Esta semana, foi anunciado um cessar-fogo de 60 dias entre o Líbano e Israel, ao qual se seguiram notícias de centenas de famílias libanesas a regressarem ao sul do Líbano depois dos ataques e destruição causados por Israel nos últimos meses.

Poderá a natureza de um conflito como este permitir o regresso à normalidade? Enquanto Gaza continuar a ser devastada e a sofrer atrocidades e relatos diários de violação dos direitos humanos, a normalidade serve apenas para as aparências.

A História já nos ensinou que a raiva e a frustração são um incentivo poderoso para a radicalização. Não nos podemos esquecer da história da própria resistência palestiniana, de como ela cresceu a partir do fracasso dos governos árabes em derrotar Israel na Guerra dos Seis Dias.

Os primeiros movimentos, a Fatah e a Frente Popular de Libertação da Palestina, consolidaram-se na década de 60, após a Guerra dos Seis Dias, com milhares de jovens nos campos de refugiados a aderirem às organizações palestinianas após a derrota humilhante infligida por Israel ao Egito, Palestina, Jordânia e Síria.

Foi um ponto de viragem importante para a causa palestiniana em que ninguém se atreveu mais a questionar o seu direito à resistência. Nos campos de refugiados na Jordânia e no Líbano, muitos juntaram-se à luta armada e aos movimentos de guerrilha. Deixados sem alternativas, criaram uma resistência armada, violenta e retaliatória, que marcou indelevelmente as décadas de 70 e 80 no Médio Oriente.

Embora estes acontecimentos tenham ocorrido num contexto histórico inteiramente diferente, os sentimentos permanecem imutáveis. Cortar a cabeça da hidra só faz outras cabeças surgirem no seu lugar, enquanto a violência continuar a gerar violência e opressão.

Milhares de jovens empobrecidos e frustrados, e que não conheceram outra existência para além de um ciclo permanente de violência, servem de “carne para canhão” a múltiplas organizações, em especial quando são testemunhas do fracasso das instituições. Mas não só. Governos no mundo inteiro falharam de forma gritante perante os palestinianos neste último ano.

Até que ponto muitos jovens árabes conseguirão ignorar, na próxima década, o fracasso global das instituições em lutarem pelo direito palestiniano ao seu território e a uma vida digna? A radicalização não é um fenómeno difícil de prever, nem poderá ser travado enquanto a desigualdade de forças persistir. Tudo indica que estamos perante um ciclo sem fim à vista.