crescimento de 12,4% face ao ano anterior. O banco superou, pela primeira vez, a barreira psicológica de mil milhões, consolidando a trajetória de recuperação e rentabilidade do banco. A rentabilidade do BCP está nos 14,1%.
O banco liderado por Miguel Maya surpreendeu positivamente o mercado ao anunciar uma política de distribuição extraordinária de até 90% do lucro aos acionistas, combinando dividendos e recompra de ações. Também a CGD anunciou um dividendo histórico ao Estado de 1,25 mil milhões, tendo, com isto já devolvido toda a ajuda do Estado, em dinheiro e em espécie.
O Santander Totta com lucros de 963,8 milhões e com variação anual de +0,5% lidera em rentabilidade medida pelo RoTE (Return on Tangible Equity) ao atingir os 31,8%, devido a uma base de capital mais eficiente. A CGD foi a segunda melhor em rentabilidade com 17,4%, mas revelou uma descida ligeira face a 2024.
O BCP acabou por reportar a pior rentabilidade ao ficar nos 14,10%, abaixo do BPI que registou uma rentabilidade (RoTE) de 15,6%, apesar de, ao contrário do BCP, ter visto os lucros anuais caírem 13% para de 512 milhões de euros.
Não só o banco liderado por João Pedro Oliveira e Costa reportou uma queda dos lucros em termos consolidados, como em Portugal (que é o foco do BPI) o lucro foi de 489 milhões o que traduz uma descida anual de 4%.
O Santander Totta quer ser o mais rentável e não tem ambições de crescimento em dimensão em Portugal. O BPI sabe que as aquisições são o caminho mais curto para crescer quota de mercado. Não foi por acaso que o CaixaBank analisou o Novobanco. No entanto, sem aquisições à vista, o BPI precisa de balas de prata para fazer crescer a rentabilidade no futuro.
No que toca à qualidade dos ativos (rácio de NPL/NPE e cobertura por imparidades), todos os bancos têm rácios abaixo de 2% o que é um bom indicador, refletindo um setor bancário saudável.
O BPI apresenta a melhor qualidade de ativos, com menor risco de incumprimento e maior cobertura para perdas. O Santander e BCP são semelhantes, mas o BCP tem um cobertura ligeiramente superior ao Santander. A CGD é o banco com maior cobertura do rácio de malparado (1,31%) por imparidades (125,6%).
Quando se olha para o custo do risco de crédito, um indicador financeiro que mede o impacto das perdas esperadas na carteira de crédito sobre a rendibilidade do banco, a CGD volta a liderar com um custo do risco negativo (-0,35%), graças à libertação de provisões. Segue-se o Santander Totta com um rácio de 0,01%, seguido do BPI com 0,08% e do BCP com 0,32%.
O BCP tem um risco ligeiramente superior, alinhado com seu maior volume de crédito, mas refletindo uma carteira de menor qualidade. Aliás, na apresentação de resultados, o CEO do BCP, Miguel Maya, disse mesmo que “as imparidades ainda têm um peso significativo mas estão em trajetória de redução”.
Em termos de receitas operacionais, e ao nível do Produto Bancário, o BCP com 3.815,2 milhões (+6,8% anual), lidera. A CGD registou 3.487,6 milhões depois de uma queda de 0,5%. O Santander com 1.894,9 está em terceiro lugar mas reportou uma queda de 7,5% anual.
O BPI também não escapou à redução das receitas ao recuar 8% para 1.225 milhões. Em detalhe a margem financeira caiu 9,9% na CGD para 2.503 milhões. Enquanto no BCP subiu 2,4% para 2.898 milhões de euros.
Já no Santander caiu 12% para 1.370 milhões e no BPI recuou 10% e fixou-se em 875 milhões.
Outra componente da receita, as comissões, em geral subiram, exceto no BPI que caíram 6% para 307 milhões. No BCP subiram 4,3% para 847,4 milhões e no Santander subiram 7,1% para 484,3 milhões. A CGD teve uma evolução flat nesta receita.
A CGD, o Santander e BPI enfrentam declínios no produto bancário e margem financeira, devido a pressões competitivas e redução dos juros. No entanto, o Santander compensa a queda dos juros com o aumento de comissões.
