Quinta das senhoras: melhor pequena produtora mundial é de Marialva

Reside na aldeia histórica de Marialva, no desertificado concelho de Mêda, distrito da Guarda. Ganhou no final de 2018 o prémio de pequeno melhor produtor mundial de vinhos, com área de vinha até 20 hectares. Conheça a história da Quinta das Senhoras, um projeto familiar, e das senhoras que o começaram a liderar há cerca de 150 anos e que são a razão de ser do nome da casa e dos vinhos. Começando pela Dona Carolina, que regressou do Brasil viúva, mas rica, e iniciou o projeto familiar que vai na quinta geração.

A Quinta das Senhoras foi considerada a melhor marca de vinhos a nível mundial produzida em propriedades com uma área de produção até 20 hectares (‘Best Producer up to 20 ha’). Uma espécie de Óscar (estamos em semana deles) para o melhor pequeno produtor de vinhos a nível global. O galardão foi atribuído pela Golden Globe 2018, uma competição que reúne os resultados de vários trophies para homenagear os melhores produtores de vinho no final do ano passado, na qual estiveram a concurso mais de 6.700 produtores vitivinícolas dos cinco continentes, tendo sido provados mais de 18 mil vinhos oriundos de 35 países. O que ainda destaca mais o feito desta produtora localizada em Marialva, uma aldeia histórica do distrito da Guarda.

A nomeação foi revelada a 11 de dezembro pela organização das provas ‘Wine Trophy’, com o cunho da ilustre Deutsche Wein Marketing. Os troféus da DWM – Portugal Wine Trophy, Berliner Wein Trophy e Asia Wine Trophy – dividem-se em quatro momentos ao longo de um ano e têm a chancela da OIV – Organização Internacional da Vinha e do Vinho. E apesar de serem ainda poucos os que conhecem em Portugal esta pequena produtora de vinhos da Beira Interior, o prémio em causa colocou os vinhos da Quinta das Senhoras a uma escala planetária. Aliás, todo o ano de 2018 foi de contornos olímpicos para a Quinta das Senhoras, que também arrecadou prémios no Portugal Wine Trophy e no Berliner Wein Trophy.

“Além das honras materiais inerentes aos vencedores, esta é também uma oportunidade única de colocar no mapa mundial a desertificada região do concelho de Mêda e dar a conhecer o seu património vitivinícola e cultural”, destaca um comunicado da Quinta das Senhoras. O mesmo documento acrescenta que “o sabor único dos vinhos DOC [Denominação de Origem Controlada] da Quinta das Senhoras (…) resulta do encontro entre o terroir característico da Beira Interior e o microclima do Douro”.

Daí até conquistar o palato dos maiores especialistas mundiais em vinhos foi um passo curto, mas decidido. Os vinhos Quinta das Senhoras DOC 2013 e Quinta das Senhoras DOC 2014 foram os representantes portugueses que arrecadaram as medalhas de ouro no Portugal Wine Trophy e Berliner Wein Trophy, respetivamente. Os vinhos Quinta das Senhoras DOC vencedores neste Trophy foram também os vencedores das medalhas de prata nas edições de 2017 e de 2018 do Concurso Nacional da Beira Interior. A colheita de 2013 foi premiada com a ‘Escolha da Imprensa’, na categoria de vinho tinto, da revista de vinhos ‘Grandes Escolhas’.

Por seu turno, o vinho tinto Quinta das Senhoras DOC 2011 conquistou a medalha de prata do Concurso de Vinhos Portugueses 2016, tendo obtido uma “pontuação elogiosa” na prova de vinhos de Salamanca. Em Bordéus, a celebração dos vinhos da Quinta das Senhoras foi unânime, tendo todos eles recebido de Andreas Larsson, considerado o melhor sommelier do mundo, pontuações entre os 90 e os 93 pontos.

As mulheres de Marialva

A Quinta das Senhoras reclama ser uma produtora de vinhos com história, genuínos, de produção em modo biológico, sem adição de produtos ou substâncias e respeitando as tradições vinícolas dos nossos antepassados.

É um projeto familiar que se encontra já na quinta geração. E aqui entronca a razão de ser do nome. “Nas primeiras três gerações, este projeto empresarial vitivinícola foi liderado por mulheres, por senhoras”, conta-nos Rafael Roque, um dos administradores atuais da Quinta das Senhoras. O que não deixa de ser sintomático numa época como a presente, em que tanto se fala de igualdade de género e de maiores oportunidades para o sexo feminino. Em Marialva, outra ironia da linguagem, as mulheres, as senhoras, já há muito que tinham conquistado tudo a que tinham direito. Foram elas a Dona Carolina, a Dona Albertina e a Dona Maria do Céu, respetivamente, tetravó, bisavó e avó de Rafael Roque.

Chegados à quarta geração da família, entrou em cena o pai de Rafael, o senhor Hélder. A quinta geração conta, além de Rafael e do seu irmão Cláudio, com outra senhora, a sua irmã Sara, para voltar a fazer jus ao nome da casa.

