Sebastião Bugalho: “Seria muito mais fácil ser de esquerda, mas não seria tão divertido”

É um ‘habitué’ na comunicação social desde os seus 18 anos. Fez jornalismo pelo “i” e “Sol” e hoje é colunista no “Observador”. Aos 22, é no “Novos Fora Nada”, na TVI24, que a sua opinião cria burburinho, um burburinho de que gosta.

Sebastião Bugalho teve uma passagem fulgurante pelo jornalismo, tendo acompanhado a atividade parlamentar e acontecimentos como o incêndio de Pedrógão. Aos 22 anos, deixou o jornalismo para regressar à universidade, mas mantém um programa de debate na TVI24. Assume-se de direita – se fosse de esquerda, seria uma popstar, ironiza – e não se mostrou particularmente surpreendido quando o comparamos com outro jovem de direita que, há muitos anos, começou por ser jornalista e chegou a vice-primeiro ministro de Portugal. “As pessoas fazem-me sempre essa pergunta. Mas eu teria chegado a diretor de jornal mais depressa do que ele”, brincou.

Em relação ao programa na TVI24, o que trouxe de novo à televisão em Portugal?

Somos duas pessoas de 22 anos e acho que foi um enorme ato de coragem da TVI, da direção de programas da TVI e do Sérgio Figueiredo [diretor da estação]. Se me perguntas se fui surpreendido pelo convite, a resposta é não, porque o Sérgio Figueiredo já tinha apostado em mim, quando me colocou a comentar política e actualidade há bastante tempo. A verdade é que tenho opinião desde os 18 anos nos jornais e faço televisão desde os 20. Assim que soube que seria com o António Rolo Duarte disse que sim, porque sabia que íamos discordar bastante, é uma pessoa que eu respeito intelectualmente. Acho que o programa trouxe a idade, porque a televisão é um sítio velho.

Nunca ouviste comentários do género “és muito novo para ter opinião”?

Muito. Mas aí, não é desde que tenho o programa, mas desde que nasci. Sempre me disseram isso e sempre tive essa tendência. O meu melhor amigo diz que saí da barriga da minha mãe a ler o “The Economist” – é capaz de ter razão (risos).

Há um estudo que diz que os estudantes norte-americanos são menos tolerantes do que os seus pais e avós foram. Achas que a tua geração aceita melhor a censura do que as gerações anteriores?

Eu não gosto de falar em nome da minha geração, porque regularmente me perguntam isso – e oiço isso – e é algo que discordo, sendo uma discordância que respeito. Na minha geração não, mas na geração de políticos a seguir à minha, não a que está agora a chegar aos trinta… Vimos esse caso agora com a proibição da Marine Le Pen vir a Portugal [falar na Web Summit]. Há um medo de ouvir o diferente. Eu acho que a maneira mais fácil e mais rápida de derrotar a Le Pen é debater com ela. Nós temos de perceber que, apesar de o nosso regime ser recente, os nossos ideais democráticos são muitoresistentes e não vão ser postos em causa por alguém falar. Temos de ter um bocadinho mais de fé na democracia. Ela aguenta um bocadinho mais do que uma conferência. Eu não sou protecionista, ao contrátrio da esquerda e da Marine Le Pen, eu não sou contra a Europa, ao contrário da esquerda e ao contrário da Marine Le Pen, mas acho que ela tem o direito a falar. E nós não temos o dever de a ouvir.

Como vês uma política protecionista?

Mal. Atenção, que aceitar e defender a soberania não significa ser contra o comércio com outros estados, a ausência de fronteiras económicas ou a tentativa de que estas fronteiras sejam saudáveis e abertas. Ser soberanista não é ser protecionista. Ter uma noção do Estado nobre e patriótico não equivale a ter noções protecionistas e assustadas num mundo livre como a esquerda, por exemplo, tem.

Como é que tu achas que a direita deve lidar com as questões de género, por exemplo?

Muitos dos meus amigos ficaram surpreendidos quando o programa foi sobre a família, sobre a procriação medicamente assistida e falámos sobre o casamento homossexual e sobre a adopção por casais do mesmo sexo. Nesse sentido, sou um conservador e justifico as minhas opções liberais por ser conservador.

