Região Norte: a resiliência na crise, o dinamismo na recuperação

Para o presidente da CCDRN, não se vislumbram entraves à rota de sucesso que a Região Norte tem vindo a trilhar. Porém, defende, há que evitar ir “atrás de modas e chavões sem grande conteúdo real”.

Vasily Fedosenko/Reuters

Com cerca de 3,6 milhões de habitantes, a Região Norte concentra quase 35% da população residente em Portugal. Atualmente está dotada de infraestruturas de comunicação e de internacionalização e conta com uma rede qualificada de equipamentos de ciência e tecnologia.

Em termos administrativos, o Norte de Portugal é composto por 86 municípios e 1426 freguesias. Os municípios encontram-se organizados em oito Comunidades Inter Municipais (CIM), as quais constituem o nível III da Nomenclatura de Unidades Territoriais para Fins Estatísticos (NUTS), aprovada pela Comissão Europeia.

Nos últimos anos, a evolução económica e empresarial da Região Norte tem sido marcada por “uma grande capacidade de resiliência durante os anos de crise e de significativo dinamismo no período mais recente de recuperação”, considera Fernando Freire de Sousa, presidente da CCDRN (Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte) que acrescenta existirem dois indicadores, entre muitos possíveis, a corroborar esta linha: “estima-se que cerca de 60% dos empregos criados desde 2012 o terão sido em empresas localizadas na Região Norte; paralelamente, o último Relatório da Coesão deixa claro que a Região terá sido a única em toda a Península Ibérica a convergir em relação à média europeia em termos de PIB ‘per capita’ no conjunto dos anos 2008/15”.

Estes números são essencialmente do domínio empresarial e competitivo, e neste contexto o peso dos fundos comunitários, quer provenientes do NORTE 2020 quer do programa COMPETE 2020, diz a CCDRN, “está ainda por avaliar com inteiro rigor”. Contudo, “terá certamente sido importante”, acrescenta o presidente, chamando a atenção para “um contrabalanço em relação às continuadas e fortes quebras registadas a nível de um indicador estruturalmente determinante como é a taxa de investimento”. Por outro lado, considera que os financiamentos de projetos associados à política europeia de coesão entre 2015/17 representaram “uma parte de leão” no total do investimento público (mais de 80%). “Tal evidência faz de Portugal o país mais tributário de fundos estruturais naquele período e, naquela dimensão de investimento, de toda a União Europeia”, ressalva.

No que concerne ao peso alcançado em 2017 pela Região Norte no Produto Interno Bruto (PIB) e nas exportações, os últimos valores de que a CCDRN dispõe apontam para 28% do PIB, 34% na criação de emprego e 41% das exportações nacionais. Neste contexto, Freire de Sousa não deixa de sublinhar o “comportamento distintivo” da Região em relação ao todo nacional em matéria de uma das principais alterações estruturais registadas pela economia portuguesa na última década: “o marcante aumento do seu grau de abertura ao exterior, com o Norte a posicionar-se quase dez pontos acima da média nacional”, reforça.

Na análise aos setores que mais se distinguem em termos de evolução, continuam a distinguir-se os habitualmente designados por tradicionais, com destaque para a área têxtil e vestuário, a metalomecânica e a fileira automóvel. Sendo que a esta análise de progressão se juntam os setores, tidos como “pesos pesados” a avaliar pelos resultados e relevância histórica, do calçado e fileira florestal.

Para este ano, o presidente da CCDRN antevê uma evolução positiva para a Região: “não antevejo razões para pensar que a evolução recente não tenda a prosseguir numa senda preferencial de consolidação”. Existem, porém, fatores que considera de “incerteza, internos e sobretudo externos, que podem vir a desempenhar um papel de travão significante num horizonte de médio prazo”. Razão pela qual salvaguarda a necessidade de uma especial atenção a alguns sinais: “o tempo próximo deve ser, claramente, o de redobrados esforços no sentido de um bom aproveitamento do momento favorável que atravessamos com vista a ficarmos mais capazes de enfrentar os escolhos que possam surgir”, reforça.

Ainda para 2018, mais do que elencar os setores promissores, Freire de Sousa afirma que o mais prometedor são “as capacidades competitivas e de gestão forjadas nas empresas e traduzidas nos seus desempenhos concorrenciais”. Neste capítulo, acrescenta ainda que se deve “rechaçar o perigoso vício associado a um enfileiramento muito tipicamente português, atrás de modas e chavões sem grande conteúdo real ou utilidade prática”.

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