Luís Miguel Bernardo: “Sem ciência torna-se inviável a sobrevivência de uma nação”

Na perspetiva do cientista-pensador Luís Miguel Bernardo, inverter o curso da história e tentar recuperar de um atraso científico de quatro séculos passa por tornar a ciência uma prioridade nacional, criar infraestruturas científicas estáveis, investir muito e apostar no longo prazo. Os portugueses têm tantas aptidões como os outros povos, afirma.

Professor catedrático aposentado da Universidade do Porto, onde dirigiu o Museu de Ciência, Luís Miguel Bernardo é coautor de numerosos artigos científicos, de duas patentes e dos livros “Histórias da Luz e das Cores”, em três volumes; “Cultura Científica em Portugal: Uma Perspectiva Histórica”; “Visão, Olhos e Crenças”; e “Luz, Vida e Saúde”. Com a chancela da UMinho Editora, acaba de dar à estampa mais um: “As Causas do Atraso Científico em Portugal – Uma Digressão Histórica”. Nesta entrevista de lancinante lucidez, o cientista-pensador diz que uma nação sem ciência é inviável, aponta soluções e avança a convição de que os portugueses se deixarão mobilizar em torno desse desígnio.

 

Como descreve a ciência que se faz em Portugal numa só frase?
Em termos de qualidade, a ciência que se faz em Portugal aproxima-se dos padrões médios europeus; em quantidade, estamos ainda em níveis bastante modestos. Em 2020 o investimento português em ciência foi de 1,6% do PIB, inferior à média europeia de 2%. No mesmo ano, a Suécia com a mesma população de Portugal investiu em ciência 4% do PIB.

 

Na escala de um a cinco, como a avalia comparativamente aos países mais avançados?
Nesta escala, colocaria a ciência em Portugal no nível três …

 

Nos séculos XV e XVI, a ciência teve um papel determinante
para que o país desse ao mundo invenções como a caravela portuguesa e o nónio. O que dita o início do ocaso?
Nesses séculos Portugal era um país cosmopolita, aberto à Europa e aos novos mundos, mas a sociedade continuava a ser dominada por velhas ideias e preconceitos sócio-religiosos. A expulsão dos judeus, que D. Manuel se viu obrigado a decretar depois de muitos deles terem sido massacrados pelo povo lisboeta em 1506, depauperou a elite social e intelectual portuguesa. Depois de ter trazido para o país um conjunto de professores, portugueses e estrangeiros, para ensinarem no Colégio das Artes em Coimbra, D. João III conseguiu obter a tão desejada autorização papal para introduzir a Inquisição em Portugal, a qual começou imediatamente a perseguir a maioria desses professores, acusados de heresia. As novidades, incluindo as novidades científicas, traziam com elas transformações e mudanças e, por isso eram combatidas. Erradamente, pareceu aos portugueses que podiam continuar o seu domínio de potência marítima e colonial sem precisarem de inovar.

 

O atraso português vem de quando?
Este atraso começou a verificar-se no início da decadência histórica que se seguiu ao período dos descobrimentos. Neste período áureo, o país esteve na vanguarda do conhecimento científico que, na verdade, era ainda “pré-científico,” visto que a ciência moderna só surgiu no século XVII. Apesar do impulso de modernidade adquirido na época dos descobrimentos, Portugal não conseguiu, porque não quis, acompanhar sequer a nova ciência moderna.

 

Como é que o Estado Novo tratou a ciência?
O Estado Novo, seguindo o exemplo dos nossos vizinhos espanhóis, fez algum investimento na ciência, mas não a acarinhou nem a promoveu de forma independente e desinteressada. Basta lembrar os saneamentos políticos, realizados em 1935 e 1947, que levaram ao afastamento de muitos cientistas, professores nas universidades e nos liceus, que tiveram que emigrar ou dedicar-se a outras atividades nada condizentes com as suas capacidades intelectuais. É de referir ainda as dificuldades que o Estado Novo criou a cientistas judeus, fugindo de perseguições durante a II Guerra Mundial, a quem não foi dado o acolhimento que procuravam e que os seus colegas portugueses lhes ofereciam.

 

Vivemos há quase 50 anos em democracia e 30 na comunidade das nações mais avançadas.
O país recebeu muitos fundos de Bruxelas para se modernizar. A ciência aplicada teve o que deveria?
Eu diria que foi devido a estes poucos fundos europeus destinados à ciência, fundamental e aplicada, que o desenvolvimento da ciência nacional começou a ter alguma expressão no contexto europeu. Perante necessidades de outra natureza, consideradas popularmente mais prioritárias, não creio que os governos tivessem tido o interesse ou a capacidade de fazer investimentos significativos com fundos nacionais nem de aumentar os fundos europeus que a ciência mereceria receber.