A direita arrisca-se a ser colonizada pelas soluções da esquerda nessas áreas?

A direita não pode ter de ter medo dos problemas da esquerda, nem tem de ter medo de bater essas soluções com a esquerda. Acho que a direita tem de ter, essencialmente, soluções diferentes, senão, não conseguiríamos distinguir uma da outra – o que é o grande problema do nosso cenário político atual.

O que pensas do novo partido de Pedro Santana Lopes? Está a deixar-se levar pelo seu ego ou, pelo contrário, é alguém que percebeu que  no pós-geringonça as regras do jogo mudaram e que há espaço para iniciativas como esta?

Eu tenho uma grande estima pessoal pelo Pedro Santana Lopes. Acho que ele sentia espaço para a sua persona política neste tempo político, quando se candidatou à presidência do PSD. Acho que ele sentiu que era a altura ideal para ser candidato, das várias vezes em que ele foi candidato e desde que ele é militante ativo e dirigente do PSD. Se isto é uma oportunidade, não sei.

Se surgisse um convite da Aliança, aceitarias?

Seria arrogante da minha parte presumir que passasse pela cabeça de Santana Lopes fazer qualquer tipo de convite, incluindo a mim. Como ele disse numa entrevista que li, ele não vai andar a bater à porta das pessoas.

Mas revês-te na Aliança?

Por aquilo que li, a Aliança já foi Macron, altamente europeísta, já foi eurocética…

Santana diz que é personalista e liberal ao mesmo tempo.

Mas isso é possível. O liberalismo é também sobre o individuo e é sobre a liberdade do individuo e a sua valorização. Mas como o novo partido é relativamente recente, não tenho conhecimento, nem falei com ninguém para ter conhecimento de causa e falar sobre ele. Não estou como porta-voz de ninguém, a não ser de mim próprio. Acho que é importante isso ficar bem vigente nesta entrevista. Estas conjugações das noções não significam. Perguntam-me o que é que eu acho que o programa mudou ou se estou disponível para esse tipo de desafios: eu tenho noção de que se fosse de esquerda era uma popstar. Eu sei que há muita gente que não gosta de me ver na televisão às oito e meia da noite, mas isso não me chateia nada. E quando digo que se fosse de esquerda  seria uma popstar, não estou nada arrependido de não o ser. Seria muito mais fácil ser de esquerda ou ser daquela direita amorfa, que gosta de não dizer coisas de direita para não irritar a esquerda. Mas, nunca vou ser isso, prefiro a “porrada” – é mais divertido. Mas também, preferindo a “porrada”, também dispenso ser o João Galamba da direita, esse  não é o meu papel.

O que significa ser o “João Galamba da direita”?

Sabendo que se fosse de esquerda seria uma popstar, prefiro manter a liberdade da coerência. É que alguém que se atira a todos os argumentos e a todas as batalhas, está necessariamente obrigado a um dia ser incoerente. Eu não tenho de defender ninguém, nenhum partido, nenhuma aliança, nenhum movimento. Só tenho de defender aquilo que penso e estou muito resguardado das incoerências. Há quem não esteja.

Como vês o estado da comunicação social, sobretudo da imprensa?

Acho que é triste e problemático termos os dois maiores partidos do parlamento com posições pouco liberais em relação à imprensa. Acho que é muito difícil ser jornalista, tenho imenso respeito a quem ainda é. Não é só dormir mal e comer as más horas, é mais do que isso – é o esforço, é uma coisa constante, 24 horas por dia, em todo o lado. Aprendi muito com os jornalistas e sou filho deles, fui educado por dois jornalistas progressistas. Esta  liberdade de opinião deriva dessa educação e também estou grato por isso.

Mas acho que os jornais já não são respeitados em Portugal. As pessoas já não olham para os jornais e para quem dá as notícias como os mensageiros da verdade. Acho que é uma grande missão tentar recuperar essa dimensão honrosa de ser mensageiro da verdade. Sempre procurei ser nobre para com essa missão e sempre foi, também, um privilégio servi-la. Tenho a certeza que vou ter saudades de o fazer.

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