As recentes notícias da não-recondução de diretores municipais no TBA – Teatro do Bairro Alto e Museu do Aljube, em Lisboa, são sintomas de uma doença que começa a alastrar na cidade: há uma nova estratégia cultural que vai ser imposta, em total contraciclo com todo o trabalho que tem sido desenvolvido em Lisboa nas últimas décadas e que se tornou uma referência cultural.

Se a preocupação de Carlos Moedas é sobretudo impor uma nova cultura economicista e de massas, a agenda da extrema-direita é um caso muito mais preocupante e que merece várias reflexões.

Em abstrato, a cultura não tem ideologia, mas o que na realidade acontece é ser capturada pelas relações de poder. Atualmente, o desafio é resistir às tentativas da extrema-direita de ingerência, controlo e imposição de uma cultura única.

Quando Klaus Mann, filho do grande escritor Thomas Mann, escreveu a obra “Mephisto”, inspirou-se na histórica verídica do ator alemão Gustaf Gründgens, um celebrado diretor de teatro que decide pactuar de forma oportunista com o regime nazi. O que nos pode ensinar esta obra?

Sob um regime autoritário, a cultura não desapareceu, os teatros não foram encerrados, mas passaram a ser instrumentalizados ao serviço de um determinado ideal. As instituições culturais tornaram-se um braço armado que defende a ideologia do regime. As obras são escolhidas a dedo para reforçar essa narrativa nacionalista e submissa.

O protagonista deixa-se iludir pela ideia de que está acima da política, mas na verdade escolhe trocar a sua integridade por prestígio e influência, não olhando a meios para atingir os seus fins. Nem sequer é necessário o recurso à violência para impor ideias, porque são as próprias pessoas que se autocensuram, reforçando assim a sua lealdade a uma cultura aprovada pelo regime.

No meio de uma arte que se pretende pura e nacional, tudo o que ousar ser diverso ou exibir algum tipo de pensamento crítico é rapidamente apelidado de “degenerado”. Muito já se escreveu sobre o termo “degenerado”. O regime nazi criou uma lista negra de “arte degenerada”, e inúmeros artistas modernos foram censurados e exilados.

Acharmos que a cultura é neutra ou imune a tensões é ignorar a realidade em que opera. Por cada Gründgens que aceita ser cúmplice, há outros que denunciam o controlo e subversão. E no fim, quem é recompensado? Quem é castigado? Quem beneficia mais da imposição de uma única cultura? Estas são as primeiras questões de uma longa história que está apenas a começar.