Redes sociais: Deus ou o Diabo?

Devemos pensar como garantir uma concorrência adequada e variada, para evitar o risco de criação de monopólios mundiais, em vez de criticar aqueles que sabem usar a tecnologia.

A pretexto do documentário “O Dilema das Redes Sociais” lançado pelo Netflix, ao qual vários comentadores e amigos se insurgiram com o escândalo e as conspirações em que as grandes empresas tecnológicas estão envolvidas para dominar e influenciar as mentes e o mundo, decidi de facto analisar e ver com detalhe o referido documentário.

Entretanto, também várias personalidades decidiram fazer o “black out”, isto é, por um dia fizeram greve de acessos às redes sociais… Sim, 24 horas! Mas apenas 24 horas, porque as redes sociais e as suas empresas são o Inferno e Mark Zuckerberg o Diabo.

Em termos práticos, e analisando o documentário em concreto, verifiquei que os vários depoimentos traduzem modelos empresariais naturais, que visam alargar a sua ambição de liderança de mercado.

O que vi reflete em grande medida a ambição que sempre existiu. Desde o comerciante na feira agrícola e pecuária da antiga Roma, no séc IV a.C., onde o objetivo era “gritar” ao máximo para convencer o transeunte a vender “o carneiro ou o baú” que estava na sua banca e que seria essencial para assegurar a sua sobrevivência familiar até ao final do mês. Acresce que esse comerciante procurava criar fidelização dos seus clientes através de várias conversas, ficando a saber, após duas ou três feiras mensais, que o seu cliente tinha “dois filhos”, que “tinha sido soldado” e até “que fazia viagens à cidade de Pisa duas vezes por mês”.

Com este conhecimento e outros adquiridos, o comerciante, após seis meses, conseguiu indicar que podia encontrar-se com esse seu cliente na feira de Pisa para lhe vender “um carneiro de elevadíssima qualidade”, bem como outras atividades de influência, tendo sempre em vista a sua capacidade de alcançar mais atividade comercial e domínio de uma fração do mercado, de acordo com a sua capacidade de produção, limitada pelos constrangimentos de então.

Portanto, a ambição do comerciante naqueles períodos, antes de Cristo, era liderar comercialmente e influenciar o mercado, tendo por base as suas ferramentas e a sua capacidade produtiva.

O que é que Facebook, Google, Apple, Amazon, Microsoft, Alibaba, Tencent, ByteDance/Tiktok, Primavera Software, PHC, Bial, VW Autoeuropa, Renova, ou outros fazem? Procuram liderar comercialmente e influenciar o seu mercado/os seus clientes, tendo por base as suas ferramentas e a sua capacidade produtiva.

Mas onde está a diferença para o séc IV a.C. e o séc. XXI d.C? Na tecnologia e na competência de a usar, tal como capacidade de produção e entrega do produto e serviço. Acresce que a tecnologia de hoje permite que tudo seja feito em tempo real, ao invés dos meses ou anos que o comerciante demorava para conhecer as preocupações de umas dezenas de clientes.

Porque será que as celebridades só fizeram o “black out” de 24 horas às redes sociais? Precisamente porque usam as redes sociais para entregar o seu serviço de uma forma muito eficaz e mais eficiente (custos bastante baixos) para todo o mundo e sem limite de entregas. As redes sociais são um veículo importantíssimo, para o bem e para o mal, de entrega de valor aos clientes. Sem essas redes sociais, essas celebridades não alcançariam essa influência nem teriam os mecanismos comerciais a seu favor.

Por isso, deixemos de criticar aqueles que sabem usar a tecnologia a seu favor e de muitos no seu ecossistema. Devemos é pensar como garantir que há concorrência adequada e variada, para que se evite o risco (existente) de criação de monopólios mundiais. Criar diversidade e alternativas. Como? Incentivando a criatividade, a inovação e o empreendedorismo.

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