Após mais de uma década de quase silêncio absoluto, António José Seguro partiu para a corrida a Belém como o mais improvável entre os potenciais sucessores de Marcelo, com as primeiras mensagens a não passarem dos 5,6% nas intenções de voto. Uma diferença de mais de 61% para o resultado deste domingo, com 3.482.481 votos, tendo Seguro superado os 3.459.521 votos em Mário Soares, tornando-se assim o Presidente com maior número de votos de sempre.
Uma vitória individual de Seguro, contra tudo e todos, e que representa uma verdadeira pedrada no charco do “poucochinho” que marcou a sua saída, pela porta pequena, do PS.
É agora com o líder que preteriram em 2014 que os socialistas voltam a estar perto de Belém, onde Seguro promete deixar “os interesses à porta” e terá pela frente dois desafios mais imediatos: o primeiro, reiterando a exigência que já antes tinha feito em campanha, o país e o Estado vão ter de preparar-se para fazer face às intempéries climáticas que afetam Portugal há mais duas semanas. O tema esteve no topo do seu discurso de consagração, onde prometeu, já em tom presidencial, que não aceitará “burocracias que impeçam a chegada dos apoios a quem já perdeu tanto”.
O próximo Orçamento do Estado é outro grande desafio, agora que o Chega se sente fortalecido com o resultado eleitoral e já se intitula ‘líder da direita’ em Portugal, prometendo governar em breve o país e assumindo o que sempre negou: a sua candidatura era puramente partidária e visava as Legislativas, não as Presidenciais. Antecipa-se maior pressão sobre o governo, que sabe que a AD não tem maioria para governar e fazer passar, sozinha, os Orçamentos do Estado.
Fica a promessa de Seguro de jamais ser um “contrapoder”. Não sendo gerador da instabilidade, deu ao Governo três anos e meio para executar o seu programa sem o fantasma de crises políticas. Na prática, deu um balão de ar ao PS, que pode agora recentrar-se sem pagar custos internos significativos e apostar na moderação, viabilizando os Orçamentos, enquanto ganha tempo para afirmar o seu posicionamento.
A uns e outros, o novo inquilino de Belém já sinalizou que “não há desculpas”, insistindo que este é o momento para o Governo e os partidos encontrarem soluções duradouras para os problemas do país, instando o Parlamento e o executivo a aproveitarem a trégua eleitoral para focar a energia política na execução de reformas e na resolução de bloqueios estruturais.
Cooperação é o que o Montenegro promete e espera de Seguro, que encostou o Governo à parede nas responsabilidades do Estado perante a catástrofe dos temporais. Mas o embate mais próximo será a revisão laboral, após o próximo Presidente ter dito que ou há uma evolução ou o seu veto político é altamente provável, com o argumento de que “não resolve nenhum problema, pelo contrário, vem criar mais instabilidade social”.
É o prenúncio de um Presidente “exigente”, com Ventura derrotado, mas ‘de olho’ na governação. Fica a promessa do “vigilante” de Belém que alcançou um resultado histórico, calando o PS ‘costista’ que o desprezou e tentou humilhar pela magra vitória nas Europeias de 2014. Vira agora a página do poucochinho e o país aguarda para perceber que tipo de Presidente “sem amarras” elegeu com a melhor votação de sempre. Surpreenderá todos, todos, todos, que esse resultado histórico tenha sido transformado em relevância política?



