Santo Domingo

A discussão de um putativo encerramento das grandes superfícies ao domingo é estéril. Numa era em que se pode comprar tudo, a qualquer dia e hora, pela Internet, é querer parar o vento com a mão.

Recentemente, o Bispo do Porto, D. Manuel Linda, insurgiu-se contra a abertura e o funcionamento das grandes superfícies ao Domingo. Não sendo um assunto novo, a referência avivou o tópico e “ressuscitou” velhas paixões e ódios sobre o tema. Ouvi e li várias opiniões. Desde os impactos negativos para o comércio, às vantagens da variedade da oferta das grandes superfícies, passando pela imperiosa necessidade de dedicar os domingos à família e à cultura, foi ver comentadores e especialistas a gladiarem-se energeticamente.

Há um velho ditado que diz que “o cliente tem sempre razão”. Talvez não tenha sempre razão, porém, sem cliente não há negócio, logo, no mínimo, tem de ficar satisfeito (ou, melhor dizendo, a sua necessidade tem de ser satisfeita).

Arrisco-me a afirmar que são poucas as pessoas que não preferem a qualidade do atendimento do comércio tradicional, face ao tratamento estandardizado de lojas franchisadas. Assim sendo, a grande questão que se coloca é a seguinte: o que leva as pessoas a deslocarem-se às grandes superfícies aos fins-de-semana e, em particular, aos domingos, quando podem ficar em casa a gozar o merecido descanso?

A resposta, por incrível que pareça, é simples: necessidade e, eventualmente, alguma comodidade. E de onde surge essa necessidade? A resposta é igualmente simples.

Se atentarmos aos dados da demografia portuguesa – “População empregada segundo os Censos: total e por sector de actividade económica” (Pordata) –, em 1960, o total de população empregada ascendia a cerca de 3,1 milhões de pessoas. O sector primário ocupava 44% da mão de obra empregada e o sector secundário cerca de 30%. Isto é, 74% da população portuguesa empregada trabalhava no sector primário ou secundário e apenas 26% no sector dos serviços. Em 2011, de acordo com o Censos, para além do aumento no número de pessoas empregadas (4,4 milhões de pessoas) a relação passou a ser totalmente inversa, i.e., 70% da população portuguesa trabalhava no sector terciário, 27% no sector secundário e apenas 3% no sector primário.

Qual é o problema da inversão na repartição da população empregada? O horário! Efectivamente, o horário do comércio tradicional é, em regra, das 9:00 às 18:00, coincidente com o dos restantes serviços.

Fazendo uma retrospectiva histórica verifica-se que, quando surgiram os primeiros serviços, a generalidade da população, estando dedicada ao sector primário, iniciava o trabalho às 4 da manhã, almoçava por volta das 8 e terminava o dia de trabalho cerca do meio dia. Mesmo aqueles que se dedicavam à indústria, ainda que por turnos (das 8 às 16, das 16 às 24 ou das 24 às 8), conseguiam, durante o seu dia normal de trabalho, conciliar a ida às compras ou às repartições para “tratar da vida” com os respectivos horários laborais.

Ao invés, hoje, é “normal” tirar-se o dia para ir tratar de um problema às finanças ou à segurança social, só faltando mesmo ter de gastar dias de férias para comprar umas calças. Acresce que, até ao início dos anos 90, a família tinha em casa a “retaguarda” de uma mãe ou de uma avó. A emancipação da mulher e a fuga para as grandes cidades, longe da família, modificou, sobremaneira, esta realidade.

Deste modo, e em função daquela que é a realidade actual da sociedade portuguesa, é estéril e inócua a discussão de um putativo encerramento das grandes superfícies ao Domingo, sem se ponderar, no mínimo, o ajustamento dos horários de funcionamento do comércio tradicional, estanques desde os tempos em que Portugal tinha uma população eminentemente rural.

Bem podem pregar os acólitos do encerramento ao Domingo. Numa era em que se consegue, a qualquer dia e hora, comprar tudo – até um carro – pela Internet, é querer parar o vento com a mão!

Podemos estar todos de acordo quanto à necessidade de encontrar um modelo de sociedade mais saudável e equilibrado, e de passar mais domingos em família ou em programas culturais. Achar que isso é alcançável pela imposição de uma proibição, sem atender à verdadeira causa que gera este comportamento é, no mínimo, irrealista.

Há uns anos atrás, trabalhava eu numa multinacional, das 9 até à hora que acabasse, e dizia-me um comerciante sobre a minha dificuldade em ir à sua loja dentro do horário normal de funcionamento: “Vocês os jovens não se sabem organizar”. Ia argumentar mas, reflectindo um pouco melhor, respondi-lhe apenas: “Sabe, o Sr. tem toda a razão. Não sei é como vai resolver o seu problema”.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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