Remar contra a corrente

Os bancos centrais estão mais concertados e mais bem preparados, e o mundo é mais regulado do que noutros períodos potencialmente semelhantes na história.

As incertezas relativamente à direção que o mundo tomará nos próximos trimestres, economicamente falando, num contexto de maior protecionismo e da já batizada “guerra comercial”, conferiram uma maior moderação das perspetivas de crescimento do princípio do ano, tendo os principais bancos centrais do mundo desenvolvido voltado a apresentar um discurso mais acomodatício relativamente a movimentações de taxas de juro diretoras.

Esta é a principal conclusão proveniente do último discurso do Banco Central Europeu (BCE) em Sintra, e que fica alinhado também com as últimas declarações da Reserva Federal norte-americana (Fed), que também colocou em cima da mesa a possibilidade de rever as taxas em baixa. Esta espécie de sincronização monetária, que reflete não apenas as preocupações com o comércio internacional, mas também com o facto da inflação se manter persistentemente abaixo dos níveis alvo, é uma resposta contra a corrente, numa altura em que muitos indicadores económicos avançados apontam para o aumento da incerteza para os próximos trimestres.

Economia mundial indicia cenário mais moderado com algumas incertezas

A economia caminha sem dúvida para um crescimento mais moderado em 2019 e 2020. Os Estados Unidos da América apresentaram um bom crescimento durante o primeiro trimestre do ano (3,1%), mas tal deveu-se essencialmente a fatores irrepetíveis associados aos inventários ou a despesas de consumo governamental.

As tendências associadas ao consumo privado e procura doméstica são mais moderadas, da mesma forma que o mercado imobiliário está a registar menor atividade e ímpeto de valorização dos preços, tendo o índice de referência para o mercado norte-americano S&P Case Shiller registado a sua 13ª leitura seguida com abrandamentos anuais (2,5% em termos homólogos), e em abril a valorização mais baixa desde agosto de 2012. Para além do imobiliário, também as exportações e sobretudo o investimento empresarial poderá ser afetado pela crescente incerteza relativamente à imposição de tarifas comerciais e potenciais retaliações.

Na Europa, o cenário não é muito diferente, e apesar das razoáveis leituras dos primeiros meses de 2019 o abrandamento será inevitável, também muito condicionado pela quebra das exportações para a China, sobretudo por parte do principal motor económico, ou seja, a Alemanha. Por último, mas não menos importante, resta a China, transformada numa espécie de principal vilão das medidas de protecionismo da administração Trump. O gigante asiático tem vindo a dar sinais de abrandamento, e cada vez que as tensões com os Estados Unidos voltam ao palco principal, as perspetivas de exportações são afetadas e criam incerteza, que têm impacto sobre a evolução desta economia.

Recessão não é uma inevitabilidade, sobretudo com bancos centrais atentos

Dito isto, não é claro que a economia esteja a caminho de uma recessão económica nos próximos trimestres, ou que isso aconteça num horizonte de um ano. Há ainda muito a funcionar a favor do crescimento das economias, provavelmente mais do que contra o crescimento destas. As economias deverão continuar a crescer em 2019 e em 2020, embora a ritmos mais moderados (3,2% este ano e 3,4% no próximo, diz a OCDE) e com maiores riscos associados às previsões.

Adicionalmente, a concertação de interesses dos principais bancos centrais do mundo desenvolvido é um bloqueio complexo de ultrapassar, mesmo com muitos riscos em cima da mesa. As fragilidades apresentadas para sustentar este posicionamento mais desfavorável nem são muito diferentes, como já verificámos aqui anteriormente. Reduzida inflação, sentimento dos agentes económicos sobretudo no consumo, e expectativas baixas para o investimento empresarial deixam a entender que será necessário um posicionamento concertado e focalizado nestas preocupações por parte dos bancos centrais.

As dúvidas prendem-se mais com a capacidade dos bancos centrais em lidar com a incerteza – o que até pode explicar a moderada reação dos mercados acionistas às declarações dos presidentes dos bancos (com destaque para as de Powell) – embora a história já nos tenha demonstrado que, no final, impera sempre a lei da autoridade monetária.

O que esperar nos próximos trimestres

Os analistas internacionais aguardam agora um posicionamento mais cauteloso e defensivo por parte da Reserva Federal e do Banco Central Europeu. No geral, não é de excluir que a Fed possa reduzir taxas até duas vezes, dependendo da forma como for evoluindo a incerteza associada aos principais riscos (guerra comercial) num ciclo de abrandamento económico global.

No velho continente, as taxas de juro deverão continuar inalteradas durante muito mais tempo – provavelmente até ao final de 2020, segundo alguns observadores internacionais. E, eventualmente, até desencadear novos formatos de programas de aquisição de ativos como estímulo à inflação e às economias regionais.

E a Europa? Os riscos de contexto têm vindo a ser ultrapassados

Importa referir aqui também que, apesar das dificuldades, a Europa tem vindo a superar os bloqueios políticos, quiçá eventuais causadores de incertezas económicas. O euroceticismo (com o Brexit à cabeça), o populismo (Itália, França ou Espanha) e o fim da globalização têm sido, e bem, considerados riscos chave para a economia europeia. Mas, em 2019, e na sequência das eleições europeias,  prevaleceu o projeto europeu, embora este tenha que ser analisado com novas condicionantes e novos cuidados.

Conforme tive a oportunidade de avaliar no ultimo ensaio “Menos populismo, mas menos força para o euro”, apesar da resiliência do centro político europeísta que saiu das últimas eleições, a consensual agenda de uma União Europeia mais integrada e reformada pode estar em risco. No mínimo irá exigir uma série de equilíbrios e acordos inovadores que permitam algum ímpeto de integração. E a discussão em torno da viabilidade da União Europeia poderá, se isto não for tido em conta, reavivar alguns velhos fantasmas, nomeadamente, qual a capacidade real do BCE para, sozinho, fazer face a uma nova situação de crise.

Ou seja, apesar do carácter construtivo, não se pode negligenciar a importância dos eventos geopolíticos e o grau de probabilidade que estas condicionantes têm de influenciar os comportamentos e decisões dos agentes económicos.

Bottom’s up: um mundo mais regulado e sincronizado do que aparenta ser

Apesar do ruído, o mundo é hoje um lugar mais preparado para resistir a choques inesperados do que aparenta ser, e isso também deve ser tido em conta quando observamos fenómenos de carácter menos convencional, como é o caso do regresso do protecionismo, ou “guerra comercial”. Os bancos centrais estão mais concertados e mais bem preparados, e o mundo é mais regulado do que noutros períodos potencialmente semelhantes na história. Isso significa que na situação atual, onde podemos de facto tentar compreender se as economias desenvolvidas vão voltar a crescer como no passado, remar contra esta corrente pode ser uma tarefa menos complexa do que à partida aparenta ser.

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