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Sem apoio público, Portugal arrisca perder corrida europeia das algas

Algas tornam-se prioridade estratégica da UE e Portugal luta para transformar vantagens naturais em poder económico.
16 Dezembro 2025, 07h00

O mercado global de produtos de algas mantém uma trajetória de crescimento sólido e deverá chegar aos 6,9 mil milhões de euros até 2029, segundo o Global Algae Products Market Report 2025, da The Business Research Company. A taxa média de crescimento anual prevista de 7%, confirma o interesse crescente por um setor que começa a ganhar peso na agenda europeia para a bioeconomia.

A Europa acompanha de perto esta evolução. O reforço político ficou evidente na última Cimeira Europeia das Algas, o EU Algae Awareness Summit, onde os Estados-membros as classificaram oficialmente como um recurso estratégico para as transições verde e azul. O anúncio, feito sob o patrocínio da Comissão Europeia, sinaliza a intenção de integrar o setor nas políticas públicas e apoiar a sua expansão.

“Como salientou o comissário Costas Kadis, as algas desempenham um papel fundamental na neutralidade climática e na segurança alimentar. A UE continuará a investir em investigação e inovação, nomeadamente através da plataforma EU4Algae, para sustentar o desenvolvimento do setor. A nova legislação europeia estabelece um enquadramento favorável à expansão industrial das algas em todos os Estados-Membros”, afirma Federico Velge, presidente da PROALGA, Associação Portuguesa dos Produtores de Algas.

Segundo o responsável, Portugal reúne condições ímpares para assumir um papel de destaque: vasta área marítima, clima favorável, conhecimento científico consolidado e empresas com know how. “Falta, contudo, apoio público mais efetivo”, sublinha. Entre as medidas que considera essenciais estão a rotulagem obrigatória de origem para distinguir produtos europeus das importações, mecanismos de equilíbrio de mercado — como limites ou quotas — e a simplificação dos processos de licenciamento. “Estas ações permitiriam criar condições de concorrência mais justas e assegurar que Portugal transforma as suas vantagens naturais numa posição de liderança no mercado europeu.”

A concorrência externa é, aliás, um dos principais desafios. De acordo com Federico Velge, produtores de fora da União Europeia — muitas vezes direta ou indiretamente subsidiados — colocam no mercado biomassa de algas a preços inferiores aos custos europeus, distorcendo a concorrência. A ausência de rotulagem de origem agrava o problema, dificultando que os consumidores distingam entre produção nacional e importada.

Além disso, os produtores portugueses enfrentam obstáculos administrativos, nomeadamente processos de licenciamento considerados complexos e demorados, que atrasam investimentos e aumentam os custos operacionais. O setor tem, por isso, alertado as autoridades para a necessidade de medidas corretivas que garantam um mercado mais transparente e reforcem a competitividade da produção nacional.

O responsável da PROALGA destaca ainda que este sinal político não pode passar despercebido. “O passo seguinte deve ser transformar o impulso europeu em políticas nacionais concretas, implementando as medidas de apoio já identificadas, para que o potencial do setor se converta em emprego, inovação e valor económico para o país. Sem uma resposta rápida, Portugal arrisca-se a perder terreno, e o setor não pode continuar a competir em condições de desvantagem”.

De que algas estamos a falar?
As algas — recurso marinho, biológico e estratégico — dividem-se em dois grandes grupos com propriedades e aplicações distintas: macroalgas e microalgas. Ambos assumem importância crescente na bioeconomia azul e na descarbonização dos sistemas produtivos.

As macroalgas, que incluem classes como Phaeophyceae (castanhas), Rhodophyta (vermelhas) e Chlorophyta (verdes), constituem uma biomassa renovável de rápido crescimento, eficiente na captura de carbono e na remoção de nutrientes. A sua utilização industrial está consolidada: produção de hidrocolóides, bioestimulantes agrícolas, ingredientes alimentares, rações para aquacultura e pecuária, cosméticos e novos biomateriais.

Portugal reúne condições naturais particularmente favoráveis à aquacultura de macroalgas — clima temperado, elevada produtividade primária e uma extensa faixa costeira — criando um cenário propício ao desenvolvimento de cadeias de valor sustentáveis. A ALGAplus é apontada como caso de sucesso, produzindo macroalgas através de sistemas de Aquicultura Multitrófica Integrada (IMTA), nos quais o cultivo de algas complementa o de peixes em modo biológico.

As microalgas, como Chlorella, Nannochloropsis, Tetraselmis ou Spirulina, distinguem-se pela elevada produtividade por unidade de área e pela eficiência fotossintética. São utilizadas na produção de compostos de elevado valor acrescentado, incluindo ácidos gordos ómega-3 (EPA/DHA), pigmentos como ficocianina e astaxantina, proteínas funcionais, antioxidantes e biopolímeros. Têm aplicações relevantes na aquacultura — sobretudo no cultivo de larvas —, em suplementos nutricionais, na cosmética avançada e em diversos bioprocessos industriais. Em Portugal existem já vários exemplos de produção industrial com base biotecnológica madura e diferenciadora.

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