Recordando o meu Mestre das Finanças

O Professor Oliveira Marques foi um notável professor de finanças e gestor empresarial, que merece ser recordado por tudo aquilo que contribuiu para as finanças e para o ‘know-how’ dos seus alunos e dos seus pares.

Enquanto docente de disciplinas financeiras, todos os anos leciono um conjunto de tópicos que pretendo que estejam atualizados e proporcionem aos seus destinatários um processo de aprendizagem efetivo, agradável e, principalmente, útil. Um desses tópicos relaciona-se com um instrumento de análise financeira e gestão empresarial a que designo de mapa de cash flow, diferente do mapa de demonstração de fluxos de caixa sugerido pelos normativos contabilísticos.

Ano após ano, o forte impacto desta temática no expertise financeiro dos alunos, em particular daqueles com mais experiência ou interesse na área das finanças empresariais, constitui sempre uma experiência agradável que não me surpreende. Por isso, gostava de deixar aqui uma sentida homenagem ao seu autor, e meu mestre, Professor Manuel Oliveira Marques, que, infelizmente, já não se encontra entre nós.

Reforço aqui que o Professor Oliveira Marques foi um notável professor de finanças e gestor empresarial, que merece ser recordado por tudo aquilo que contribuiu para as finanças e para o know-how dos seus alunos e dos seus pares, incluindo o referido mapa de cash flow.

Todos os anos eu faço questão de salientar as incríveis vantagens para o expertise em finanças empresariais associadas ao referido mapa de cash flow, construído e desenvolvido pelo Professor Oliveira Marques. Diga-se que o mapa é por alguns conhecido como o mapa dos fluxos de tesouraria, que inclui alguma terminologia que achei que podia ser melhorada, tal como chamar “cash flow de autofinanciamento” ao seu “fluxo gerado de tesouraria”, entre outras alterações.

Recordo agora, para quem não conhece o mapa de cash flow, as principais vantagens do mapa face às suas alternativas. Dados os problemas dos indicadores de liquidez tradicionais para refletir de forma minimamente eficaz a liquidez empresarial, torna-se necessário recorrer ao conceito de cash flow, ou seja, o saldo entre recebimentos e pagamentos, que convenientemente calculado permite efetivamente explicar a liquidez.

Por um lado, este mapa tem a clara vantagem de separar decisões (sobretudo) discricionárias da gestão, como é o caso do “financiamento externo” (p.e., recurso a dívida ou ao capital de sócios/acionistas) e das “aplicações de cash flow“ (p.e., investimento e pagamento de dividendos), face a efeitos económico-financeiros que resultam de forma espontânea da atividade da empresa, incluídos no autofinanciamento.

Por outro lado, existem dois conceitos extremamente importantes de cash flow de liquidez, o “cash flow operacional” e o “cash flow de autofinanciamento”, sendo que enquanto que o primeiro é presença quase certa nos mapas alternativos, o segundo é ausência perfeitamente inexplicável dada a sua extrema relevância e crucial importância.

Os efeitos secundários da determinação do autofinanciamento (ou financiamento interno) são fundamentais. Em primeiro lugar, porque o agregado seguinte do mapa é o financiamento externo, permitindo ao analista ter uma perspetiva única da forma como foi assegurado o financiamento total no período, já que apenas um mapa (único) que reconheça o autofinanciamento pode dar. Em segundo lugar, o autofinanciamento é a variável que permite relacionar direta e eficazmente todas as decisões estruturais de investimento, financiamento e de pagamento de dividendos, influenciando até modelos da teoria financeira como a “pecking order”.

Em síntese, sempre que leciono este fantástico instrumento de análise financeira e gestão empresarial recordo-me com imensa saudade da pessoa generosa e brilhante que, sem dúvida, mais me marcou profissionalmente e de cujas lições de finanças e da vida mais sinto falta.

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