Ser do interior, não de segunda

Das duas uma: ou o país começa a olhar efetivamente e a apoiar ativa e permanentemente todas as regiões do país, ou fecha as portas ao interior e entrega-o ao país vizinho.

As últimas duas semanas foram de grande sobressalto para duas pessoas amigas: uma teve um enfarte do miocárdio e outra partiu o fémur. Nenhuma destas histórias seria relevante, não fosse o caso de terem acontecido no interior centro português, local para onde os médicos não querem ir.

No caso de ortopedia, a pessoa teve de esperar quase 48 horas por uma operação considerada urgente, dado o sofrimento atroz a que a acidentada estava exposta. Mas o que é que aconteceu?

Não havia ortopedista disponível, porque não abundam nem na região nem nas restantes unidades de saúde do interior. Local que a maioria dos médicos especialistas dispensa, local para onde os sucessivos governos não olham (ou fingem não olhar), local votado ao abandono num triste fado tocado em Lisboa e escutado na raia.

No caso de cardiologia, após ter recebido atendimento prioritário num dos hospitais da Beira, a pessoa foi transferida de ambulância, num percurso de mais de duas horas, para onde?

Para uma unidade hospitalar junto à costa, onde a maioria dos médicos se instala e para onde a maior parte dos novos médicos quer ir. Ali, onde parecem viver os cidadãos de primeira, aqueles que os sucessivos governos têm como prioritários porque estão no lado certo do país: o litoral.

Felizmente, o estado de saúde de ambos é estável, mesmo sendo habitantes de uma região onde as pessoas são tratadas como habitantes do lado lunar do desenvolvimento, o lado B do investimento e o lado esquecido dos serviços de saúde, como assistimos repetidamente.

Caros membros dos governos central e regional, supremos zeladores da nação: caso ainda não se tenham apercebido (pode ser o caso, o povo não é sempre sereno, as pessoas cansam-se de viver na zona distópica da nação, os cidadãos não toleram ser classificados ad aeternum de humanos de segunda. E porque se sentem continuadamente coartados nas suas ações, aspirações, objetivos, oportunidades e sonhos, começam a perder a esperança e, com isto, a ceder mais facilmente a discursos radicais.

Das duas uma: ou o país começa a olhar efetivamente e a apoiar ativa e permanentemente todas as regiões do país, ou fecha as portas ao interior e entrega-o ao país vizinho, certamente entusiasmado com o que de bom as pessoas da raia têm para oferecer.

Com este discurso associo-me ao conjunto alargado de pessoas que dizem não querer ser os “portugueses coitadinhos”, mas que querem, ao contrário do que os pensadores das políticas públicas, sentados em belos gabinetes frente ao Tejo a beijar o Atlântico possivelmente ignoram, viver numa região alvo – de facto – de discriminação positiva: mais investimento para gerar emprego qualificado, mais investimento em unidades de saúde, mais investimento em estabelecimentos de ensino superior, mais investimento em acessos e rede viária, mais e mais.

Porque viver no interior não deveria ser mais difícil do que viver no litoral. Em Portugal, é. E muito! Por isso, este é mais um grito de alerta. Caso nada seja feito, os cidadãos de segunda – assim tratados – vão fazer-se ouvir. Assim seja.

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