O atraso científico de Portugal face a países como a França,
a Inglaterra ou Alemanha que, como diz, vem desde o século XVII, poderia ter sido alterado? Que razões fizeram com que não fosse?
Houve períodos da história nacional em que se poderia ter alterado o curso do crónico atraso científico. Mesmo antes da reforma pombalina houve, no tempo de D. João V, condições para o país poder integrar-se no movimento científico europeu. O próprio rei deu sinais de que desejava fazê-lo, mas faltou gente competente ou interessada para o acompanhar. A ignorância, a apatia e até a aversão para com a ciência faziam parte da cultura nacional. O Marquês de Pombal sentiu a mesma resistência social e só à força conseguiu impor algumas das suas ideias de modernidade. No século XIX, perdemos uma grande oportunidade quando houve entre nós muitos homens que reconheceram o valor da ciência e desejaram desenvolvê-la no país. As invasões francesas, a guerra civil entre liberais e miguelistas e a crise económica, que se lhe seguiu, frustraram tais expectativas, apesar das boas intenções de D. Pedro V e D. Luís. A República criou a esperança que as coisas poderiam mudar. Ao fundar as novas universidades de Lisboa e Porto e ao reorganizar a de Coimbra, o Estado republicano impôs aos professores universitários a obrigação de fazerem investigação científica mas os meios para a concretizar nunca foram dados às universidades. O Estado Novo, como disse anteriormente, poderia ter feito mais pela ciência se tivesse acarinhado os bons cientistas que despontaram nessa época em Portugal, muitos deles formados no estrangeiro, mas em vez disso perseguiu os mais competentes, com receio que desestabilizassem o regime político, imposto pela força.

 

Porque continuamos a falhar como coletivo? Qual é, afinal, o nosso grande problema?
É um lugar comum dizer-se que os portugueses, por desconfiança ou por qualquer outro motivo, não têm a capacidade de trabalhar em colaboração para um objetivo comum. Receiam que os seus esforços beneficiem quem menos merece ou menos trabalha! Penso que os portugueses não têm nenhuma relutância em trabalhar coletivamente, quando o objetivo é bem compreendido e os benefícios pessoais e coletivos estão claramente estabelecidos. Temos experiências históricas que mostram que isto é verdade. A aventura dos descobrimentos foi um projeto nacional a longo prazo bastante bem sucedido; as concretizações de projetos colectivos recentes, embora menores e de curto prazo, prestigiaram os portugueses aos olhos dos estrangeiros.

 

Que valor dá o povo à ciência? Entre a construção de mais
uma autoestrada ou investimento na ciência, o que escolheria o português?
O povo português conhece mal não só a ciência como também os muitos e variados benefícios que a ciência pode oferecer à sociedade. Por isso, não lhe dá o valor que ela realmente merece. Em face do benefício direto trazido por uma autoestrada, o vulgo não tem dúvidas em preferi-la em vez de um navio oceanográfico devidamente equipado para fazer o estudo dos mares da nossa extensa zona marítima. Quando precisa de melhores estradas ou hospitais, o português não entende que se faça um investimento avultado numa estrutura científica que só a médio ou longo prazo poderá vir a beneficiar o sistema produtivo nacional e, indiretamente, toda a população.

 

Como têm as elites e os políticos, em particular, tratado a ciência?
As elites e os políticos emanam da sociedade, maioritariamente alheia à ciência, e muitas vezes a sua formação académica, por deficiências do sistema educativo, não incute neles os valores da ciência e da cultura científica. Não é invulgar ver e ouvir pessoas com responsabilidades na sociedade portuguesa manifestar opiniões claramente anticientíficas, que só favorecem causas irracionais como, por exemplo, o movimento contra a vacinação ou a negação das alterações climáticas. Os políticos não gostam de pensar a médio e longo prazo e portanto as questões do desenvolvimento científico não fazem parte das suas prioridades.

 

Há crescimento económico e desenvolvimento social sem ciência?
Atualmente, é descabido acreditar que possa haver desenvolvimento económico e social sem a ciência. Diria mais: sem ciência torna-se inviável a sobrevivência de uma nação. Todos os produtos da atividade humana, incluindo as artes e as humanidades, têm uma componente tecnológica de base científica. Se nos retirassem tudo o que depende da ciência, regressaríamos à Idade Média.

 

Durante a pandemia de um dia para o outro, o país estava a fabricar máscaras, gel e até um ventilador. É possível agarrar esse ímpeto criativo e fazer descolar a ciência?
Este exemplo só mostra que os portugueses podem trabalhar coletivamente, com engenho e criatividade, para um objetivo comum, como referi anteriormente. Temos que transformar essa capacidade, excessivamente ligada a missões de circunstância, e orientá-la para projetos de médio e longo prazo. Estou convencido que os portugueses estarão dispostos a concretizar projetos nacionais de envergadura se entenderem a sua utilidade para si próprios, como indivíduos e como coletividade.