Crédito reinou
No Balanço (Crédito e Depósitos) o BCP é o maior em volume. O crédito (bruto) ascendeu no Grupo BCP a 62,6 mil milhões de euros (+7,3%). No Grupo CGD a carteira de crédito ascende a 58,9 mil milhões (inferior ao BCP). Mas na atividade doméstica a CGD ganha ao BCP em dimensão da carteira de crédito.
No Santander Totta a carteira é de cerca de 54,1 mil milhões (+7,5%). Já no BPI a carteira de crédito fixou-se em 33,3 mil milhões (+7%).
Mas a grande dinâmica verificou-se no crédito à habitação. O BCP, em termos consolidados atingiu uma carteira de crédito à habitação de 30,3 mil milhões (+5,6%). O crédito hipotecário na atividade em Portugal fixou-se em 21,8 mil milhões de euros em 31 de dezembro de 2025, registando um aumento de 11,4% face ao ano anterior, devido a uma crescente procura, impulsionada pela descida das taxas de juro e pelos incentivos estatais aos jovens.
Já a CGD registou uma subida do crédito à habitação de 10% para 28,1 mil milhões.
Por sua vez o Santander reportou uma carteira de crédito à habitação de 25,3 mil milhões de euros (+8,6%) e o BPI 17,2 mil milhões (+13%).
No crédito habitação, o BPI cresce mais rápido seguido da Caixa.
No outro lado do balanço, nos depósitos, o BCP e a CGD lideram. A CGD tem 78,2 mil milhões em depósitos (+3,3%) e o BCP registou 89,7 mil milhões de euros (+6,8%). O Santander tem um stock de 39,4 mil milhões (+6,2%); e o BPI reportou 30,5 mil milhões de depósitos (+7%).
As variações anuais são semelhantes (cerca de 7%) no crédito bruto e nos depósitos, indicando expansão geral do setor. Isto sugere equilíbrio entre funding (depósitos) e crédito em todos, mas com BCP a liderar.
Custos e Eficiência
Quando se olha para os custos o BCP e a CGD lideram. O BCP reportou 1.415,1 milhões (+8,3%) e a CGD 1.085,6 milhões, Só que na CGD os custos sobem apenas 2,1%.
O Santander, por sua vez, revelou 530,7 milhões (+0,6%) e o BPI registou custos operacionais de 509 milhões (+4%).
No rácio de eficiência, o mais eficiente é o Santander (28%), seguido da CGD (30%) e do BCP (37%). Aqui o BPI é o pior com 41%. O BPI é menos eficiente, mas controla melhor o crescimento de custos.
Em termos de capital, a CGD lidera com 21,2%, já depois do pagamento de dividendo histórico de 1.250 milhões de euros.
No banco liderado por Miguel Maya o rácio CET1 fixou-se em 16,1% em phased-in e em 15,9% em fully loaded, refletindo uma variação de -23 e de -40 pontos base, respetivamente, face aos rácios de 16,4% e 16,3% reportados na mesma data de 2024. Portanto confortavelmente acima dos rácios mínimos regulamentares definidos no âmbito do SREP (Supervisory Review and Evaluation Process).
O BPI supera aqui o Santander com um rácio de CET1 de 14% acima dos 13,5% do rival.
Portanto, o BCP e a CGD são os bancos com maiores lucros, receitas e expansão de balanço. O Santander domina em rentabilidade, eficiência de custos e baixo risco, mas enfrenta contração em margens.
O BPI compara bem na qualidade de ativos e cobertura de risco, mas onde se destaca é no crescimento acelerado em crédito à habitação. No entanto, o declínio nos resultados e rentabilidade deixa o banco refém da sua media dimensão.
O crescimento moderado no crédito (apesar da forte dinâmica do crédito à habitação) e depósitos e a pressão descendente nas margens financeiras marcaram o ano.
Em 2026, assumindo alguma continuidade, o setor pode beneficiar de estabilização de taxas, mas os bancos mais pequenos como o BPI precisam de estratégias para reverter as quedas.
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