Se eu dissesse que isto é sobre ética poucos o liam

Aos 80 anos de idade, o meu falecido pai, quando via quem quer que seja a maltratar o espaço público, pichando ou destruindo paredes ou papeleiras, não se limitava a pensar que deveria estar ali um polícia, que deveriam existir melhores leis que o evitassem ou que o governo o deveria fazer.

Aos 80 anos de idade, o meu falecido pai, quando via quem quer que seja a maltratar o espaço público, pichando ou destruindo paredes ou papeleiras, não se limitava a pensar que deveria estar ali um polícia, que deveriam existir melhores leis que o evitassem ou que o governo o deveria fazer. O meu pai dirigia-se aos prevaricadores e dizia-lhes firmemente que deixassem de o fazer. Algumas vezes a reação vinha na forma de impropérios, ao que ele reagia veementemente e firme reafirmando que se afastassem.

A ética é a prática de todos os dias e a aspiração que os nossos comportamentos respeitem os princípios a que atendemos. A ética não é nem preto nem branco. A ética, neste sentido, não é a moral. A ética não é só de uns e ausente noutros. Por muito clara que possa ser a mensagem simples do bem e do mal, presente em certas mensagens religiosas ou em muitos contos infantis, a verdade é bem mais difusa, contínua e pouco compatível com a rigidez das ideias que colocam uns impolutos de um lado e uns conspurcados de outro. A lei tenta ajudar a concretizar as aspirações da ética e dos valores que defende.

Todavia, a lei é por vezes confundida com instruções de trabalho que tentam prever tudo, todos e tomam o todo pela parte e fazem da excepção a regra. Quando assim acontece as leis tornam-se paradoxais. Tanto querem proteger ou promover quanto mais bloqueiam ou até promovem o seu contrário. Pode não ser muito intuitivo e até estranharmos, mas quanto mais apertada a lei e mais ao pormenor vai e mais tenta prever, mais pode afastar as pessoas do seu cumprimento. A lei não deve servir como desculpa para deixarmos de pensar e repensar. A lei não pode ser razão para não reflectirmos sobre as nossas práticas e comportamentos ou para não sermos activos socialmente na promoção do que pretendemos ver acontecer à nossa volta. A investigação demonstra que todos, ao longo da nossa vida, temos falhas éticas ou de integridade. Sim, eu e você também caro leitor. A questão é se o fazemos conscientemente ou não. A mesma evidência científica diz-nos que apenas uma pequena parte de nós o faz dessa forma, planeada ou mesmo apenas consciente. Podemos ter a percepção que é generalizado, porque conhecemos pessoas que o fizeram e assim e assado, mas nesse caso não estaremos mais do que a sermos “vítimas” de enviesamentos de disponibilidade. Ou seja, o nosso cérebro tende a concluir, a partir de algumas pistas disponíveis, que elas representam o todo.

O problema é que muitas vezes assim não é. Acontece-nos! Mas sabendo isto, façamos uma construção legal e regulamentar mais simples e confiante uns nos outros, embora vigilante e crítica dos comportamentos que não respeitem a ética e a integridade. Não culpabilizante, mas responsabilizante mediante o contexto e as características da falha, se consciente ou não, se planeada ou não, e pensemos sim, cada vez mais, através de sistemas de gestão e de controlo mais ubíquos e construídos de acordo com o conhecimento sobre o comportamento humano, em formas de o prevenir. E para além e antes disso, reconheçamos o desconforto de assumir que falhamos e que precisamos de treinar a ética e a integridade. É importante pensar e repensar, resolver dilemas e discuti-los com os demais, debater no espaço público ou em privado, em formação, intervisão e supervisão ou noutros formatos que o promovam, no parlamento, nas plataformas de consenso, no diálogo do governo com outros agentes da sociedade ou em qualquer outro contexto. Este conhecimento é essencial para melhorar as políticas públicas, seja para reduzir burocracia desnecessária, proteger os cidadãos perante o Estado nos seus litígios ou divergências, ou proteger o Estado dos efeitos da corrupção, bem como para fazer cumprir as obrigações dos organismos e responsáveis públicos ou privados, sejam eles institutos, Ordens profissionais, empresas ou organizações sociais ou para que os benefícios das suas missões possam chegar a quem dele mais precisa. A ética tem que deixar de ser aspiracional apenas porque achamos muito importante e julgamos que os outros a devem praticar e precisam de a melhorar, para passar a ser uma ambição de cada um a cada momento e, por isso sim, aspiracional.

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