Saúde Digital, um sistema de saúde para o século XXI

Portugal tem uma dimensão adequada para pilotar uma experiência de inovação e transformação digital no setor da saúde e para atrair investimento e capital intelectual para enfrentar uma das maiores inovações do seculo XXI.

Nesta última década, o número de agregados familiares com ligação à internet e à banda larga praticamente duplicou, passando de 39% para 77 %. O número de pessoas com escolaridade secundária completa e ensino superior passou de 25% para 41% da população. A esperança média de vida aumentou, consistentemente, todos os anos.

Estávamos longe de imaginar a velocidade da mudança que a tecnologia digital traria à sociedade e de como se poderia tornar um veículo tão importante na democratização do acesso à informação de saúde, ajudando os cidadãos a fazerem escolhas mais informadas e a aumentar o seu nível de exigência perante os sistemas de saúde.

A conectividade está a mudar o mundo e o comportamento das pessoas. O aumento de capacidade que a tecnologia 5G vai aportar, leva-nos para um patamar sem precedente do desenvolvimento tecnológico. Nenhuma atividade no setor da saúde ficará alheia à incorporação crescente da tecnologia digital, fazendo desta um recurso fundamental.

A cooperação entre os novos atores da economia digital (inovadores, startups, instituições académicas, companhias de referência da área farmacêutica e da genética, produtores de equipamentos e dispositivos médicos, investidores e muitos outros) está a gerar um ecossistema totalmente novo que, por sua vez, arrasta uma vaga gigante de inovação centrada no cidadão e focada nas suas necessidades.

A revolução digital só está a começar

Um pouco por todo o mundo vão-se ensaiando soluções que tiram partido da conectividade e da partilha de informação, acreditando-se que virão a permitir uma prestação de cuidados mais eficiente e, como resultado, uma vida saudável e autónoma durante muitos mais anos. O Big Data, a Internet das Coisas (IoT), a inteligência artificial (IA) e outras ferramentas que impulsionam o desenvolvimento da sociedade digital terão um peso crescente na organização e na gestão dos sistemas de saúde.

A inteligência artificial faz parte do nosso quotidiano em muitas áreas, grande parte das quais sem darmos mesmo por isso. Na saúde, está a mudar o panorama, com as suas aplicações de apoio à decisão, análise de imagens e triagem de pacientes. A prática médica beneficia crescentemente da aprendizagem que os sistemas de inteligência artificial vão revelando, ajudando os médicos a tomar decisões mais inteligentes na análise e interpretação dos resultados dos exames de apoio ao diagnóstico, reduzindo a incerteza e melhorando o processo de diagnóstico diferencial. Com a integração contínua da inteligência artificial nos cuidados de saúde, tratar os pacientes é uma forma mais inteligente de trabalhar, e não mais difícil ou complexa.

A inteligência artificial, da qual decorre a possibilidade de aprendizagem automática dos sistemas, permite gerar algoritmos cada vez mais sofisticados que potenciam de forma significativa a segurança das observações clínicas e ampliam as competências preditivas atuais. No campo do diagnóstico por imagem, vai ser prática corrente usar um algoritmo que propõe um diagnóstico específico a partir da análise das imagens de um qualquer exame, em face da comparação com o padrão de um banco de registos de milhões de outras imagens previamente já codificadas. Tudo isto, entretanto, em milésimos de segundo.

Há um sem-número de indicadores que mostram a crescente consciencialização da população para os temas da promoção e manutenção da saúde. A adoção de muitas práticas saudáveis, como a alteração de hábitos alimentares, a prática de exercício físico regular e as preocupações ambientais, são prova disso. Os programas de saúde e bem-estar vão ganhando relevância. A promoção de estilos de vida mais saudáveis é uma componente obrigatória na oferta dos programas de saúde, desenhados por boa parte das mais representativas seguradoras especializadas em saúde.

No domínio das doenças crónicas, cujo custo constitui um dos maiores desafios para a sustentabilidade dos sistemas de saúde do nosso tempo, beneficiaremos progressivamente com a monitorização contínua dos pacientes, através da sua ligação a dispositivos digitais (IoT) que emitirão um alarme imediato em face de qualquer desvio ao padrão definido, evitando o agravamento de muitas situações clínicas ao mesmo tempo que melhora o nível de bem-estar dos pacientes. Encontram-se já disponíveis no mercado muitos tipos de dispositivos móveis (devices), como um simples relógio ou um pequeno adesivo colado no corpo, a preços cada vez mais acessíveis.

