Se a Europa não serve para isto, serve para quê?

A pandemia poderá matar muitos milhares de pessoas, ao passo que os esforços para a conter poderão desferir um golpe fatal em milhares de empresas e em milhões de postos de trabalho. Estará a Europa à altura do desafio?

A situação que enfrentamos em Portugal e na Europa é de enorme gravidade, tanto no plano humano, como no económico. A pandemia poderá matar milhares de pessoas, ao passo que os esforços para a conter poderão desferir um golpe fatal em milhares de empresas e em milhões de postos de trabalho.

A boa notícia é que os governos estão conscientes desta ameaça e estão a dar sinais de que farão o que for preciso – Draghi fez escola – para lidar com os efeitos económicos da crise. No caso de Portugal, o Estado não tem o mesmo poder de fogo de outros países, mas o Executivo pôs em marcha um pacote generoso de apoios às famílias e às empresas afetadas pelas medidas de contenção necessárias para enfrentar a Covid-19. O Governo estima o custo das medidas de apoio em cerca de dois mil milhões de euros por mês e é provável que o défice deste ano dispare para mais de 3%, mas é por uma boa causa. Se os défices e as dívidas não servem para isto, servem para quê? Para salvar bancos?

Agora as más notícias, que são duas. Primeiro, a forma como os apoios estão desenhados poderá dificultar o acesso de muitas empresas à liquidez urgente de que necessitam para continuar a pagar aos funcionários, aos fornecedores e ao próprio Estado. Pese embora a disponibilidade que o Governo tem demonstrado para limar determinadas arestas, parece haver ainda um caminho a fazer nesse domínio.

A segunda má notícia é que não conseguiremos sair disto sozinhos e não é certo que exista uma resposta concertada a nível europeu. Apesar dos anúncios que tiveram lugar, das decisões positivas do Banco Central Europeu e de algumas palavras bonitas, não é certo que uma resposta europeia seja verdadeiramente eficaz e se concretize em tempo útil, como se viu, de resto, pelo facto de a China ter sido o único país a responder ao pedido de ventiladores e outro material médico essencial lançado pelo governo italiano para enfrentar a pandemia de Covid-19.

Também o tema das moratórias de crédito, que está a ser liderado pelos governos, supervisores e bancos nacionais (como se tem visto em Portugal e na Itália) demonstra que as autoridades europeias não estão a fazer tudo o que está ao seu alcance para responder de forma rápida e eficaz a esta crise.

Por fim, temos as eurobonds, agora batizadas de “coronabonds”. É certo que a pandemia é uma ameaça a todos os europeus, não existindo “risco moral” ou alguém a quem culpar, pelo que até os governos da Alemanha e da Holanda admitem agora a hipótese das eurobonds, sugerida pelo primeiro-ministro italiano. Mas nem o facto de Itália atravessar a crise mais grave desde a Segunda Guerra Mundial leva alguns governos do norte da Europa a mostrarem grande abertura. “Vamos olhar para outras opções primeiro, antes de olhar para este tema difícil”, disse um diplomata holandês esta semana, citado por uma agência internacional.

O futuro da União poderá depender da forma como responder a esta crise. Se a União Europeia não serve para que os diferentes estados se ajudem em situações como esta, serve para quê?

 

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