Durante anos repetiu-se que “o cliente é rei”. Hoje, parece mais adequado dizer que o cliente é funcionário — não remunerado. As empresas, em nome da eficiência e da automação, têm transferido para o consumidor tarefas que antes eram parte integrante do serviço. O resultado? Um cliente que paga mais, faz mais e recebe menos.

A lista de exemplos é longa e quotidiana. No aeroporto, a TAP e outras companhias empurram-nos para filas de self check-in caóticas, onde o stress substitui a cortesia. Nas lojas de fast fashion, como a Zara, o self checkout transforma a compra numa operação mecânica, sem contacto humano — e sem qualquer prazer. No supermercado, a padaria de autosserviço convida-nos a pegar no pão que outros já tocaram. Nos hotéis, o check-in digital e a limpeza robótica prometem “comodidade”, mas entregam impessoalidade. No restaurante, há um aparelho para chamar o empregado; no dentista, outro para nos enviar para o andar de baixo.

Em nome da eficiência funcional e da redução de custos, as empresas estão a abdicar de algo essencial: o valor experiencial do cliente.

Sabemos, em teoria, que o valor percebido pelo cliente tem quatro dimensões: económica, funcional, social e experiencial. As duas primeiras — preço e utilidade — são fáceis de medir e otimizar. As duas últimas — relação, pertença, prazer — são difíceis de quantificar, mas são precisamente as que criam verdadeira lealdade. No entanto, num mundo obcecado por métricas e produtividade, estas dimensões “intangíveis” são as primeiras a ser sacrificadas.

O resultado é uma profunda erosão da relação entre marcas e clientes. Quando a interação se torna um processo técnico, perde-se a empatia, o sorriso, a surpresa — tudo aquilo que transforma uma transação num vínculo. A experiência deixa de ser vivida e passa a ser apenas executada.

O paradoxo é que, ao delegar tarefas no cliente, as empresas não estão apenas a poupar custos — estão a destruir a sua própria vantagem competitiva sustentável. Porque num mercado saturado de eficiência, o que realmente distingue uma marca não é a app, nem o robô, mas o significado que o cliente atribui ao momento de contacto.

Há alguns anos dizíamos: “Se não pagas pelo produto, és o produto.” Hoje poderíamos dizer: “Pagas pelo serviço, fazes o serviço — e ainda agradeces pela conveniência.”

Mas o cliente começa a perceber o truque. O que parecia modernidade revela-se comoditização. O que parecia autonomia é, muitas vezes, abandono.

A verdadeira inovação em serviços não está em substituir pessoas por processos, mas em redesenhar experiências que combinem tecnologia com humanidade. A automação deve libertar tempo para criar valor relacional e não substituí-lo.

O futuro pertencerá às empresas que compreendam isto: o serviço é, por definição, uma relação. É algo que se coconstrói com o cliente, não algo que se empurra para ele. E as marcas que vencerão serão aquelas que souberem reintroduzir o toque humano onde hoje reina o toque no ecrã.

A eficiência pode reduzir custos, mas só a experiência cria memórias. E são as memórias — não os algoritmos — que fidelizam.