A internet está obcecada com a inesperada história de amor que foi revelada entre o ator Liam Neeson, de 73 anos, e Pamela Anderson, de 58 anos. Quem cresceu com estes dois atores sabe que não poderiam ter tido carreiras mais distintas. Neeson é um ator irlandês aclamado, que perdeu a mulher há muitos anos num acidente de ski. Pamela Anderson saltou para o estrelato com a série “Baywatch”, onde encarnava o arquétipo redutor da loura voluptuosa. Sofreu ao longo dos anos com maus casamentos e devassa da vida privada, até ao dia em que decidiu ser ela a contar a sua história e ser livre. Ambos descobriram uma química maravilhosa nas filmagens da comédia “The Naked Gun”.

Num mundo onde as relações amorosas heterossexuais atravessam uma espécie de crise, estes romances espontâneos, com demonstrações públicas de afeto, mostram-nos que nem tudo está condenado ao cinismo, azedume e quebra de comunicação. E nem todas as histórias de amor têm de ser apenas entre atores jovens, impossivelmente belos, perfeitos e privilegiados.

A verdade é que, entre a classe média, o fosso de comunicação entre homens e mulheres cresceu, levando a posições que aparentam ser, à partida, irreconciliáveis. Assistimos ao ressurgimento de culturas masculinas tóxicas que defendem o patriarcado, enquanto as mulheres decidem tomar as rédeas das suas vidas e amar-se a si próprias. Em França, em 2018, uma mulher casou-se com ela própria, dando a conhecer a prática de sologamia ou autocasamento, numa afirmação de autoestima.

É fantástico observar como a autoestima da mulher passou a ser muito mais valorizada nos últimos anos, face ao desalinhamento crescente entre mulheres e homens hetero. Ao contrário do que se poderia pensar, as mulheres não passaram a rejeitar os homens, rejeitam, sim, parceiros que não retribuam em igual medida os seus esforços.

Nos dias de hoje, abrir espaço ao amor não nos torna necessariamente mais felizes, nem deveria ser uma obrigação a cumprir mal a mulher atinge a idade adulta. Mulheres jovens vivem ainda sob enorme pressão social, enquanto a geração dos “entas” está a libertar-se, mais do que nunca, de inúmeros condicionamentos e do peso das convenções. O verdadeiro desafio é podermos dar as condições ideais para que as escolhas das mulheres possam ser tomadas em liberdade e sem privação, face ao aumento do custo de vida.

Quer isto dizer que já não há histórias de amor? Existem, mas queremos melhores histórias de amor. E que tipo de histórias de amor procuramos? Uma versão atualizada de “Orgulho e Preconceito”, obra que vai ser mais uma vez adaptada para filme e série de TV? Não deixa de ser curioso observar a romantização da época Vitoriana e Eduardina, a julgar pelo sucesso de séries como “Bridgerton”, “The Gilded Age” ou “The Buccaneers”. Entre a romantização do passado e o desencanto do presente, encontramo-nos numa encruzilhada em que as novas dinâmicas tecnológicas têm contribuído para um maior afastamento, toxicidade e rutura.

Talvez o sucesso dessas séries entre o público feminino demonstre que anseiam por uma ligação mais real, sem terem de passar por ecrãs negros ou catálogos de dating apps. Seja como for, enquanto existirem histórias como a de Liam Neeson e Pamela Anderson, mantemos a esperança de que nem tudo está perdido.