Revolução às direitas

Não será já possível, ao PSD e CDS, continuar a pescar votos à direita com um discurso centrista, uma agenda caduca, uma cumplicidade permanente com o sistema instalado.

1. Olho para os resultados das eleições presidenciais e não vejo nada de particularmente novo. O Presidente da República é o mesmo. As sondagens, realizadas em cima desse escrutínio, continuam a mostrar a mesma maioria sociológica.

Transpostos para umas legislativas, transformados em opções partidárias, os votos dos portugueses dariam origem a um quadro parlamentar idêntico ao atual em termos de esquerda-direita. Continuaria a haver condições para um governo minoritário do PS; que poderia ser de maioria caso houvesse entendimento com PCP e BE. O número de deputados de esquerda não andaria demasiado longe do existente, apesar das perdas, sobretudo do BE, mas também um ou outro do PCP/CDU. Desapareceria o Livre, que elegeu Joacine Katar Moreira em 2019.

A grande diferença estaria na recomposição das forças de direita. Aí, sim, haveria mudanças importantes com a subida eleitoral do Chega e da Iniciativa Liberal (IL). O PAN não faz parte destas contas.

2. A rápida reunião entre Rui Rio, pelo PSD, e Francisco Rodrigues dos Santos, pelo CDS, é a principal consequência das eleições. Para ambos, fica claro, o importante passa por travar o Chega nas autárquicas de outubro, nas quais o partido de André Ventura não terá ainda, presume-se, grande capacidade para apresentar demasiados candidatos próprios, e com forte implantação local.

O pacto entre PSD e CDS visa, portanto, mais do que começar a preparar uma dinâmica para as legislativas, que em princípio apenas terão lugar em 2023, fazer com que o Chega não cresça em votos ou eleja autarcas.

Este pacto PSD/CDS tem, além desta consequência, uma leitura para fora, e talvez a mais importante: fazer ‘arrefecer’ a pressão das vozes, existentes em ambos os partidos, de pessoas que queriam que ambas as direções se distanciassem do partido de André Ventura. Está feito. Veremos se chega.

3. A verdade é que o crescimento do Chega, sobretudo, mas também da IL, colocam grandes problemas ao PSD e fazem perigar mesmo a existência parlamentar do CDS.

Seria, no entanto, um erro monstruoso que PSD e CDS pensassem que tudo se resolve com movimentações no terreno, que o problema está na tática. Evitar coligações com o Chega pode ser uma boa decisão operacional, no curto prazo, mas será sempre poucochinho em termos daquilo que importa para os dois partidos.

O principal problema que PSD e CDS enfrentam é o desafio das ideias, do discurso, da agenda.

O PS de José Sócrates, por exemplo, percebeu bem isso quando, há mais de dez anos, o BE empunhou as suas bandeiras fraturantes. O PS juntou-se primeiro, ganhou a iniciativa a seguir, e passou incólume ao crescimento à sua esquerda.

4. Tal como o PS nessa altura em relação ao BE, o que PSD e CDS têm de decidir é se continuam a ignorar as grandes linhas do discurso do Chega, a sua insistência na corrupção e na segurança, e as do projeto alternativo da IL de maior liberdade individual versus peso do Estado.

Se Rui Rio e Francisco Rodrigues dos Santos não virem o essencial não vão conseguir alterar a profunda mudança em curso.

Não será já possível continuar a pescar votos à direita com um discurso centrista, uma agenda caduca, uma cumplicidade permanente com o sistema instalado. Os cerca de 630 mil votos que à direita preferiram os candidatos presidenciais do Chega e da IL trazem esse aviso.

 

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