As eleições tiveram duas boas notícias.
O partido populista não é afinal assim tão popular. A tradição municipalista mostrou a resiliência da democracia portuguesa. É claro que se pode dizer que a grupeta populista não conseguiria nunca um resultado como nas Legislativas, mas também nunca imaginaram que fosse tão pífio.
É também de registar a clara recuperação do PS. A polarização do espectro partidário traz problemas, mas muito pior seria a implosão do PS. É ingrato comparar Legislativas e Autárquicas. Mas depois do desastre das últimas legislativas e olhando ao que tem sucedido a partidos socialistas na Europa, a implosão não era um cenário a descartar. Não se confirmou e ainda bem.
Estas duas notícias são muito importantes para a democracia portuguesa. São um alívio.
Vamos às más notícias.
No espaço eleitoral em que me revejo – democrático e à esquerda do PS – infelizmente as notícias que estas eleições trazem não são boas. O Livre e o BE fizeram bem em se apoiarem e apoiarem candidaturas onde foi possível fazer. Não tendo uma tradição de voto autárquico, fizeram o que estava ao alcance. Mas os resultados foram modestos e há a sensação de uma lacuna que precisa de ser trabalhada. O território tem de contar todo, mesmo que não valha mandatos. É precisamente esse o trabalho da CDU, cuja dedicação municipal é estrutural ao seu trabalho político. Mas, hiperconsciente deste facto, a CDU segue uma estratégia que não compreendo. Aceito, mas não compreendo. Ou melhor, até compreendo em vários níveis, mas não globalmente nem em decisões concretas que se tomaram muito penalizadoras do interesse comum no espaço político que partilhamos.
Nestas eleições autárquicas, a CDU só subsidiariamente procurou vitórias eleitorais. Esse era um objectivo importante, obviamente, mas mais importante foi a fixação do seu espaço eleitoral próprio.
Esta estratégia era discutível, e já lá vamos, mas, primeiro, há que dizer que não funcionou globalmente. Embora Raimundo tenha dado ênfase a que não há perdas irreversíveis, de facto não há, e de facto houve recuperações dignas de registo, é indesmentível o facto cru de que a CDU perdeu mais uma fatia de eleitorado, e agora precisamente em eleições autárquicas. E perdeu oito câmaras, três delas capitais de distrito, todas as capitais de distrito de que dispunha. Globalmente, não é uma estratégia que tenha vencido o objectivo da reversibilidade do declínio eleitoral, para usar a expressão do Paulo Raimundo que, com a franqueza que o caracteriza, não disfarçou e disse, lucidamente, que o resultado eleitoral alcançado foi negativo.
E o que falhou globalmente, falhou de forma dolorosa em Lisboa. A coligação de Esquerda (envolvendo PS, Livre e BE) perdeu as eleições e é muito razoável esperar que não teria sido assim caso a CDU se tivesse disposto a fazer parte. É claro que compreendo que era uma decisão muito mais difícil para a CDU do que para o Livre e o BE, que não têm tradição municipal. E até admito que a preocupação com a continuidade da CDU, ou melhor, do Partido Comunista Português, tenha uma importância para a democracia portuguesa superlativa (sem, com isto, diminuir o lugar do BE na democracia portuguesa nas últimas décadas, partido hoje afectado por uma crise eleitoral gravíssima). Pelo seu lugar histórico, por um centro gravítico de valores constitucionais que sei que são património do PCP e que são cruciais quando o regime se vê ameaçado. Relevo tudo isso. E não votasse em Lisboa, seriam razões de peso para noutras autarquias pensar votar CDU.
Mas, precisamente no caso de Lisboa, não. João Ferreira não só teria sido eleito se tivesse integrado a coligação, como teria reforçado a posição da CDU nos órgãos que governam a cidade. Caso tivesse aderido à coligação, a vitória para a CDU em termos de mandatos e influência teria sido expressiva e teria consequências na governação da cidade, sentidas por quem nela vive e trabalha. Mas, como já disse acima, a CDU preferiu o eleitorado aos mandatos, sacrificando a sua própria influência nos órgãos. O resultado não foi bom. Mais uns mil e duzentos votos, mas menos um vereador. O amargo que fica de o Chega conseguir mais um lugar com apenas mais 11 votos dói-nos a todos, mas deve doer sobretudo à CDU, que deve sentir-se responsável politicamente pelo estado em que fica a governação de Lisboa.
Dirão, mas é João Ferreira, o fantástico João Ferreira. Não acompanho magnificações políticas, às vezes a raiar o ridículo. João Ferreira é um excelente vereador – há 12 anos salvo erro. Permanecerá por lá mais uns anos, mas mais sozinho. Não vejo nada de transformador nisso.
Mas, voltando ao meu ponto de partida. A dissociação entre o interesse na eleição e o interesse no voto, preferindo este àquele, é um caminho do PCP que, independentemente do resultado que alcance (desta feita negativo), não dialoga, não liga e duvido que estime suficientemente a pluralidade. Fica a reflexão.