 

De que armas dispõe o ministro da Ciência para fazer diminuir
o atraso do sistema científico?
Desconheço as armas de que o ministro da Ciência e Tecnologia dispõe, mas poderei referir alguns objetivos que é necessário atingir na luta contra o atraso científico nacional: melhoria do ensino das ciências logo desde a escola primária; melhoria das condições de trabalho dos investigadores científicos; continuação de políticas de internacionalização da ciência nacional; aumento do investimento; maior ligação entre ciência, comércio e indústria. Estou certo de que a comunidade científica, ciente dos benefícios da ciência, está disponível para ajudar o ministro na sua missão de eliminar definitivamente o atraso científico nacional.

 

Na sua “digressão” pela história da ciência, quais são os factos
que mais o impressionaram?
É difícil responder, exaustiva e resumidamente, a essa questão. Como exemplos, poderei referir que me impressionaram: as posições contra a ciência, expostas nos púlpitos das igrejas portuguesas, nos séculos em que o atraso científico era muito claro e evidente; a abnegação e a dedicação de muitos cientistas que, no século XIX, foram apelidados de “mártires da ciência”; o enorme esforço, embora sem sucesso, realizado por cientistas e intelectuais portugueses do século XIX para promoverem a ciência em Portugal; o saneamento de cientistas portugueses pelo Estado Novo quando era fundamental promover o desenvolvimento da ciência nacional.

 

No último século, que países apostaram no sistema científico para se desenvolverem?
Todos os países desenvolvidos, que designamos como países do primeiro mundo, ou em pleno desenvolvimento, apostaram na ciência. Alguns, com tradição científica antiga como, por exemplo, a França, o Reino Unido e a Alemanha, fizeram-no ainda no século XIX. O mesmo aconteceu com os Estados Unidos. Outros, como a ex-União Soviética, Japão, Coreia, Israel, Suécia, Finlândia e China, fizeram-no no século XX. Não foi necessário muitas décadas para alguns destes países atingirem o pelotão da frente na corrida da investigação científica.

 

Quando teve consciência do atraso científico português?
Tive o meu primeiro contacto com a ciência aplicada, quando, em 1973, realizei o meu estágio de licenciatura nos laboratórios de investigação e desenvolvimento de uma conhecida indústria holandesa. Verifiquei então que, na Holanda, muitas indústrias tinham os seus laboratórios de investigação e desenvolvimento. Nessa altura, em Portugal, falava-se na existência de um laboratório privado na CUF mas que ninguém conhecia… Ao iniciar a minha carreira como assistente universitário, comecei a fazer investigação e verifiquei que entre os autores dos artigos científicos, nas revistas internacionais, se encontravam nomes portugueses, mas, para minha surpresa, todos trabalhavam no estrangeiro. Em 1979, quando iniciei o meu programa de doutoramento nos Estados Unidos, ingressei num laboratório universitário equipado com instrumentos modernos que só conhecia dos catálogos. A visita que fiz a outras universidades e instituições americanas, mostrou-me a enorme dimensão das infraestruturas científicas nos Estados Unidos e a pequenez das instalações científicas que conhecia em Portugal.

 

Como professor na Universidade do Porto, onde ensinou Física, ajudou a formar várias gerações. Como vê o futuro? Portugal conseguirá algum dia eliminar este atraso?
Como investigador e professor em Portugal, tive uma experiência extremamente positiva, pois sempre encontrei jovens muito inteligentes e motivados, que me convenceram definitivamente que os portugueses têm tantas aptidões para a ciência como os outros povos. A qualidade e a produtividade científica cresceu de forma muito significativa nos últimos 30 quando as condições de trabalho começaram a melhorar e a ciência portuguesa começou a integrar-se na ciência internacional, com parcerias e colaborações. Estou otimista de que a ciência portuguesa consiga atingir níveis comparáveis aos dos países mais desenvolvidos, mas é necessário que seja encarada como prioridade nacional e sejam criadas infraestruturas científicas estáveis, o que exige muito financiamento e um empenho persistente e continuado dos nossos governantes.

 

Se pudesse dar um conselho aos jovens do país, o que lhes diria?
Acreditem na ciência como a forma mais fidedigna de conhecer a verdade. Procurem conhecer a ciência e o método científico, mesmo que a vossa vocação vos oriente para outras áreas do saber ou do fazer. Deixem-se guiar pela mentalidade experimental e crítica própria do espírito científico, que, como dizia António Sérgio, é o único caminho para o verdadeiro saber. Se gostarem de ciência persistam no seu estudo, porque a satisfação que ela vos dará é única e incomparável.

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