Rogério Alves: “Risco do cibercrime não desapareceu e os criminosos não se puseram de quarentena”

Presidente da Associação de Empresas de Segurança refere em entrevista ao Jornal Económico que “o desaparecimento do numerário comportaria uma verdadeira catástrofe do ponto de vista social e económico”.

O confinamento a que os portugueses estiveram sujeitos nos últimos dois meses devido à pandemia da Covid-19 levou a uma maior aquisição de produtos através da internet com pagamentos feitos através de plataformas como o MB Way ou homebanking.

Práticas que fizeram despoletar o aumento da cibercriminalidade por métodos fraudulentos como o phishing. Em entrevista ao Jornal Económico, Rogério Alves, presidente da Associação de Empresas de Segurança deixa o alerta para os últimos da Procuradoria-Geral da República (PGR) e para a importância da utilização de notas e moedas.

Os sistemas eletrónicos de pagamento estão mais vulneráveis numa época em que muitos dos pagamentos são efetuados através de transferências eletrónicas?

Sim. Infelizmente é verdade. Todos temos testemunhado o crescimento do número de denúncias de phishing e outros métodos fraudulentos que visam utilização de meios de pagamento eletrónico, tais como o MB WAY, homebanking e outros.

A este propósito a Procuradoria-Geral da República revelou, no passado dia 20 de abril, dados segundo os quais o número de crimes praticados nesta área se multiplicou de forma muito expressiva durante o mês de março de 2020 (um incremento 230%, considerando os valores do mês de fevereiro) e, mais ainda, em abril (um incremento de 165% apenas até ao dia 16 de abril, o que, a manter-se, conduzirá a aumento percentual ser superior a 300%).

Estamos face a um número recorde de potenciais lesados. As pessoas, confinadas à sua habitação, recorrem mais a sistemas eletrónicos de pagamento. Se por um lado, é de reconhecer o esforço feito no sentido de blindar cada vez mais estes sistemas, há que reconhecer que o risco do cibercrime não desapareceu, na medida em que os criminosos não se puseram de quarentena.

Que medidas devem ser tomadas para evitar esta vulnerabilidade e proteger todos os envolvidos?

O utilizador de meios de pagamento eletrónicos não pode, de forma direta e definitiva, tomar medidas que evitem a vulnerabilidade do sistema que utiliza. Essa intervenção caberá aos providers dessas plataformas digitais, através de regras diretamente emanadas da EU e implementadas pelo Governo e pelo Banco de Portugal.

Exige-se um sentido crítico e de alerta relativamente ao mundo digital, cumprindo as regras de segurança recomendadas. Os providers, por sua vez, devem manter uma permanente inovação dos mecanismos de segurança, visando dificultar o acesso indevido. Importa reconhecer, sem peias, a utilidade que nasce do uso destes sistemas, os quais devem ser manuseados com respeito pelas normas de segurança próprias.

Todos os estudos apontam para um desaparecimento do dinheiro em numerário. Que ameaças enfrentamos com o fim do dinheiro ‘vivo’?

Sabemos que alguns estudos apontam nesse sentido, que parece agora estar mais na moda. Porém, o desaparecimento do numerário comportaria uma verdadeira catástrofe do ponto de vista social e económico. A história tem reservado ao numerário um papel decisivo para o funcionamento das economias, sobretudo para o pequeno consumidor, que é quem efetua a esmagadora maioria das transações.

Já abordámos os riscos próprio do aumento da cibercriminalidade exercida nas plataformas de pagamento, na ótica da ameaça ao património individual. Mas o risco pode ser grupal também. Pensemos nos  potenciais apagões e no que seria um crash generalizado de sistemas de pagamento.

Sabemos que este tipo de fenómenos ocorrem e, cada vez, com maior frequência e efeitos lesivos mais profundos. Se, nesses momentos de falha dos sistemas de pagamento eletrónico não tivermos o numerário, significa que deixamos de poder transacionar. Ora, o mundo precisa de continuar a girar e os consumidores e empresários continuam a precisar de comprar e vender. O cash é o antídoto contra o crash.

Como tal, as pessoas podem e devem continuar a usar o numerário – porque defender o dinheiro significa proteger a economia mais básica e, por isso, essencial. Há, de facto uma campanha de ataque ao uso do numerário, a qual, se tivesse sucesso, criaria um perigosíssimo monopólio, servido de bandeja aos meios de pagamento eletrónico e às entidades que os exploram. A própria concorrência sofreria uma letal amputação e a dependência estaria irreversivelmente criada. Ora o que se pretende é uma concorrência viva e sã.

A pandemia que atravessamos tem propiciado mais um ataque ao numerário, acenando com o perigo do manuseamento das notas. Ora é bom que a verdade não fique submersa na pós-verdade, que, como se sabe, é o nome domingueiro da mentira.

O uso do numerário não acarreta o tipo de riscos que se lhe procura associar. Estudos realizados na EU e divulgados pelo BCE no final do mês de abril, indicam que o coronavírus pode sobreviver mais facilmente numa superfície de aço inoxidável (por exemplo, maçanetas de portas) do que em notas de banco.

As análises indicam que é muito mais difícil a transferência de vírus de superfícies porosas, como é a das notas, do que de superfícies lisas, como o plástico, material presente nos cartões bancários. Interessa sempre e em todos os casos seguir as recomendações das entidades de saúde.

O numerário vive em paz com os meios eletrónicos de pagamento. Seria bom que também estes deixassem o numerário viver em paz, o que redundará num enorme benefício para toda a comunidade.

Que riscos correm as empresas de transportes de valor com o fim progressivo do numerário?

As empresas de transporte de valores fazem parte da supplychain do numerário. São elas que o tratam e fazem chegar a todos os pontos do país. Se a campanha contra o uso de numerário tivesse sucesso, duas coisas seguramente ocorreriam: o despedimento de mais de mil e quinhentos trabalhadores e o aumento das comissões ligadas ao uso dos meios eletrónicos, uma vez aniquilada a concorrência.

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