Incêndios: “Se o interior ficou sem árvores, então que nas cidades deixem de usar carros”

O maior incêndio do ano começou na tarde de sábado e não tem dado tréguas a bombeiros e populações. Estes são os testemunhos dos bombeiros que combateram as chamas que já lavraram mais de 8 mil hectares.

Os incêndios são uma constante para as pessoas do distrito de Castelo Branco, mas, a cada ano, parecem mais intensos e mais extremos. Em Vila de Rei, fala-se do eucalipto, das terras abandonadas, mas também de um clima em mudança.

Carlos Crisóstomo, de 62 anos, 25 como bombeiro voluntário, mostra-se frustrado e abatido enquanto olha para a floresta queimada que se avista da sua casa, em Vale da Urra, concelho de Vila de Rei (Castelo Branco).

Vai apontando para vales e montes para indicar a forma como as chamas que deflagraram no sábado chegaram até àquela localidade.

A experiência de bombeiro ajudou a salvar a casa, mas não chegou para salvar o anexo do seu vizinho, o único ferido grave do incêndio.

Queixa-se da falta dos bombeiros quando mais precisava deles, afirma que houve descoordenação no combate, mas a culpa também vem de outros lados, refere.

“Há diferenças de temperatura e o anticiclone dos Açores também se desloca agora mais para continente, com todo o mundo a poluir”, disse à agência Lusa Carlos Crisóstomo.

“Aqui, nós não contribuímos para isso [as alterações climáticas], mas ficámos sem as árvores. Se aqui ficamos sem as árvores, então que na cidade fiquem sem carros e andem de transportes públicos”, desabafa.

Luís dos Santos, também de Vale da Urra, já regressou ao seu quotidiano.

Enquanto arranca umas cebolas, comenta que, ao longo dos seus 92 anos de vida, viu sempre os incêndios a ficarem cada vez mais fortes e intensos.

O tempo, nota, também “anda desregulado”, socorrendo-se da sua horta, onde o feijão já se queima do sol quando não devia queimar-se.

“Dantes, em janeiro era inverno, depois vinha a primavera e a gente semeava e sabia o que se havia de fazer para as coisas crescerem. Agora, já não é assim”, nota.

Mas para Luís dos Santos a causa maior é outra.

“Sabe qual é o mal disto?”, pergunta, para de seguida responder, em voz baixa, quase como se não quisesse ser ouvido: “O mal disto foi o eucalipto”.

Aos 92 anos, Luís tem memória suficiente para se lembrar de uma floresta de castanheiros e sobreiros que dominava o território.

“Depois, o pinheiro veio e matou os castanheiros e os sobreiros e agora o eucalipto acabou com o resto”, vinca, salientando que onde há eucaliptos “a terra nada dá” e a água já começa a falhar nos furos de Vale da Urra mais próximos de eucaliptais.

Antes de se despedir para voltar à faina, vinca à agência Lusa: “Escreva lá mesmo que nós somos contra os eucaliptos, que isso só serve os grandes, como a Celbi e as outras [celuloses]”.

“Isto dantes estava tudo cultivado, com milhão, grão e feijão. Saiu gente, apareceu a floresta”, conta Idalina Mendes, também daquela aldeia de Vila de Rei, que andou a apagar o fogo com uma vassoura “dura de roer”, nas traseiras da sua casa.

Vestida de preto, com o terço sempre no pulso – nem à noite sai – diz que no sábado apenas se soube virar “para Deus”.

“Foi Deus que me acudiu”, frisou.

No caminho que liga Vale da Urra a Roda, aldeia já do concelho de Mação, distrito de Santarém, é possível ver a capacidade de destruição do fogo, com uma paisagem enegrecida à volta de uma estrada ladeada por pinheiros e eucaliptos que não respeitavam os 10 metros de faixas de gestão de combustível.

Em Roda, o fogo passou no domingo e voltou na segunda-feira, tendo destruído uma casa de primeira habitação.

Maria Teresa, de 69 anos – uma “das mais novas” de uma aldeia com 25 habitantes – diz que, por lá, estiveram “sempre bem protegidos pelos bombeiros” e os calos por causa dos incêndios cíclicos na região também ajudaram a manter a calma.

Apesar disso, não se lembra de um incêndio com a força daquele que chegou à aldeia.

O tempo está diferente, reconhece, sustentada pela irmã, Odete.

Apesar de noutros tempos não ter “termómetros para medir a temperatura”, a irmã de Teresa, habitante de uma aldeia vizinha, socorre-se do empirismo para confirmar as alterações do clima: “Hoje, não se aguenta fora de casa depois das 10:00 ou 11:00, quando dantes aguentava-se”.

Para além disso, a paisagem também mudou nas últimas décadas.

“Sabe, a floresta agora está diferente. Há muito eucalipto e pinheiro, quando antes estava tudo plantado, havia cabritas, mulas, burros, tirava-se a lenha do pinhal, havia sobro e castanheiro. Agora não. Onde antes havia campos de trigo, hoje há eucaliptos”, comenta Teresa.

A habitante de Roda tem pequenas courelas espalhadas pela zona, onde ainda nem foi ver o que sobreviveu às chamas.

Por lá, nunca plantou nada, mas o eucalipto foi-se instalando de forma natural, conta à Lusa.

“Por isso, também não me queixo. O que a Natureza me deu, a Natureza mo tirou”, diz.

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