Que país queremos deixar aos nossos políticos?

Os portugueses possuem um apurado sentido de responsabilidade. A rapidez com que se organizaram e tomaram decisões complexas a propósito da pandemia são disso exemplo.

É quando se apresentam grandes desafios, como superar a pandemia de Covid-19 e a consequente avassaladora crise económica, que devemos reflectir sobre que país queremos deixar aos nossos políticos – um país social e economicamente forte onde os políticos serão obrigados a estar à altura, ou um país corrompido que dobra aos seus caprichos, negociatas e compadrios?

Ao contrário do que nos tentam fazer crer, os portugueses possuem um apurado sentido de responsabilidade. A rapidez com que organizaram as suas vidas e tomaram decisões complexas e cruciais no início da pandemia comprovam-no.

Não esperaram que o Governo decretasse o confinamento para optarem pelo isolamento social, não aguardaram a decisão das escolas encerrarem para ficarem com os filhos em casa, não se cingiram ao colapso da economia e direccionaram os seus negócios e produtos para a nova realidade, desde as empresas que passaram a produzir máscaras, às adaptações nos serviços de atendimento ao público e restauração, como entregas e serviços ao domicílio, entre muitos outros exemplos. É um facto, somos um povo desenrascado, e, em altura de crise, essa característica é uma vantagem.

Assim, quando o Governo anunciou o “milagre português”, os portugueses não se entusiasmaram e não correram para as ruas, nem arrancaram de férias em fúria a bem da economia. Nem os portugueses, nem os nossos amigos estrangeiros que deram nota negativa à nossa situação epidemiológica, pelo que perdemos os turistas que vinham em torrentes, uma colossal entrada de dinheiro no território, sobrando um Agosto mortiço.

Depois, apesar da pandemia e da crise económica, do disparo no consumo de antidepressivos, e dos pedidos de apoio no Banco Alimentar e outras instituições terem triplicado, vimos as forças políticas extremas, esquerda e direita, criarem e nutrirem o monstro do racismo, convocando manifestações todas as semanas e alimentando a imprensa até à náusea, evitando assim falar das 1.800 vítimas de Covid-19, da fome, da pobreza de tantos depois de seis meses sem emprego, dos que perderam a sua habitação, dos idosos que morreram da forma mais sinistra no lar de Reguengos de Monsaraz.

É mais fácil manter o circo com os palhaços a funcionar do que trabalhar para o país. Mas não se esqueçam que a fome não é racista, quando chega, bate de igual forma à porta do branco, preto ou azul.

Mais. A ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social deu uma entrevista catastrófica onde admitia não ter lido o relatório da Ordem dos Médicos sobre as mortes no lar, entre outras barbaridades, e o país caiu-lhe em cima num coro de críticas. E depois das manifestações convocadas por partidos que levaram centenas para as ruas em pleno período de confinamento e posterior recato social durante a pandemia, eis que o PCP decide avançar com a Festa do Avante.

A sociedade civil voltou a bater o pé, convocando um boicote geral a este atentado à saúde pública e até os comerciantes da Amora, localidade do concelho do Seixal, decidiram encerrar os estabelecimentos em protesto durante os dias em que decorre a festa política. O evento prossegue, apesar de tudo. Depois tentem matar a fome às pessoas com manifestações e festas políticas, afinal, pão e circo é apanágio dos políticos.

Estas manifestações da sociedade deveriam orgulhar-nos do caminho que estamos a seguir enquanto portugueses e de um amanhã em que os políticos vão ter de seguir o país e estar à altura dele, em vez de ser o país a cair num poço sem fundo e sem esperança por um amanhã digno para os nossos filhos.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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