Queremos um país sem livrarias?

Atrás do balcão de uma livraria independente está uma pessoa. Alguém que conhece o leitor, os livros. Alguém que não é um algoritmo insensível. Uma pessoa que acredita que vender livros não significa esmagar terceiros.

O cozinheiro, o ladrão, a sua mulher e o amante dela ou de como se deturpa o mercado e pessoas honestas passam por vis gananciosas e reles subsídio-dependentes.

Andam por aí muitos equívocos relativos ao mundo dos livreiros e das suas livrarias. Sobretudo agora, que a situação de pandemia provocou o encerramento de portas das livrarias, gerando um clima de salve-se quem puder, que só não é tão marcante como o do naufrágio do Titanic por lhe faltar a orquestra a tocar. Está, portanto, preparado o caldo, pela mão de um cozinheiro de forma algo caricata, cheio de protuberâncias abjectas e nefasta infecciosidade.

Apesar de a maior parte das pessoas o desconhecer, as livrarias independentes têm, em média, um desconto comercial (ou seja, o preço a que os editores e distribuidores lhes vendem os livros para que os livreiros os revendam ao cliente final – o leitor) que ronda os 30%. Assim, se um determinado livro custa 10€ ao cliente da livraria, este tê-lo-á adquirido ao editor por 7€. É com esta margem que terá de fazer frente às múltiplas despesas – que são comuns à maior parte do comércio local (como renda, água, luz, ordenados, seguros, impostos, segurança social, sacos, papel de embrulho, rolos de papel para a máquina registadora e terminal de multibanco, contabilidade e etc…).

Eis senão quando os editores, com pouquíssimas excepções, decidem contrariar o encerramento das portas das livrarias vendendo directamente nos seus sites ao cliente final, o leitor. E fazem-no com descontos de 30% a 80%; ou seja, descontos superiores aos que praticam às livrarias independentes, que apesar de tudo continuam também a entregar livros aos seus clientes, que os encomendam através dos sites, dos emails e do telefone. E o mais extraordinário é que quem passa por ladrão e ganancioso é o livreiro independentes que nunca poderá fazer tamanhos descontos aos seus clientes.

Ora, o editor, para não perder demasiado com os seus estratosféricos descontos, que já se vão tornando hábito, estabelece um preço inflacionado para o livro acabado de lançar. Assim, compensa estas pseudo-ofertas constantes e, mantendo o seu sorriso de dentes alvos qual vendedor de automóveis de filme norte-americano, pode aparecer como o garante de um preço justo para o livro que produziu, sobre o qual definiu o preço e que optou por vender mais barato, desde que o leitor lho compre directamente, claro. Sempre criativo, o editor inventa mil e uma maneiras de aliciar o leitor, apesar de haver em Portugal uma Lei do Preço Fixo para o livro, Lei essa que é mais enganada do que a mulher do Casanova, tivesse ele uma.

Obediente à Lei e às regras de um mercado justo e leal, o livreiro independente estará, assim, condenado a desaparecer, como um amante envelhecido, sem os atractivos da novidade? Não necessariamente, mas depende exclusivamente dos leitores compradores de livros.

É que atrás do balcão está alguém que conhece o leitor, conhece os livros, gosta de falar sobre eles; alguém que pode sugerir ao leitor algo de que vai gostar, mesmo que nunca tenha ouvido falar, alguém que não é um algoritmo insensível, um terminal informático que não cumprimenta, não sorri, não diz bom dia, não fica com as chaves de casa do cliente para dar à miúda quando esta vier da escola, que não lhe recebe o correio por não estar em casa, que não lhe responde com simpatia ou que, simplesmente, não lhe responde.

Não, atrás do balcão de uma livraria independente está uma pessoa. Que também precisa de trabalhar e de fazer dinheiro e que, cada vez mais, se sente um David contra o Golias. O facto de, nessa história bíblica, ter ganho o elo mais fraco dá alguma esperança. Mas não paga as contas.

Há grandes questões que se deverão pôr quando nos pudermos livrar da pandemia: que mundo queremos? Que futuro vamos construir? Um mundo onde a procura do lucro justifica tudo? Mesmo a consequente desumanização? Onde as relações entre as pessoas se fazem por intermédio de máquinas e de algoritmos? Quem lê sabe que há alternativas. Continuemos a ler, devagar ou sofregamente, clássicos ou bestsellers do momento, ficção ou ensaio, mas de forma justa e sem necessidade de esmagar ninguém.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

Ana Coelho assina este texto na qualidade de livreira e também como membro da ReLI – Rede de Livrarias Independentes

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