Quem queremos realmente ser?

Uma massa instrumentalizada na exploração dos instintos mais básicos? Ou uma imensa civilização de homens livres, pensantes e responsáveis?

O ser humano fez um percurso evolutivo de milhões de anos até chegar ao século XXI. Podemos afirmar que os últimos 120 anos foram os que viram um progresso mais rápido da história, as mudanças mais dramáticas e os cortes mais radicais.

Neste espaço curtíssimo de tempo tivemos duas grandes guerras de abrangência quase global, assistimos ao nascimento e à queda de impérios, fomos confrontados com a eclosão de novas ideias e ideologias, fomos à lua e habitámos no espaço, mas, mais importante que todos os grandes acontecimentos, afirmámos o primado da democracia, passámos a ter os direitos humanos como padrão de referência e a velocidade de transmissão e acesso à informação veio ligar o planeta e tornar visíveis as ilhas mais recônditas.

Querendo, hoje todos sabemos o que se passa em todo o lado, dando-nos a possibilidade da análise do local em conjugação com as implicações no todo global. Deixou de ser tolerável, embora continue a acontecer, a diferença de estilo de vida entre os ricos de Nova Iorque ou Xangai em contraste com a miséria crónica em que todo o povo do Haiti está submerso. Deixaram de ser toleráveis, embora ainda persistam, as diferentes opressões, como a Venezuela, a Coreia do Norte e a tragédia do Povo Palestino.

Os polígrafos vieram eficazmente responder à guerrilha das fake news, desmascarando os amigos de Bannon e os missionários de Soros. Hoje, há uma nova literacia baseada na capacidade de discernimento na selecção da informação. Há imenso lixo a par de muita qualidade. Confesso que o lixo não me incomoda particularmente, desde que o acesso ao rigor e à informação de qualidade estejam assegurados, como felizmente estão.

Na política, este fenómeno de rapidez na transmissão da informação teve o seu impacto. O que até há pouco eram alinhamentos estratégicos baseados em geografia, interesses e diplomacia, hoje transformaram-se, pelo menos em parte, em alinhamentos mais informais e de oportunidade.

Um modelo que tenha sucesso num país é rapidamente replicado noutros, em busca desse mesmo sucesso. Aqui, entra novamente a literacia, desta vez a política, para acudir ao discernimento do voto e das escolhas. Essencialmente, a importância de pensar em quem realmente somos, de onde viemos e para onde queremos ir.

Quando assistimos em Portugal à necrofilia política sem escrúpulos sobre o cadáver de uma criança barbaramente assassinada para reclamar a prisão perpétua, o que pensar? Que devemos seguir os nossos instintos mais básicos, toldados pela emoção, às mãos de um oportunista sem limites morais? Devemos esquecer que fomos pioneiros no fim da pena de morte, da escravatura e nas teorias de reabilitação e reinserção?

Quando assistimos em Portugal à reclamação do isolamento sanitário de uma etnia, o que pensar? Queremos ser cúmplices desumanos de um novo Gueto de Varsóvia ou do apartheid de Hebron? Quereremos tal ponto de desumanização?

Quando assistimos em Portugal à condenação veemente da libertação de alguns presos de crimes menores, para evitar uma mortandade pandémica nas nossas prisões, o que pensar? Quereremos mesmo contribuir para o caos? A cegueira do castigo ultrapassará as fronteiras da nossa humanidade?

Quando assistimos em Portugal a críticas ríspidas ao socorro de imigrantes e refugiados em condições precárias, para tentarmos ajudar estes seres humanos no escape possível à pandemia, o que pensar? Comparar o sucesso desta resposta pontual ao falhanço da resposta do Estado perante os lares da terceira idade, é uma perversão sem limites, dando a entender que a escolha entre vidas é uma possibilidade, desde que se escolham os que nós defendemos, os puros.

Estamos a viver o centenário do nascimento de São João Paulo II, Papa que mudou o mundo. A minha geração teve a infinita sorte de ser contemporânea deste Papado; vimos, ouvimos e vivemos a Sua presença, as Suas palavras, o Seu exemplo.

Ruíram muitos dos totalitarismos de então, dando-nos a responsabilidade de não permitir que outros se ergam em seu lugar. Testemunhámos a exaltação da dignidade humana, ficando obrigados a defendê-la sem olhar a esforços, seja no aborto, na eutanásia, no ataque à família ou na discriminação, na subjugação do homem pelo homem, no fomento da sociedade do ódio.

Quem realmente queremos ser? Uma massa instrumentalizada na exploração dos instintos mais básicos? Ou uma imensa civilização de homens livres, pensantes e responsáveis? Aceitamos o desafio de S. João Paulo II: não tenhais medo? Não tenhais medo!

A Nakba

No dia 15 de Maio assinalou-se a passagem de 72 anos sobre a Nakba, o grande êxodo palestino, de mais de 700.000 pessoas, após a ocupação e expulsão violenta dos palestinos das suas casas e terras para a instalação do novo Estado de Israel. Desde então, aquela pequena área tornou-se a zona mais conflituosa do mundo. Com culpas dos líderes de ambas as partes, não se conseguiu o objectivo de haver um Estado de Israel a viver em paz e segurança, a par de um Estado da Palestina independente, soberano, com direito à paz e à segurança, tal qual Israel.

A violação dos acordos internacionais e a política agressiva e opressora de colonatos levada a cabo por Israel, são uma resposta absolutamente desproporcional aos ataques sofridos, e uma indisfarçável marcha rumo à ocupação total e ilegal no quadro das nações. O regresso às resoluções das Nações Unidas, aos esforços de Camp David, a uma Jerusalém neutral e internacional, capital das três grandes religiões, é tão justo quanto urgente. Como bem disse Jimmy Carter, o Presidente americano que melhor conheceu esta realidade: Palestina, independência sim, Apartheid não.

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