Rui Rio chega-se ao Chega

Rui Rio dispõe de uma estratégia. Mas André Ventura também sabe as vantagens que pode vir a colher, bem como os riscos que corre se aceitar integrar o sistema que afirma combater.

Que o Chega é um partido populista só pode constituir novidade para quem não se interesse pelo estudo do populismo. De facto, a forma de André Ventura articular o discurso evidencia claramente que é defensor do populista identitário ou cultural, embora, de quando em vez, se assuma como antissistema.

Como o populismo, nas suas várias modalidades, carrega em si a imagem de uma ameaça para a democracia, não admira que muitos portugueses não tivessem aprovado que, nos Açores, o PSD decidisse recorrer a um acordo com o Chega para colocar fim à hegemonia do PS no arquipélago.

Uma onda de desaprovação que não deixou de fora os militantes e simpatizantes do PSD. Cabeças que voltaram a acenar negativamente quando Rui Rio, num evento promovido pela JSD em Lamego, ousou dizer que o Chega deveria ser tratado como igual pelos partidos da designada mainstream. Uma forma de deixar implícito que, no caso de os resultados eleitorais a isso obrigarem, não deixará de negociar com André Ventura o regresso do PSD ao Poder.

Estas palavras de Rui Rio podem ser objeto de crítica, tanto interna como externa, mas, para um analista do populismo representam algo mais profundo. Mostram que Rui Rio conhece as estratégias que têm sido usadas noutros países no que concerne ao relacionamento com os partidos populistas.

Sabe, por exemplo, que o famoso cordão sanitário destinado a ostracizar um partido populista, estratégia seguida em vários países, designadamente na Bélgica com o Vlaams Blok e nos Países Baixos com o Partido da Liberdade de Geert Wilders, representou um fracasso.

Na verdade, ostracizar um partido populista concede-lhe a oportunidade para se vitimizar, algo em que os populistas não recebem lições dos partidos tradicionais.

Sabe, igualmente, que na União Europeia estão em curso outras estratégias, designadamente a denominada «pacificação». Assim, por exemplo na Finlândia, os partidos do sistema tentam pacificar os partidos populistas recorrendo a conceções políticas, isto é, permitindo-lhes acesso ao poder e aos recursos, desde que aceitem, ainda que a seu modo, as regras do jogo democrático. Uma forma de controlar o populismo, trazendo-o para a mesa do sistema.

Rui Rio também não desconhece que, como o crescimento dos partidos ecologistas mostra, está em curso uma terceira estratégia conhecida pela designação de “encurralar”. Algo que acontece quando os partidos do sistema assumem erros do passado e tentam desapossar os partidos populistas das suas principais bandeiras, aceitando debater as temáticas que compõem o nicho de que os populistas se apossaram.

Mais estratégias poderiam ainda ser chamadas à colação, mas as três indicadas são suficientes para perceber que, desta vez e neste campo, Rui Rio dispõe de uma estratégia. Trazer o Chega para o sistema pode vir a traduzir-se numa espécie de “abraço de urso” passível de servir os interesses do PSD.

O problema para Rio é que André Ventura também anda bem informado no que a esta temática diz respeito. Por isso, sabe as vantagens que pode vir a colher, mas também os riscos que corre se aceitar integrar o sistema que afirma combater.

Se a esta atitude calculista se juntar o facto de a essência populista ser de difícil domesticação, não há dúvida de que a aproximação de Rio ao Chega se resume, por enquanto, a entreabrir uma janela de oportunidade. Algo a que o inquilino de Belém está atento.

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