Enganam-se os que pensam que a recuperação petrolífera será o único baluarte a longo prazo da reconstrução da Venezuela, diz Luisa Palacios, um dos nomes mais procurados em busca de informação credível sobre o setor energético do seu país natal.
Hoje especialista de referência baseada em Nova York e pesquisadora da Universidade Columbia, foi presidente do conselho da Citgo, empresa de energia sediada nos EUA e de propriedade da estatal do petróleo venezuelana, PDVSA, que nos últimos anos entrou numa disputa judicial e está prestes a ser vendida para pagar a credores na Venezuela.
Nesta entrevista, Palacios diz que com investimentos relativamente simples é possível elevar a produção venezuelana de menos de um milhão de barris de petróleo por dia para 1,5 milhão. Mas que levá-la a patamares pré-destruição do parque industrial, em torno de 3,5 milhões de barris por dia, deve exigir até dez anos e um investimento de cerca de 100 milhões de dólares.
Ainda que concorde em linhas gerais com o plano do governo americano para a Venezuela, diz que uma transição política é inegociável. “[As mudanças] serão muito difíceis sem um governo legitimamente eleito, que acredite na propriedade privada, no papel do setor privado no desenvolvimento económico, em boas regras do jogo, na segurança dos trabalhadores e nos direitos humanos”.
Quais são os reais benefícios para os Estados Unidos em ter o controlo do petróleo da Venezuela?
Eu mudaria o enfoque. Te responderia qual deveria ser a importância dessas mudanças para o benefício dos venezuelanos. Vinte e cinco por cento da população teve de deixar o país. Esse é um país que tinha um PIB de mais de 300 mil milhões de dólares e agora tem um inferior a 100 mil milhões. Em termos de PIB per capita, hoje a comparação da Venezuela é com o Haiti.
O que vimos durante o chavismo e o madurismo foi uma destruição económica, social e ambiental, a destruição do aparato produtivo. Essas mudanças que estão a ocorrer precisam ter como objetivo entrar no caminho da recuperação económica para o bem-estar dos venezuelanos, para que eles possam retornar ao seu país e ajudar na reconstrução nacional.
Calcula-se que os processos arbitrais das empresas petrolíferas americanas e europeias em tribunais internacionais custarão ao país algo entre 20 mil milhões e 30 mil milhões, mas esses números não refletem toda a destruição ocorrida em outros setores que não o petrolífero, com empresas que talvez não tivessem um caixa suficientemente sólido para iniciar processos arbitrais. O organismo que reúne as indústrias venezuelanas calculou que, em cinco anos, houve o encerramento de mais de 500 mil empresas.
O petróleo está no centro da discussão, porque mais de 90% das exportações da Venezuela são petróleo. Portanto, não há como analisar nada disso sem uma recuperação do setor petrolífero. Mas isso não é suficiente. Será necessário reconstituir a economia do país. Há uma questão de regras do jogo, de governança, de respeito ao meio ambiente e aos direitos humanos que precisa existir.
Ainda há poucos detalhes do plano de Trump. Mas o que sabemos é que o país continua liderado pelos mesmos chavistas de antes. Nessas condições, é possível dizer que haverá uma mudança real na vida da população?
Não acredito que seja possível ter a recuperação que a Venezuela merece sem um governo legítimo, que gere confiança. Isso precisa de terminar, em algum momento, numa eleição. E acredito que a estrutura proposta pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, ao pensar a Venezuela em termos de primeiro uma estabilização, depois uma recuperação e, em seguida, uma transição, faça sentido. O que eu não acredito é que essas três coisas sejam tão fáceis de fazer de forma sequencial.
Mais cedo ou mais tarde, você vai precisar de elementos claros não apenas de estabilização mas também de recuperação, e não apenas de estabilização e recuperação mas também de transição. Qualquer plano da oposição também começa com a recuperação da indústria petrolífera como motor para avançar para outras fases da reconstrução da Venezuela. E há diferenças quanto a se essa recuperação petrolífera é suficiente. Para mim, não é.
O país também precisa de avançar para uma gestão responsável dos seus outros recursos naturais. A Venezuela pode desempenhar um papel estratégico na região em termos de segurança energética, pois detém 60% das reservas de gás natural da região.
Também possui reservas de minerais críticos, e, numa etapa de transição energética, não basta apenas ter petróleo para alcançar uma recuperação sustentável. Assim, o gás natural e o setor de mineração são áreas com enorme potencial e possibilidades, mas também são setores com graves problemas de governança e sérios impactos ambientais. No passado, a Venezuela foi um produtor regional muito importante de bauxita, alumínio e ferro. Há potencial em níquel, carvão e granito.
Existe aí um espaço muito grande para que um esforço de remediação financeira e ambiental leve também à regeneração de comunidades, a outras formas de trabalho e à melhoria da qualidade de vida fora da capital. Mas isso será muito difícil de fazer sem um governo legitimamente eleito, que acredite na propriedade privada, no papel do setor privado no desenvolvimento económico, em boas regras do jogo, na segurança dos trabalhadores e nos direitos humanos. Caso contrário, não haverá uma repatriação significativa dos venezuelanos, porque eles não se sentirão seguros no seu próprio país, nem uma recuperação dos capitais, porque os investimentos não se sentirão protegidos.
