Saúde Digital: o que nos afasta, também nos torna mais próximos

Estando integradas com o SNS24, as farmácias podem ser munidas de sistemas de triagem e protocolos de intervenção, constituindo-se como mais um formato na melhoria da acessibilidade, aconselhamento e controlo.

O contexto global do ano 2020 confirmou a necessidade de se criar uma sociedade mais eficiente do ponto de vista dos processos de negócio e do ponto de vista das cadeias de valor, de forma transversal a todos os setores.

E a Saúde foi (e continua a ser) um dos setores mais impactados com a pandemia mundial, sendo ao mesmo tempo um dos que maior importância tem na economia nacional, empregando cerca de 300 mil profissionais, e gerando anualmente cerca de 30 mil milhões de euros de volume de negócios.

Neste setor é urgente maximizar a utilização da tecnologia como base de um processo evolutivo que tem o objetivo de melhorar a acessibilidade aos seus serviços e ampliar a sua capacidade de intervenção. A gestão da saúde é um processo colaborativo com responsabilidades repartidas entre pessoas, profissionais e cuidadores.

A capacidade instalada no país conta com um SNS que tem de continuar a ser amplificado por serviços de complementaridade prestados por outros – “… there is a need to make more coherent the relationships at national, regional and local levels, to make better use of links with NGO and civil society…”, in Health System Review, PORTUGAL, Phase 1 Final Report, April 2018.

A realidade é que hoje a prestação de cuidados se estende muito para além das paredes físicas das grandes instituições de saúde. A telemedicina é um exemplo de serviço de saúde que aumentou a sua prevalência pela força da Covid-19. Segundo os dados do Centro Nacional de Telessaúde (CNTS), em setembro de 2020 registou-se um aumento de 40% no número de consultas face ao ano homólogo de 2019.

Ainda assim é possível crer que este número pode ser melhorado se tivermos em consideração serviços coadjuvantes à promoção da literacia digital necessários. Neste particular, as farmácias, pela sua distribuição geográfica, pela sua organização e stock de conhecimento técnico e tecnológico, encontram-se numa posição única enquanto serviço de proximidade de referência na ligação ao sistema de Saúde.

A monitorização remota de doentes é outra realidade para a qual existe tecnologia disponível. Temas como o IoT, a microssensorização e microgeração de energia, têm dado passos gigantes na construção de sistemas de monitorização mais evoluídos, pequenos e não invasivos.

Assim, torna-se possível realizar “self-monitoring” independente ou com o auxílio dos profissionais de saúde. Esta realidade ganha forma em novos conceitos da prestação de cuidados, como a “Hospitalização Domiciliária”, em que as pessoas são monitorizadas em suas casas, onde têm a visita presencial ou remota dos profissionais de saúde.

A evolução da Inteligência Artificial e do Machine Learning tem permitido o desenvolvimento de sistemas de triagem, cuja utilização pode e deve ser colocada em funcionamento com vista à melhoria na utilização dos recursos de saúde disponíveis, retirando pessoas das salas de espera das urgências e direcionando-as para soluções mais adequadas de acordo com o grau de urgência de cada situação.

Estando integradas com o SNS24, as farmácias podem ser munidas de sistemas de triagem e protocolos de intervenção, constituindo-se como mais um formato na melhoria da acessibilidade, aconselhamento e controlo. O conceito “Saúde Populacional” beneficia da informação que é gerada hoje nas farmácias, uma vez que com algoritmia sobre os dados de consumo de medicamentos é possível prever a existência de focos de doença, que quando devidamente endereçados, poderão evitar a propagação, o que representa um custo em cuidados de saúde.

E o facto de termos indicações de potenciais picos de doença deve permitir aos hospitais adequarem a sua operação a um aumento da “demanda”, tanto em termos de quantidade como em termos do tipo de serviços e profissionais que poderão ser mais requisitados.

A figura tenta demonstrar que a Saúde e a Doença fazem parte do ciclo de vida das pessoas, e que cabe a nós, aos profissionais de saúde, aos cuidadores, a todos, gerir a transição entre estados, dentro de um equilíbrio acessível, compreensível e eficiente, e com o menor custo.

Figura 1 – Ciclo da Saúde e da Doença – Ecossistema

 

Torna-se necessário dar prioridade ao desenvolvimento de projetos que tenham como objetivo criar uma maior integração entre os atores do ecossistema, que conta com prestadores públicos e prestadores privados, e que tem como objetivo comum a melhoria do atual sistema de saúde, que já não é só público e não vai ser só privado.

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