Quem ganha e quem perde

A ordem internacional em que vivemos nos últimos 70 anos assiste aos seus últimos dias e o vírus também já atingiu a Europa. A pandemia nada mais é que um pretexto para aquilo que já se vinha desenhando.

Globalismo vs. Nacionalismo

Depois do “America First” de Trump, do “Let’s Take Back Control” de Johnson, do “Brasil acima de tudo” de Bolsonaro e outras promessas de Xi-Jinping e de Putin de posicionarem os seus países no centro do mundo, a crise sanitária veio agora dar uma estocada final nas forças da globalização. Termos como “repatriação” e “capacidade de fabrico nacional” serão vistos com imbuídos de virtude.

Até mesmo políticas vetustas de “nacionalização” passarão a ser aceites como produto da independência necessária para que nenhum país, grande ou pequeno, possa ter que voltar a depender de qualquer outro, seja para o que for, máscaras, ventiladores mas também ovos e carne, cotonetes e álcool, componentes para antibióticos e para automóveis. Não interessa que a globalização tenha retirado 600 milhões de chineses da pobreza, garantido crescimentos económicos explosivos em países antes paupérrimos, como o Bangladesh, possibilitado a talentosos indianos trabalharem em Silicon Valley e a romenos e polacos irem para a Alemanha ou para o Reino Unido.

Não importa que cadeias de cooperação internacionais tenham permitido vencer o ébola e a varíola. Isto, claro, para não mencionar a mais óbvia das vitórias (e instrumento) da globalização, a World Wide Web, vulgo internet que, essa sim, mudou o mundo e dele fez um, e apenas um, e não a pobre soma das suas partes. A globalização voltará, porque apenas ela faz sentido. Nada disso interessa agora, ganha o nacionalismo.

Fronteiras Abertas vs. Controlos Fronteiriços

O medo da peste importada fez com que se levantassem as vozes clamando pelo fecho das fronteiras, embora o vírus já circulasse na comunidade e, portanto, o fecho de fronteiras não garantisse mais que uma falsa sensação de segurança. Fechar, fechar, fechar. Depois de décadas de crescente liberdade de circulação, apesar do 11 de Setembro, e em que o espaço Schengen representava o avanço último da confiança entre nações e um marco de civilização a que todos os países deveriam ambicionar, eis-nos perante a vitória das barreiras fronteiriças e da sua hedionda irmã gémea, a xenofobia.

É assim que assistiremos a um lentíssimo levantar de barreiras para fora da Europa, e mesmo dentro dela. Veja-se como a França e a Espanha impuseram quarentenas mútuas, que, como diz o povo, não é mais que “o roto a falar para o pobre”. Os Estados Unidos aproveitarão para dificultar o trânsito de pessoas e bens com a China, que culpa das maiores barbaridades, e também com a Europa, que vê como concorrente e não como aliada.

A humanidade quer viajar e explorar o mundo em busca de vida melhor. A prazo, as fronteiras tenderão a desaparecer. Mas, por agora, e talvez por alguns anos, esse anacronismo da política internacional, a fronteira, reaparecerá em força e sobre ela e sobre a sua defesa, muita ainda se irá escrever.

Instâncias Internacionais vs. Órgãos Nacionais

O ataque cerrado à Organização Mundial da Saúde é apenas mais um sinal da derrocada da ordem internacional vigente após a II Guerra Mundial e que os anteriores EUA, a NATO e a Europa Ocidental tanto fizeram por construir. Essa ordem baseava-se em regras e tratados multilaterais que facilitavam o comércio, a cooperação e a dissipação de litígios locais e regionais. Combatiam a fome e a doença. Promoviam a investigação e a justiça internacional. E também providenciavam a burocracia e organização necessárias à sua implementação.

A OMS, a FAO, a OMC (cujo Director-Geral acabou de apresentar a sua demissão) a OIT, o Tribunal Internacional da Haia e, obviamente, a sua casa-mãe, a ONU e o seu Conselho de Segurança são hoje organizações quase irrelevantes, objeto de instrumentalização em toda a espécie de litígios entre potências, diminuídas e desacreditadas nas missões que outrora lhe estavam confiadas. Até mesmo na União Europeia, um tribunal nacional (o Tribunal Constitucional alemão) ousa questionar um órgão europeu (o BCE) que responde perante o Tribunal Europeu de Justiça. E há quem lhe dê provimento e razão, ignorando os princípios fundadores da União da qual o povo alemão é, aliás, o primeiro e principal beneficiado.

A ordem internacional em que vivemos nos últimos 70 anos assiste aos seus últimos dias e o vírus também já atingiu a Europa. A pandemia nada mais é que um pretexto para aquilo que já se vinha desenhando. O caminhar da civilização é inexorável. No longo prazo, esta tem-se revelado cada vez mais generosa no serviço da humanidade.

Vivemos vidas mais longas e saudáveis que em qualquer outro momento da história. A pobreza cai consistentemente pelo mundo inteiro. O estado de direito vem fazendo o seu caminho e nunca tantos tiveram acesso a um sistema de justiça independente. Mas o caminho não se faz sempre em linha reta e ascendente. De vez em quando damos passos atrás. Mas temos que olhar para o horizonte e seguir sempre o rumo norte.

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