Qual projeção podemos fazer sobre a produção do petróleo? Do tipo, “se for feito X, chegamos a Y barris por dia”.
Hoje, a produção é inferior a um milhão de barris por dia. Quando Chávez chegou à Presidência, no final da década de 1990, a produção havia atingido seu pico, quase 3,5 milhões de barris por dia. Depois, começou um declínio, mas não foi abrupto. Esse declínio tornou-se acentuado a partir de 2004, quando começaram a mudar os termos fiscais e contratuais, forçando uma maioria da PDVSA em todos os contratos.
Na bacia do Orinoco, onde estão as maiores reservas do país, há reservas muito pesadas, semelhantes às do Canadá. O produto extraído não pode ser comercializado como está. É preciso convertê-lo por meio de um processo de refino para obter um petróleo sintético que possa ser exportado, ou então misturá-lo com um diluente.
O ponto é que, se você conseguir flexibilizar os termos de investimento para que os investidores atuais tenham acesso a diluentes, é possível aumentar a produção relativamente rápido, em um ou dois anos. São campos que já produzem hoje, mas muito abaixo de sua capacidade.
Acredito que seja possível chegar a 1,5 milhão de barris por dia. Por quê? Porque esse já era o nível de produção antes das sanções. Algumas condições precisam de ser atendidas, mas não é impossível. Agora, isso é melhor do que a situação atual, mas não é algo estável.
Para avançar além disso, são necessários investimentos maciços. Diferentes especialistas apresentam números, e eu acredito que algo em torno de 100 mil milhões ao longo de sete a 10 anos seria necessário para levar a produção de onde está hoje para três milhões de barris por dia, que era o nível antes do chavismo. Para mobilizar 100 mil milhões em cinco anos, muitas coisas precisam de acontecer.
Como podemos compreender o impacto real para a China, que é quem mais compra o petróleo venezuelano?
A pergunta é: quão relevante é a Venezuela se, em vez de produzir um milhão de barris por dia, produzir 1,5 milhão? Isso ainda representa apenas 1% da produção mundial. Os Estados Unidos produzem 20 vezes mais. A Venezuela não vai alterar significativamente o equilíbrio do mercado petrolífero a curto prazo. A China está comprando mais petróleo do que necessita. Neste momento, está a avançar rapidamente na sua transição energética, em parte porque controla a maior fatia do mercado global de veículos elétricos.
O que precisa de ser feito, de forma prática, para que o país não desperdice o potencial do gás natural? Quais países da região podem beneficiar?
Existe uma grande oportunidade com o gás natural de três maneiras. Primeiro, porque há a possibilidade de exportação. A Venezuela tem muitas reservas de gás natural não associado, ou seja, para produzir gás, não é necessário produzir petróleo.
Na região ocidental, as empresas Repsol e Eni estão associadas a um campo chamado Cardón IV. Esse campo produz atualmente cerca de 0,5 BCF [billion cubic feet, ou bilhões de pés cúbicos] por dia. Poderia estar a produzir mais de um BCF por dia, mas o país não consome gás suficiente, então é preciso exportá-lo. É necessário ter uma saída para esse gás.
Há duas formas de exportar esse gás. Uma é por meio de um gasoduto existente entre Colômbia e Venezuela. A Colômbia precisa desse gás, mas seriam necessários investimentos e talvez extensões, embora parte da infraestrutura já exista e as distâncias sejam curtas.
Na região oriental, a solução é ainda mais simples. A Shell opera tanto no offshore venezuelano quanto no offshore de Trinidad. Bastaria construir um gasoduto de cerca de 17 km para conectar a Venezuela à infraestrutura de Trinidad. Isso é extremamente importante para Trinidad, que construiu todo um complexo para exportação de gás natural liquefeito, mas que hoje opera muito abaixo de sua capacidade. É realmente uma situação ganha-ganha.
Uma vez que essas exportações estejam em funcionamento, é possível começar a resolver o problema do metano. Existe uma grande concentração de emissões de metano num dos campos que já foi dos maiores produtores da Venezuela, porque a empresa que processava o gás foi expropriada e, depois disso, a PDVSA não soube ou não conseguiu processar o gás natural e passou a simplesmente liberá-lo na atmosfera. É preciso recuperar essa capacidade técnica.
Todos esses problemas têm origem nas expropriações das empresas petrolíferas e de serviços, na politização da PDVSA, no endividamento excessivo e na perda de capacidade técnica, operacional e financeira da empresa.
Tudo isso decorre de decisões extremamente equivocadas que destruíram o que um dia foram algumas das empresas petrolíferas mais bem administradas do mundo. Sem reformas radicais, é muito difícil imaginar uma melhora significativa no desempenho. Por isso existe tanto ceticismo.
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