Se um confinamento incomoda, dois confinamentos incomodam muito mais

 O efeito da qualidade das aprendizagens irá persistir para além da crise sanitária. É urgente, como lembra o relatório da OCDE Going for Growth 2021, implementar como política de fomento da economia o combate às perdas pandémicas na educação e apostar no sistema educativo como elevador social. 

Em Setembro do ano passado, António Costa rejeitava a hipótese de um novo confinamento. Passados cinco meses, o País estava de novo confinado. Fosse devido ao aparecimento das novas variantes mais aperfeiçoadas do ponto de vista do vírus ou, como foi expressa na subtileza da oratória do ministro Cabrita, pela não interiorização da gravidade da situação por parte da população, o Governo mandou fechar os postigos e as escolas.

Reavivou-se o discurso em torno do ensino à distância: improvisos, eficácia, dificuldades e disparidades que se intensificavam na população escolar. Se um confinamento acentua as desigualdades entre os alunos, dois confinamentos acentuam muito mais. E digo acentua porque as desigualdades já existiam no ensino presencial. A pobreza e as condições socioeconómicas, que determinam em muito o abandono escolar e o (in)sucesso dos alunos, já eram preocupações pré-pandémicas.

Antes da Páscoa, no tempo em que a vacina da AstraZeneca ainda não era para velhos, as escolas reabriram. Os políticos marcaram presença e levavam o trabalho de casa feito: mais rastreio, mais vacinação e recuperação das aprendizagens. Aprovado.

O efeito da qualidade das aprendizagens irá persistir para além da crise sanitária. É urgente, como lembra o relatório da OCDE Going for Growth 2021, implementar como política de fomento da economia o combate às perdas pandémicas na educação e apostar no sistema educativo como elevador social.

O Governo, pelas palavras do primeiro-ministro, manifestou a noção do enorme esforço a fazer para repor o tempo perdido. E tem um plano. Porém, deste pouco mais conhecemos do que o nome, Plano de Recuperação de Aprendizagens 21/23, e que será apresentado em Maio. Eventualmente. Antecipando-se-lhe, a 12 de Abril, o Bloco de Esquerda (BE) entregou na Assembleia da República propostas para a organização do próximo ano lectivo: mais docentes e funcionários nas escolas, menos alunos por turma e uma Escola de Verão são as principais estratégias sugeridas.

Igualmente no documento “Aprendizagens perdidas devido à pandemia: Uma proposta de recuperação”, apresentado ao Governo por um grupo de investigadores da Universidade Nova de Lisboa, para além de um programa de tutorias, estão incluídas as Escolas de Verão.

Os debates sucedem-se: mais horas de aula, mais apoios, mais tutorias ou coadjuvações? As decisões, a meu ver, devem assentar em dados e não em intuições; devem visar consolidar saberes e não “qualificações” esvaziadas de competências e ter em conta a avaliação das estratégias de recuperação já implementadas antes da pandemia. O ensino personalizado em várias disciplinas acumulado com o da frequência do aluno numa turma esbarra à partida com uma dificuldade: o dia continua com apenas 24 horas.  E há também que dar tempo para que o conhecimento seja incorporado na estrutura cognitiva dos alunos. É um pouco como a chuva. Se gradual, torna a terra produtiva; quando cai toda de uma vez, transforma-se em enxurrada, com possíveis efeitos arrasadores.

Todas estas reformas implicam investimento, que a economista Susana Peralta, que integra o grupo de trabalho da Universidade Nova, assegura como extremamente rentável com retorno garantido nos próximos 40 anos, três a dez vezes superior ao investido.

Comum às duas propostas referidas temos as Escolas de Verão ou Academias, que o nome é de somenos importância. Parece-me uma excelente ideia para implementar com carácter permanente. A decorrer em período de férias, sem prejuízo destas para os docentes, poderiam integrar professores reformados, usufruindo da sua experiência. O ensino escolar continua estruturado, preferencialmente, numa perspectiva académica geradora de um acentuado grau de teorização; a Escola de Verão, liberta de conteúdos programáticos, seria uma oportunidade, não para os alunos recuperarem aprendizagens, mas sim para motivá-los a aprender. Uma Escola dinâmica, em que os jovens não se comportem como seres meramente passivos, antes envolvidos em diferentes actividades dentro e fora da escola, em interacção com a comunidade; uma Escola que promova a concretização de projectos desde a música à jardinagem, que descubra a magia da Química e a magia da palavra. Uma Escola que permita descobrir a utilidade do conhecimento e a beleza do saber aparentemente inútil.

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