Ricardo Salgado, da Sardenha com amor

São os passeios e a desfaçatez do antigo “Dono Disto Tudo” que estão na génese da desconfiança das pessoas face a muitos empresários que não merecem qualquer sombra de dúvida.

Qualquer pessoa normal ficaria atónita quando leu que Marcelo Rebelo de Sousa instou empresários a irem à luta por “protagonistas políticos mais fortes”. O tiro foi completamente errado porque a principal preocupação destes empresários, dos bons, dos que acreditam no talento português, que criam empregos e levam a economia para a frente, é o trabalho e pedir para que o Estado e a máquina fiscal não emperrem demais a sua actividade.

Depois, deviam preocupar-se em comprar uma vassoura e limpar da esfera pública a péssima imagem de uma dita elite empresarial que marcou um tempo, que custou à comunidade milhares de milhões, e que na percepção dos portugueses ficou sepultada nos espectáculos deprimentes dados no parlamento, processos avulsos em barda e dívidas gigantes que não pagam. Isso é que é a mancha reputacional que deve obrigar os bons empresários a apagar esta má moeda.

Aliás, não vi nenhum empresário engrossar a voz relativamente a um amigo do passado do Presidente da República, o “doutor Ricardo” Salgado, no despautério de ter pedido ao tribunal para faltar ao seu julgamento por questões da pandemia e depois andar sem máscara numa luxuosa ilha do Tirreno. Porque são os passeios e a desfaçatez do antigo “Dono Disto Tudo” que estão na génese da desconfiança das pessoas face a muitos empresários que não merecem qualquer sombra de dúvida.

Ainda há pouco tempo passou despercebida uma afirmação em tribunal proferida por mais um notável da elite empresarial do passado.

Henrique Granadeiro explicou “todos os contratos eram feitos assim, com base numa relação de confiança”. “A maior parte dos contratos são verbais”, acrescentou o empresário. Referia-se assim durante o julgamento do ex-homem-forte do BES, ao facto de ter recebido do “doutor Ricardo” nove milhões sem nada estar devidamente selado com papéis para um projecto agrícola com golfe e hotel que nunca saiu do projecto.

Esta era maneira de gerir, um statu quo que nunca mais se poderá repetir, que custou o buraco do Novo Banco que continuamos a pagar.

Este “modus operandi” podia fazer parte de algum filme que conhecemos. Tudo baseado na palavra, com muita honra, mas é bom relembrar que honra é uma palavra que cheira a máfia. E da podridão ninguém gosta de estar perto, porque o cheiro é nauseabundo e demora tempo a sair da pele. Estes são procedimentos que não podem sobreviver a um mundo que exige cada vez mais transparência.

O “doutor Ricardo” (como era tratado com deferência) é uma personagem que pôs e dispôs durante décadas, todos lhe beijaram a mão (com algumas excepções), nesse tempo era cereja no topo do bolo ter o seu contacto e reconhecimento, agora é uma criatura odiada, um pária, tem lepra.

Aquele passeio na Sardenha do “doutor Ricardo” é o retrato da sua impunidade. É uma desfaçatez. Depois de ter usado como defesa um padre para atestar do seu carácter, agora a sua defesa fala em demência, falhas de memória e lapsos de raciocínio para o banqueiro faltar ao seu julgamento.

A Justiça devia conhecer uma frase da magnífica série “Line of Duty”: “Se atira ao rei é bom que o mate”, não conseguiu. Ele vai continuar por aí a gozar connosco com muito amor até à prescrição final.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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