Quem tem medo da segunda vaga?

Falar sobre a segunda vaga pode criar uma falsa sensação de segurança, pois indica que estamos num intervalo, num tempo de liberdade até ela chegar. O argumento mais claro, no final, é o seguinte – o vírus ainda não foi embora, portanto, falar sobre o seu regresso não faz sentido.

A partir de Hong Kong, um amigo relata que já chegou a terceira vaga da pandemia. Está tudo fechado, restaurantes, bares, até a piscina do condomínio, e não podem estar mais de duas pessoas juntas em público, diz, antes de lamentar que os planos para o verão ficaram limitados a passar mais tempo em casa.

Outro amigo parte de Lisboa e faz um stopover numa Paris descuidada, pelo menos comparativamente, com tudo aberto e lotado, sem grandes preocupações. Chega a uma Nova Iorque em estado de sítio, num país em que a subida do número de casos está a obrigar vários governadores estaduais a colocar o desconfinamento em marcha atrás.

Por cá, estamos preocupados por termos passado subitamente de aluno exemplar a rebelde mal comportado que não merece sequer estar nas graças daquele outro bad boy, o Reino Unido. Ao nosso lado, Espanha é novamente a ovelha negra do sul da Europa e até já faz Itália parecer um bravo ragazzo que ultrapassou os seus problemas.

Estamos e vamos aproveitar a época balnear, porque nos deixaram, porque precisamos de o fazer, caso contrário iríamos, muito provavelmente, enlouquecer. No entanto, a pedra que levamos no sapato (ou chinelo, neste caso) é o receio, praticamente a certeza, de que vem aí a dita segunda vaga.

A ideia que estamos todos nervosamente a tentar esquecer durante este desconfinamento é que após uma rentrée de teste em setembro, vamos enfrentar a fria e dura realidade em outubro de regresso a casa, novamente confinados, novamente em teletrabalho e em “tele-escola”.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem sido muito criticada pela reação à pandemia, com alguma razão, mas também com algum aproveitamento por parte de políticos como Donald Trump. No entanto, é a OMS que temos e se ouvirmos com atenção algumas das coisas importantes que diz, verificamos que fazem sentido.

Esta semana, por exemplo, alertou contra a noção da segunda vaga. Explicou que descrever a evolução em termos de vagas sugere que o vírus está a evoluir fora do nosso controlo, o que não é verdade, pois o nosso comportamento pode ajudar de forma decisiva a controlar a propagação.

Segundo a OMS, estamos ainda na primeira vaga, que é na realidade uma onda gigantesca. Vai continuar a subir e a descer, e o nosso melhor plano será aplaná-la para que se torne algo que não nos perturba.

A noção que a Covid-19 é um vírus sazonal é, portanto, errada e perigosa, explica a OMS. Tendo em conta, por exemplo, o número de casos nos EUA, gosta tanto do calor do verão como nós. Esta é a parte importante da mensagem. O hemisfério norte não pode ser complacente este verão, tem de estar em vigilância máxima e aplicar as medidas necessárias, especialmente no que toca a ajuntamentos sociais.

Vários especialistas alertam que o uso repetido do termo “segunda vaga” pelos media e por políticos como Boris Johnson é perigoso. Se, por um lado, pode ser usado como alerta, para dizer que é preciso ter cuidado para evitar uma nova vaga, por outro, pode ser empregue para justificar algumas decisões, como a do Reino Unido de excluir Espanha do corredor aéreo, com base num conceito que não obedece a critérios científicos.

Falar sobre a segunda vaga pode criar uma falsa sensação de segurança, pois indica que estamos num intervalo, num tempo de liberdade até ela chegar. O argumento mais claro, no final, é o seguinte – o vírus ainda não foi embora, portanto, falar sobre o seu regresso não faz sentido.

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