“São as plantas que permitem a vida humana e a estabilidade das nossas sociedades”

Quem o diz é Luís Mendonça de Carvalho, professor coordenador no Instituto Politécnico de Beja, onde fundou e dirige o Museu Botânico, e autor do ensaio “As plantas e os portugueses”, publicado pela FFMS.

 

O sentido de pertença comunitária que a natureza e as paisagens que a expressam nos traz, tem sido um elemento fundamental para a  coesão social. Mas não só. O autor realça ainda que “uma das consequências mais profícuas da nossa relação com a natureza é a cultura imaterial – tradições, festas, lendas, literatura – e a cultura material.

1. Que relação temos hoje com as paisagens?

Os portugueses têm uma relação dinâmica e relevante com as paisagens, ou seja, damos cada vez mais importância à qualidade, diversidade e conservação dos ecossistemas nos quais nos inserimos. Actualmente, os portugueses mobilizam-se rapidamente para defender o património natural porque creio que têm uma consciência mais apurada de que a sua alteração implica não só a perda potencial de biodiversidade, mas também de uma herança bio-cultural, muitas vezes secular. A importância crescente das questões paisagísticas relaciona-se, também, com a consciência de que uma paisagem natural (mesmo que reconstruída por forma a parecer “natural”) nos proporciona vidas mais tranquilas e saudáveis. A presença da natureza e das suas distintas associações expressas nas paisagens, traz-nos, também, um sentido de pertença comunitária que se revela progressivamente relevante para a coesão social.

2. O sobreiro pode desempenhar um papel estratégico no país num contexto de alterações climáticas?

O sobreiro, tal como a azinheira, são árvores que estão adaptadas às condições de secura periódica que caracterizam os ecossistemas nos quais evoluíram. A azinheira apresenta uma tolerância maior do que o sobreiro, já que é uma árvore de clima mais continental, e o sobreiro desenvolve-se melhor em condições mais atlânticas. As alterações climáticas trazem uma maior frequência de fenómenos atmosféricos extremos (secas prolongadas, chuvas intensas e atípicas, etc.) que podem, também, alterar a qualidade do solo, em especial a nível microbiológico. Esta potencial alteração conduzirá a uma modificação das associações radiculares que o sobreiro e a azinheira têm com fungos e outros microrganismos, podendo colocar em causa a sobrevivências destas espécies nos ecossistemas onde, no presente, se encontram. É possível que o sobreiro possa vir a ser plantado de modo mais extenso em regiões mais setentrionais, onde, aliás, já existe e tem condições para ter maior expressão económica, por exemplo, em Trás-os-Montes. Não creio que alterações climáticas substanciais, por exemplo, ao nível da redução da pluviosidade, possam ser compatíveis com a existência de montados no Algarve e no Alentejo, tal como os mesmos se apresentam actualmente.

3. Como preservar o património botânico quando este nem sequer é ensinado nas escolas?

Esta é uma questão na qual trabalho há cerca de três décadas. A aprendizagem não advém apenas da escola, embora o ensino e a aprendizagem de determinados conteúdos no ensino oficial tragam sempre uma maior divulgação, um número maior de potenciais interessados e, também, uma certa legitimação social e cultural. A botânica tem todos os requisitos para suscitar interesse aos que com ela contactam e é possível que futuras revisões dos curricula acrescentem mais conteúdos na área da botânica, mas mesmo que tal não ocorra, a crescente disponibilidade de informação, com relevante qualidade científica, através da internet, assim como a oferta de formação extracurricular em jardins botânicos, museus, bibliotecas, etc., pode responder à menor presença da botânica nas escolas. É certo que, actualmente, o ensino da chamada botânica clássica (morfologia e sistemática) se encontra severamente diminuído, mas o interesse pela botânica económica e pela etnobotânica, que estudam os usos tradicionais das plantas em ambiente rural e urbano, apresenta um número crescente de interessados. Esta perceção tenho-a através das exposições, oficinas e acções de formação que desenvolvo no Museu Botânico do Instituto Politécnico de Beja e outros locais, no nosso país.

4. O que dizem as plantas aos portugueses dos dias de hoje?

As plantas são elementos relativamente discretos e é possível que devido à sua distância filogenética em relação aos humanos, suscitem menos questões, quando pensamos, por exemplo, na relação que os humanos mantêm com os animais. Esta distinta relação pode estar ligada ao facto de sentirmos mais afinidade com seres vivos que nos são mais próximos e, por esta razão, escolhemos, como animais de companhia, mamíferos com os quais partilhamos parte considerável da nossa história genética. Apesar desta potencial distância com as plantas, creio que nunca esquecemos que são as plantas que permitem a vida humana e a estabilidade das nossas sociedades porque sem a contínua disponibilidade de recursos vegetais, os humanos regrediriam para condições de vida inimagináveis. As plantas também nos proporcionam o conforto de podermos manter uma natureza graciosa e previsível, quando as utilizamos para preencher os nossos parques, jardins, estufas ou parte das nossas habitações.

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