Mais de 150 anos de história

“É um projeto familiar com mais de 150 anos e o nome da Quinta das Senhoras pretende ser uma homenagem à minha tetravó, à minha bisavó e à minha avó. Só com a geração do meu pai e com a minha é que a Quinta das Senhoras passou a ser liderada por homens. Mas, na minha geração, há também a minha irmã”, orgulha-se Rafael Roque. O jovem produtor acrescenta ainda que a designação da casa pretende ser também uma homenagem à Rainha Santa Isabel, que passou por Marialva a caminho do seu casamento com El Rei Dom Dinis, em Trancoso. Além de a rainha Santa Isabel ser também a padroeira da cidade de Coimbra, onde reside o clã familiar da Quinta das Senhoras.

“A história da Quinta das Senhoras começa com a minha tetravó. Ela e o meu tetravô decidiram emigrar para o Brasil, para o Paraná, para uma localidade que ainda hoje existe e que se chama precisamente Marialva. O meu tetravô morreu na travessia, alvo das pestes de então. Mas a minha tetravó decidiu prosseguir sozinha e decidiu plantar vinhas no Brasil. Ganhou bastante dinheiro e de volta a Portugal criou o projeto familiar da Quinta das Senhoras, aqui em Marialva”, conta-nos Rafael Roque.

O mesmo responsável explica-nos que, “agora, decidimos dar a conhecer os nossos vinhos, que são únicos e diferentes dos que andam aí a ser comercializados”. A Quinta das Senhoras tem uma extensão de cerca de 20 hectares, dos quais apenas 13 ou 14 hectares são ocupados com plantação de vinha. Além disso, a quinta produz frutas de todo o tipo, excepto citrinos, quase toda para consumo próprio e de amigos.

“Nos últimos anos, temos andado muito ocupados com o processo de lançar a marca. Antes, vendíamos mais vinhos a granel. Hoje em dia, temos Quinta das Senhoras DOC 2011, 2013 e 2014 em tintos e Quinta das Senhoras DOC 2015 e 2016, em brancos. A nossa produção anual anda na casa das oito a dez mil garrafas por anos”, adianta Rafael Roque. Sobre os próximos lançamentos de vinhos da Quinta das Senhoras no mercado nacional, Rafael Roque prevê novidades para daqui a dois ou três meses. “Um novo branco é garantido. E estamos a ver se já temos condições para colocar cá fora o tinto de 2015 ou de 2016. Temos por hábito só comercializar vinhos após três ou quatro anos de estágio. E não nos interessa ter uma grande panóplia de vinhos no mercado”, assegura Rafael Roque.

Este responsável garante ainda que a produção de vinhos da Quinta das Senhoras se pauta por “técnicas muito rudimentares, sem fazer estágio em cubas, antes em lagares de granito com mais de 100 anos”. As castas usadas pela Quinta das Senhoras são o Touriga Nacional, Touriga Franca, Aragonez e Sousão, em tintos; e o Viosinho e o Gouveio, nos brancos.

Tendo como cartaz uma aldeia histórica, o enoturismo será sempre uma mais-valia para a Quinta das Senhoras, embora ainda não seja uma atividade muito regular. “Estamos a pensar criar um espaço mais acolhedor para as salas de rovas”, revela Rafael Roque.

“Neste momento, a Quinta das Senhoras é uma empresa de capital jovem, que beneficia muito da experiência e do conhecimento do setor do meu pai. Mas, tirando o prazer de termos arrecadado todos estes prémios, isto é só despesas. Temos conseguido arranjar entre 10 e 15 mil euros por ano”, queixa-se Rafael Roque.

Preparar arranque da exportação

E quem são os clientes da Quinta das Senhoras, agora que o céu é o limite? “Ainda só estamos a trabalhar o mercado interno. Tem havido propostas, mas não nos têm interessado, porque nos obrigariam a alavancar bastantes despesas. E é preciso ter em atenção que a Quinta das Senhoras é uma empresa que, além da grande ajuda do meu pai, assenta em capitais próprios de três irmãos”, explica-nos Rafael Roque. E no mercado nacional, os vinhos da Quinta das Senhoras são essencialmente canalizados para o setor da restauração e para as garrafeiras.

No entanto, os prémios recentemente angariados, nomeadamente, o ‘Best Producer up to 20 ha’, não deixam de abrir portas no exterior à Quinta das Senhoras. O último exemplo desse impacto positivo foi o convite para participar na 6ª edição da Wein Mess Berlim 2019, um certame quase equiparado à famosa Prowein, que se realizou na capital alemã no passado fim de semana (de 15 a 17 de fevereiro). A oportunidade serviu para aumentar a notoriedade dos vinhos da Quinta das Senhoras fora de portas, num evento em que se destacaram como o único produtor vitivinícola português, e para Rafael Roque desenvolver contactos que permitam à empresa iniciar as exportações. Mesmo que questionado pelo Jornal Económico sobre o resultado dessa iniciativa, tenha sido pouco expansivo. “Correu bem”, garantiu o responsável. Pelo que antes ficou exposto, parece ser uma constante e uma imagem de marca da Quinta das Senhoras há cinco gerações.

Artigo publicado na edição nº 1977, de 22 de fevereiro, do Jornal Económico

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