Rússia: a leste nada de novo

Vladimir Putin é presidente da Federação Russa desde 1999, e irá concorrer a um quarto mandato presidencial em março de 2018. A concretizar-se, a sua reeleição determinará a continuação de um ciclo, com o consequente seguimento das mesmas políticas e estratégias.

Vladimir Putin é presidente da Federação Russa desde 1999, e irá concorrer a um quarto mandato presidencial em março de 2018. A concretizar-se, a sua reeleição determinará a continuação de um ciclo, com o consequente seguimento das mesmas políticas e estratégias.

Apesar de, à primeira vista, a economia se encontrar numa fase de recuperação, com um crescimento aceitável em 2017, um abrandamento da inflação e uma estabilização do rublo, os números atuais escondem uma realidade estrutural bem menos favorável.

  1. Economia: a Rússia continua com uma economia assente na produção de gás e petróleo, que representam 50% do orçamento de Estado. Para além de uma elevada exposição à volatilidade dos preços, as infraestruturas russas necessitam de avultados investimentos para continuarem a produzir de uma forma regular e competitiva, sendo que tendencialmente com o aumento do número de veículos elétricos o consumo de hidrocarbonetos irá diminuir, depauperando os cofres federais.

A Rússia necessita de expandir a sua indústria para setores onde possui vantagens competitivas, tais como, a indústria aeronáutica, maquinaria pesada e tecnologias de informação, tardando, muitas vezes, por questões autocráticas, a diversificação da sua economia.

  1. Política externa: as intervenções militares na Síria e na Ucrânia, assim como, a anexação da Crimeia, servem apenas para esconder uma realidade interna pautada por uma fragilidade económica e social, permitindo uma restauração, ainda que ténue e fugaz, do orgulho russo, o que faz com o seu Presidente obtenha em momentos de maior exaltação nacional, taxas de aprovação superiores a 80%.

Estas incursões externas, além provocarem sanções económicas da comunidade internacional, exigem recursos financeiros demasiado elevados para as possibilidades do país, fragilizando o nível de vida dos seus cidadãos.

  1. Demografia: com uma taxa de natalidade novamente em queda, após três anos de um saldo líquido positivo, e de uma emigração em níveis crescentes, a idade da reforma na Rússia situa-se nos 55 anos para as mulheres e nos 60 anos para os homens. Sem aumentar o número de anos de trabalho o PIB potencial irá manter-se limitado de forma constante a longo prazo.
  2. Sistema bancário: os resgates a instituições bancárias assumem-se neste momento como o maior desafio para o sistema financeiro do país, refletindo os impactos negativos das sanções internacionais e do preço do petróleo em níveis moderados.

Só este ano já tiveram de ser resgatadas três instituições de média dimensão, e outras, encontram-se com perdas devido a apostas desfavoráveis nos mercados cambiais. O Banco Central da Rússia tem conseguido manter o sistema interbancário a funcionar dentro de parâmetros satisfatórios, mas os custos com estas intervenções têm vindo a aumentar, totalizando no final do ano 12 mil milhões de euros.

O atual Presidente tem méritos inquestionáveis, nomeadamente o seu contributo para a restauração da identidade nacional e para o ressurgimento de uma realidade socioeconómica muito diferente daquela vivida na turbulenta década de 90.

Enquanto a nível político, tendo em atenção a dimensão do país, a sua diversidade étnica e a conceção histórica alicerçada em líderes fortes, é pouco plausível uma verdadeira democracia ao estilo ocidental, a nível económico, os constantes atrasos na modernização do país têm gerado uma contante sentimento de frustração numa nação com tanto fulgor a nível artístico e científico.

E como a história muitas vezes se repete, à semelhança de Mikhail Gorbatchev que com o início da Perestroika, despoletou o fim da União Soviética, o Senhor Putin sabe que o início das reformas poderá ser igualmente o seu fim.

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