Quebrar em caso de emergência

No meio de uma pandemia a nível global, digna de um episódio da distópica série televisiva “Black Mirror”, foi bastante estranho ouvir alguém dizer “a economia não pode morrer”. As palavras proferidas pelo ministro das Finanças, Mário Centeno, no dia em que foi decretado o estado de emergência fazem, no entanto, muito sentido. Não sei […]

No meio de uma pandemia a nível global, digna de um episódio da distópica série televisiva “Black Mirror”, foi bastante estranho ouvir alguém dizer “a economia não pode morrer”. As palavras proferidas pelo ministro das Finanças, Mário Centeno, no dia em que foi decretado o estado de emergência fazem, no entanto, muito sentido.

Não sei se esse estado de emergência foi decretado cedo demais, tarde demais, ou mesmo se era absolutamente necessário. Não sei se outras hipóteses, mais graduais ou mais direcionadas, teriam sido melhores. Não sei se o nosso sistema de saúde estava, ou está, pronto para lidar com este inesperado choque.

Não invejo quem teve de tomar as decisões. Para Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, que, como líderes, já tiveram de enfrentar (ou pelo menos tentar enfrentar) uma das maiores tragédias das últimas décadas, os incêndios, esta poderá ter sido a decisão mais difícil das suas longas carreiras. Dos dois, não sei quem esteve bem, se o Presidente, se o primeiro-ministro, se os dois, ou nenhum deles.

Na realidade, isso já não interessa. O que interessa é que o sistema político, demonstrando uma inesperada maturidade, conseguiu acionar uma estratégia para conter um vírus altamente contagioso.

Fez-se o que os líderes acharam que tinha de ser feito. Infelizmente, isso envolve um cenário quase apocalíptico para todos. As escolas, os cinemas, as lojas, os estádios, vão estar fechados. As ruas e os escritórios vão estar vazios.

O efeito secundário de nos protegermos contra a Covid-19 vai ser de quebrar a economia, num caso de emergência. Não havia escolha, mas não nos desenganemos, vai mesmo partir. A economia. As leituras dos políticos, dos economistas, dos mercados, enfim, de todos, parecem-me demasiado otimistas. É natural, têm de evitar o pânico, porque só piora as coisas.

O remédio da sociedade contra o vírus é duro e vai produzir efeitos secundários fortes: no crescimento, nas pessoas, no desemprego, na pobreza, nas contas públicas.

Há que tomar remédios contra os efeitos desses remédios. É isso que os governos e os bancos centrais estão a tentar fazer e é disso que Centeno falava quando disse que não podemos deixar a economia morrer.

O problema é que essa segunda dose de medicação também vai ter efeitos, lá mais para a frente. O dinheiro barato do Banco Central Europeu vai sair caro, os apoios às pessoas e empresas vão ter de ser pagos, tal como os créditos que vão ser adiados.

Mas não há nada a fazer, é mesmo esse o único caminho. Esse e o de esperar, com serenidade e lucidez, que o vírus se vá embora tão rapidamente como chegou, e que o médico nos diga que podemos parar com esta maldita medicação.

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