Os mercados desconfiam cada vez mais da capacidade de os EUA pagarem a montanha de dívida que têm e que vai aumentar. Temem que haja uma qualquer espécie de ‘default’. Como avalia este risco?
Os EUA estão numa trajetória orçamental insustentável. O governo não tem qualquer plano ou intenção de controlar o défice, e com as taxas de juro altas do pós-pandemia, a dívida vai crescer a um ritmo acelerado. No entanto, penso que vai evitar um não-pagamento. Isto porque tem uma ferramenta que já começou a usar, e vai fazê-lo cada vez mais: a repressão financeira. O governo dos EUA já está a encorajar – ou forçar – cada vez mais instituições a deterem dívida pública americana aceitando retornos inferiores, enquanto põe pressão sobre a política monetária para que haja alguma inflação para abater à dívida.
Quais as consequências globais?
Não é fácil forçar investidores estrangeiros a aceitarem retornos inferiores na dívida pública americana, por muito que ela seja central para as operações financeiras. Já vemos, e vamos ver muito mais, ajustes de carteira para outros ativos. Juntamente com o ajuste das relações comerciais entre nações por causa das tarifas, todos os fluxos de capital entre as diferentes regiões do mundo estão a mudar muito. Com esta mudança, mudam também os preços e quem se conseguir antecipar, vai lucrar muito.
O apetite dos investidores em comprar ativos americanos, não apenas obrigações, também vai cair – mais ainda – por causa da instabilidade?
Os EUA têm perspetivas de crescimento muito maiores do que a Europa. Isso reflete-se em retornos esperados na sua bolsa, muito acima da Europa. Por isso, os investidores continuam atraídos a investir nos EUA, embora, por exemplo, hoje em dia já combinem cada vez mais essa procura com seguros na carteira contra a desvalorização do dólar.
Kenneth Rogoff defende que o ‘default’ de 300 mil milhões de euros imposto à Rússia, por causa da invasão da Ucrânia, também aumentou a desconfiança nos mercados. Criou um precedente. A dívida externa detida pelos russos foi usada como arma por europeus e americanos…
É inevitável que a fragmentação geopolítica que vemos no mundo tenha reflexos nos mercados financeiros. Se um país tem grandes investimentos noutro e entra em conflito aberto com ele, mais cedo ou mais tarde vai perder esses investimentos. Ora, no caso da Rússia, foi a Europa quem liderou essa captura de ativos russos, e era na Europa que a maioria deles estavam, se bem que por vezes escondidos por participações em empresas financeiras americanas.
A China tem dois biliões de dívida americana. Janet Yellen, ex-presidente da Reserva Federal, diz que os chineses não vão fazer disso uma arma contra a América… inundando o mercado. Confia que sim?
Se houver um conflito aberto, tudo é uma arma. Mas a dívida é um pau de dois bicos. Igualmente podemos dizer que a América vai tornar isto numa arma contra a China, congelando pagamentos ou impondo repressão financeira que reduz os retornos. Os chineses perderiam muito nas poupanças que têm no exterior.
As incertezas estão por toda a parte. Uma delas, talvez das mais significativas, diz respeito ao fim do dólar como moeda de reserva mundial. Vai acontecer? O que muda do ponto de vista económico e geopolítico?
O dólar é a moeda dominante há já quase 100 anos. Em 2015, de acordo com todas as medidas que temos, estava no apogeu dessa dominância. Antes do dólar, dominou a libra esterlina durante muito tempo também. Não há assim mudanças tão súbitas do que é a moeda de reserva mundial, por isso falar-se do fim do dólar nos próximos cinco anos é exagerado.
Teremos, a prazo, três moedas como reservas mundiais: euro, yuan e dólar? O euro pode ganhar espaço, já que o yuan, que não flutua nos mercados, não oferece ainda a mesma solidez legal?
De acordo com diferentes critérios, o euro ronda os 5% a 15% do peso nas transações ou ativos no mundo, enquanto o yuan está nos 3-7%. Há espaço para ambos crescerem. Já o fizeram, em pontos percentuais, nos últimos dez anos. Penso que vão crescer mais. Seria o resultado natural da fragmentação geopolítica termos também uma fragmentação dos mercados financeiros e, com eles, alguma fragmentação no uso de moeda. Repare, no entanto, que um mundo em que tivéssemos três moedas dominantes seria, em muitas configurações, um mundo mais instável em termos financeiros. Um ponto de comparação poderá ser útil. Com a criação do euro, a dívida pública alemã deixou de ser a dominante na Europa, e as dívidas dos diferentes países da zona euro foram tratadas como sendo quase equivalentes nos mercados financeiros. Quando, em 2009-10, isso mudou, com uma ligeira preferência pela dívida alemã, isso levou a um enorme fluxo financeiro para fora da dívida portuguesa em direção à alemã, espoletando uma crise. Igualmente, um mundo com três moedas que são vistas como quase equivalentes pode bem ser um mundo em que alguns choques políticos ou económicos podem levar a um enorme ajuste de carteiras de uma moeda para outros trazendo enorme instabilidade.
A União Europeia, ainda assim, enfrenta riscos sistémicos: a crise económica estrutural alemã é uma forte ameaça à União?
A maior ameaça à UE é a falta de crescimento económico. Não é só um problema alemão, mas é um problema italiano há décadas, e um problema português de que falamos todos os dias. É um problema que nos tira capacidade de manter o nosso estado social e, ao mesmo tempo, investir adequadamente na nossa defesa. Um problema que nos leva a ser humilhados nas negociações comerciais, porque dependemos muito dos mercados externos que temos para manter o nosso nível de vida. Um problema que está a levar ao crescimento de movimentos políticos radicais por toda a Europa, que querem destruir o sistema sem ter nenhuma alternativa para oferecer.
Como deve reagir Portugal: estamos totalmente dependentes da UE – o que podemos fazer para ter uma via de saída, caso seja inevitável?
Temos muitas reformas a fazer no nosso país para promover o crescimento económico. Temos nas nossas mãos a capacidade de empreendedorismo, de inovação tecnológica e de conquista de mercados externos com produtos e serviços superiores. O Governo e o Estado português continuam a contar muito mais para o crescimento económico português do que a Comissão ou o Conselho europeus.
Por último, as tarifas: Trump tem recuado. Vamos acabar por ter tarifas, mas muito mais ligeiras, e que não ajudarão a reindustrializar os EUA?
As tarifas dão ao governo americano uma fonte de receitas de que ele desesperadamente precisa para não aumentar os impostos sobre o rendimento nos EUA; uma ferramenta permanente para causar instabilidade e assim trazer atenção ao presidente; uma fonte para distribuir benesses, nas exceções às tarifas que podem ser distribuídas a quem agrade ao círculo próximo do presidente. A reindustrialização dos EUA é uma quimera.
Esteve na lista restrita de candidatos a governador do BdP. É um trabalho que um dia lhe pode interessar?
Álvaro Santos Pereira é um ótimo economista que espero irá ser um excelente governador do Banco de Portugal.
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