Portugal pode posicionar-se na linha da frente da revolução digital na saúde

O nosso país tem bons exemplos de inovação digital. O setor financeiro “digitalizou” muitos dos seus processos que obrigavam à presença física, e a deslocações frequentes, pela introdução de sistemas de atendimento através de call centres e pela disponibilidade criada aos clientes em fazerem operações online.

A administração fiscal é outro bom exemplo, neste caso do lado do Estado, pois tem desenvolvido um conjunto de ferramentas que permitem ao cidadão e a muitos dos profissionais envolvidos na gestão das obrigações fiscais (empresas e técnicos oficiais de contas) estabelecer um contacto quase exclusivamente digital com a administração fiscal. Todos os meses se processam milhões de liquidações e de operações de pagamento de impostos sem que seja necessária qualquer deslocação física às repartições de finanças do contribuinte.

A desmaterialização de muitos processos administrativos tem conhecido uma evolução notável em muitos sectores de atividade e até mesmo no sector da saúde. Contudo, muitos dos processos que suportam as atividades do setor continuam por transformar, com prejuízo na produtividade e na eficiência das organizações, além de um enorme transtorno e insatisfação para os seus utilizadores. Isto é tanto mais contraditório quando o sector da saúde tem sido de um enorme pioneirismo na inovação dos processos mais importantes da cadeia de valor da saúde, da qual tem resultado uma acrescida capacidade diagnóstica e cirúrgica, a partir de uma nova geração de equipamentos clínicos e armas terapêuticas, cada vez mais sofisticadas e com uma capacidade de personalização nunca antes vista.

Portugal pode capturar este momento único para pôr em marcha uma iniciativa arrojada de Saúde Digital, mostrando que é possível evoluir rapidamente de uma cultura “analógica” para uma cultura “digital”, tendo em vista promover e conservar a saúde individual e coletiva, com o propósito de assegurar uma vida longa e mais saudável a todos os cidadãos.

Os pilares dessa transformação, que poderão dar corpo a uma iniciativa desta envergadura, assentam em meia dúzia de ideias fundamentais, das quais destacaria:

  • Disponibilizar um registo eletrónico de saúde para cada cidadão, permitindo a partilha da informação clínica entre todos os níveis de cuidados;
  • Massificar a telemedicina, visando aumentar o acesso aos cuidados primários de saúde e o recurso a certas especialidades médicas;
  • Implementar um novo conceito de hospital digital, espaço de teste permanente para todas as tecnologias inovadoras, promovendo a criação e a investigação portuguesa;
  • Monitorizar os pacientes com doenças crónicas, em qualquer lugar e a qualquer hora, garantindo uma resposta pronta a qualquer alerta;
  • Partilhar os exames de diagnóstico (Imagiologia, Patologia Clínica e outros) entre todos os operadores do setor, públicos ou privados, combatendo assim o enorme desperdício de duplicação de milhões de exames por ano;
  • Promover e expandir a investigação médica através do acesso a plataformas dos dados anonimizados do Serviço Nacional de Saúde (SNS);
  • Disponibilizar informação fiável, pública e transparente, sobre as transações ocorridas no sistema de saúde, em especial no SNS, compreendendo os indicadores de produção, financeiros, nível de serviço e satisfação;

A criação de um “ecossistema digital” no setor da saúde pode mobilizar a energia das universidades, dos operadores de cuidados, dos financiadores, das autoridades de saúde e de todos os profissionais e cidadãos neste enorme desafio de ampliar o conhecimento e a inovação.

Portugal tem uma dimensão adequada para pilotar uma experiência de inovação e transformação digital no setor da saúde e para atrair investimento e capital intelectual para enfrentar uma das maiores inovações do seculo XXI. A Web Summit seria o meio, por excelência, para afirmar e comunicar este desígnio nacional.

A vantagem desta era digital é também a velocidade com que o conhecimento se propaga, atingindo quase instantaneamente a sociedade global sempre que qualquer inovação local acrescenta valor e se revela como um contributo valioso aos sistemas de saúde mundiais.

A conectividade não nos confina ao território limitado e incluso da nossa pequena “ilha”, mas é efetivamente a fronteira de um oceano sem fim, pleno de recursos e de meios, que poderemos explorar.

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