Redes sociais para tótós

Sempre partilhei do ponto de vista atribuído a Einstein que só há duas coisas infinitas, o universo e a estupidez humana, e quanto à primeira ele tinha dúvidas.

No fim do mês passado regressou a silly season com a utilizadora das redes sociais que postou sobre o novo sentido oculto que descobriu na afirmação dos meteorologistas de que há 30% de probabilidade de ocorrência de precipitação. Esta mãe de idade desconhecida confessou-se chocada no TikTok e, pelos vistos, arrastou consigo muitos outros subscritores desta rede, quando descobriu o que a app que usava queria verdadeiramente dizer quando dava a percentagem de probabilidade de chover – o que não é negativo por duas razões principais: finalmente leu a definição do conceito que usava frequentemente sem saber o que era, o que corresponde a ler as letras miudinhas dos contratos de seguros; e, pelos vistos, sabe ler.

Tudo foi provocado pela pergunta de outro subscritor da Rede, que interrogava os fellow members sobre o que tinham descoberto recentemente na vida e que já deviam saber há muito tempo. Respondeu esta alminha que sempre tinha pensado que a percentagem que era indicada era a probabilidade de chover, o que eu traduzirei para os meus queridos leitores como cair água de cima, aparentemente do Céu, sem ser por o vizinho estar a regar o jardim. Citando-a, “se a probabilidade de chuva era de 30%, que com 30% de probabilidade ia começar a chover.” Mas concluiu a senhora que “o que não sabia é que queria dizer que ia chover com 100% de probabilidade em 30% da área onde estava [your zip code or whatever]”.

Este notável vídeo foi visto dois milhões de vezes e teve 40 mil comentários, muitos manifestando grande admiração por nunca terem pensado nisto e visto o problema neste ângulo (obtuso). Um diz “só pensei nisso agora mesmo”, o que não é mau, porque pensa – relembram Klein e Cathcart, no seu livro, que em 1650 René Descartes deixou de pensar e morreu. Outro acrescenta “já não sei o que pensar”. Ainda bem. Outro, mais lúcido, declara que vai passar a frequentar a Universidade do TikTok.

Quero fazer aqui uma declaração de interesses: sempre partilhei do ponto de vista atribuído a Einstein que só há duas coisas infinitas, o universo e a estupidez humana, e quanto à primeira ele tinha dúvidas. Também sigo Lincoln na afirmação que se lhe atribui que não se pode acreditar em tudo o que se lê na Internet. Mas esta é mesmo verdade, pois até a AccuWeather se sentiu obrigada a colocar online um vídeo de explicação do conceito. Mas trata-se de uma iniciativa votada ao fracasso. É de facto um conceito impossível de fazer entender, face à evidência empírica: quando eu vou tomar banho chove com 100% de probabilidade em 3% da minha casa.

Posto isto, o que vai acontecer? Não tenho dúvidas: gente inteligente que vê uma coisa destas identifica rapidamente um nicho de mercado e dentro de pouco tempo teremos um novo livro, de capa preta e amarela: chance of rain for dummies.

Nós elegemo-los para se representarem a eles.

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