Quem usa as calças?

Fazer de ‘morto’ é uma prática que já vem da Antiguidade. O caso mais famoso envolveu Cleópatra, que se fez de morta e a coisa acabou mal: Marco António suicidou-se e ela adotou uma víbora como animal de estimação.

As redes sociais, e a TikTok em particular, são fantásticas para o avanço do conhecimento e realização do pleno potencial da natureza humana.

Se tudo o que cai na rede é peixe, este mês caiu nesta que Thea Loveridge anunciou a falsa morte e organizou um pretenso funeral para o seu companheiro para se livrar da amante deste, uma ex-namorada que reatou a relação com ele na gravidez de Thea. Tudo isto foi fácil porque o dito companheiro foi preso, e quer a amante quer os amigos não sabiam.

Thea conta a história num vídeo, explicando como a “outra” (na verdade, a mesma) mandava mensagens diárias ao seu companheiro a perguntar por onde andava e porque não lhe respondia até Thea “postar” a notícia da morte e falsas fotografias do funeral. O vídeo de Thea a contar a história já teve mais de um milhão de visionamentos.

Não é a primeira vez que alguém se faz de morto. Já na Antiguidade houve casos destes, o mais famoso com Cleópatra, que se fez de morta e a coisa acabou mal: Marco António suicidou-se e ela então adotou uma víbora como animal de estimação. Jacquotte Delahaye, órfã de mãe à nascença, fez-se pirata nas Caraíbas depois do pai ter sido assassinado, deixando-a com um irmão deficiente mental. Capturada, para escapar fingiu a sua própria morte e viveu uns anos como homem, até regressar à pirataria e conquistar uma ilha, em 1656, sobre a qual reinou. Morreu a defendê-la.

Em finais do século XVIII viveu no Massachusetts Timothy Dexter, o excêntrico que fez fortuna a especular em moedas depreciadas. Autoatribuiu-se o título de Lord e construiu uma mansão com 40 estátuas de heróis americanos, incluindo a sua, que tinha na base a inscrição “sou o maior do Este e do Oeste, e o maior filósofo de todos os tempos”, o que mostra um elevado conceito de si próprio para quem deixou a escola aos oito anos. Fez construir na cave um mausoléu e forjou a sua morte para ouvir os participantes no funeral elogiarem-no postumamente; descompôs a mulher à frente de todos por não estar suficientemente triste e chorosa.

Aleister Crowley, ocultista britânico e autoproclamado “Grande Besta”, falsificou a sua morte na Boca do Inferno com a cumplicidade de Fernando Pessoa em 1930, entre outras razões para “chatear” Hanni Jaeger, a última iniciada no seu culto. Foi encontrado três semanas mais tarde em Berlim, “alive and well”.

Em 1974, John Stonehouse, parlamentar trabalhista, ministro de Harold Wilson e aspirante a primeiro-ministro, para fugir a uma vida complicada e à mulher, após uma longa preparação desapareceu numa ida à Florida e foi dado como morto, para assumir a identidade de Joe Markham. Foi preso por ter sido confundido com o desaparecido Conde de Luncan e teve que baixar as calças para se verificar que não era – faltava uma cicatriz. Deportado para Inglaterra, foi condenado a sete anos de prisão por fraude. Pois, fazer de morto não paga, nem na política, Dr. Rui Rio.

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