Não é a melhor das clarificações políticas, por não estar em causa a eleição para o governo, mas é uma expressão clara de repúdio a André Ventura e a tudo o que ele representa e a muito do que defende. António José Seguro, quem diria?, chegou no momento certo e com a atitude adequada.
Dificilmente outro candidato seria capaz de neutralizar tão naturalmente o arsenal divisionista, primário e perigoso do presidente da Chega. A técnica é, na verdade, muito simples: não lhe dar demasiada importância, não lhe oferecer o pedestal de gritaria e demagogia que todos os outros, um após outro, alguns deles políticos experimentados e sabidos, muito rodados, foram caindo, quiçá traídos pela força das suas convicções e ainda por uma bela colher de vaidade.
António José Seguro é um político de uma outra era. De certa forma, parece quase anacrónico — mas não o-é. Seguro é o espelho de muitos portugueses, ou melhor, é a imagem serena e simpática em que muitos se revêem ou pretendem rever-se, cansados que estão da constante guerra sem limites — uma caricatura horrível—- em que a política partidária se converteu. Marcelo era o Presidente das emoções — não o sendo, na verdade, já que tem sangue frio.
António José Seguro pode de facto tornar-se o Presidente normal, o homem das pessoas — e não por estratégia mas por natureza. A genuinidade é uma das suas grandes qualidades. A outra é saber ouvir, mas também ter ideias próprias. Tem também experiência para saber onde estão os cadafalsos e amigos da onça. E tem a perfeita noção de que não está no lugar para fazer oposição ao Governo — mas para melhorar a ação do Governo, o que é muitíssimo diferente.
Sandro Pertini, o antigo presidente italiano, dizia que não gostava de heróis, preferia os homens comuns, aqueles que lutam todos os dias, sem soberba. Seguro, se quiser e souber, pode ser um Presidente assim. Livre das querelas partidárias, próximo das pessoas.



