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Setor do turismo português vai registar uma desaceleração em 2026, antevê BPI

A nível económico, o peso do turismo no PIB deverá subir de 17% em 2025 para 17,5% em 2026, com o Valor Acrescentado Bruto do Turismo a atingir 23,1 mil milhões de euros. O consumo turístico já representava 16,6% do PIB em 2024 e continua a ser o motor mais relevante da economia portuguesa.
REUTERS/Rafael Marchante/
21 Março 2026, 15h59

O setor do turismo português vai registar uma desaceleração em 2026. Segundo a Nota Informativa do BPI Research publicada esta semana, o número de hóspedes deverá aumentar apenas 2,8% face a 2025, depois de ter crescido 3% no ano anterior. A previsão final resulta de um cenário “endógeno” de +3,4% corrigido por dois efeitos opostos: o ganho de capacidade hoteleira (+0,2%) e o impacto negativo das tempestades e cheias de janeiro e fevereiro (-0,8%).

Em 2025, os estabelecimentos de alojamento turístico receberam 32,5 milhões de hóspedes e 82,1 milhões de dormidas, com crescimentos de 3% e 2,2%, respetivamente. Os proveitos totais subiram 7,2%, impulsionados pela inflação e pela subida na cadeia de valor.

O mercado externo continuou a dominar (69,4% das dormidas), mas cresceu apenas 0,8%, enquanto o interno avançou 5,4%. O Reino Unido manteve-se líder (17,7% das dormidas de não residentes), apesar de uma queda de 1,5%.

Os maiores ganhos vieram do Canadá (+5,8%) e dos EUA (+4,9%). Regionalmente, a Península de Setúbal e a Madeira lideraram (+5,4% e +4,8% em hóspedes), enquanto o Algarve cresceu apenas 1,8%.

O turismo rural e de habitação continuou a destacar-se com uma subida de 7% nas dormidas.

O saldo da balança de Viagens e Turismo atingiu em 2025 o valor recorde de 21,975 mil milhões de euros (+5,1%), representando 7,2% do PIB e 66% do saldo dos serviços.

Para 2026, o BPI Research parte de um crescimento global de 3,4% (metade inferior da previsão das Nações Unidas de 3-4% para o turismo mundial) e aplica depois os ajustes. A expansão da oferta hoteleira – 76 novos hotéis com 8.154 camas até ao final do ano, 71% delas em 4 e 5 estrelas – deverá adicionar 0,2% ao total de hóspedes. Em contrapartida, as cheias que afetaram 68 municípios (14,9% dos estabelecimentos turísticos nacionais) vão retirar 0,8%, com quebras estimadas entre 70% e 100% nos meses de fevereiro a maio em Leiria e restantes concelhos em calamidade.

Por mercados, o crescimento será desigual.  “No nosso cenário endógeno estimámos um crescimento global dos hóspedes em Portugal de 3,4% em 2026, na metade inferior do intervalo entre 3% e 4%. Para este racional concorrem diversos aspetos. Primeiro, a posição no ciclo. Enquanto o turismo noutras partes do globo está ainda numa fase de expansão/recuperação forte pós-Covid, em Portugal esse caminho já foi trilhado (entre os países da UE somos dos que tem maior variação face a este período) e encontramo-nos numa fase de consolidação. Por outro lado, o value for money continuará a ser a principal preocupação dos viajantes, e Portugal nesta matéria não compara bem num dos termos da equação, quando olhamos ao fator preço”, segundo o research do BPI que admite possível desvio de viagens longas por causa do conflito no Médio Oriente.

“Por fim, o desempenho com dinâmica e outlook fortes em alguns países da bacia do mediterrâneo que concorrem diretamente com Portugal – Albânia, Malta, Montenegro e Turquia”, acrescenta.

No lado dos não residentes, mercados emissores do EUA e Canadá deverão continuar a moderar o seu ritmo de crescimento, com incremento de +2% e +3%, respetivamente. Esta moderação assenta sobretudo na ocorrência de um grande evento desportivo que abrange os dois países (Mundial de Futebol de 2026) e que deverá dinamizar o turismo interno. “Neste comportamento também está incorporado a perspetiva de abrandamento do turismo de longo curso decorrente do encarecimento do jet fuel (associado ao conflito em curso no Irão)”, diz ainda o BPI.

“Para a generalidade dos mercados emissores dos países europeus assumimos um crescimento de 2% mas mais fraco em Espanha, França e Itália, onde assumimos estabilização no número de hóspedes face a 2025”, refere BPI.

“No caso de particular da Itália o evento dos Jogos olímpicos de Inverno também deverá dinamizar o turismo interno por contrapartida do turismo para o estrangeiro. Estes pressupostos resultam num incremento do turismo por parte dos principais mercados emissores europeus
(excluindo UK) de 1%”, segundo a mesma análise.

“No caso destes mercados emissores europeus, consideramos que o efeito do conflito no Médio Oriente poderá ser positivo para o turismo português. O conflito reduz o potencial de viagens destes mercados emissores para destinos mais longínquos, nomeadamente asiáticos, beneficiando as viagens Intra continente europeu. Isto ajuda a justificar o estancar de quebras no número de hóspedes oriundo dos importantes mercados que referimos”, defende o BPI.

No que toca a “Outros mercados” (México, Coreia do Sul, Japão, Austrália, entre outros) o BPI diz que “o crescimento esperado das viagens outbound por parte de mercados emergentes também ajudará a reforçar a dinâmica desta fatia, em que assumimos um crescimento anual de 8%”, graças à estratégia de promoção do Turismo de Portugal e nova conectividade aérea.

A nível económico, o peso do turismo no PIB deverá subir de 17% em 2025 para 17,5% em 2026, com o Valor Acrescentado Bruto do Turismo a atingir 23,1 mil milhões de euros. O consumo turístico já representava 16,6% do PIB em 2024 e continua a ser o motor mais relevante da economia portuguesa.

O relatório alerta, no entanto, para a perda de competitividade de Portugal no fator preço face a destinos mediterrânicos emergentes (Albânia, Montenegro, Turquia) e para a fase de consolidação pós-Covid em que o país já se encontra, ao contrário de outras regiões do mundo ainda em recuperação forte.

Em síntese, 2026 será um ano de crescimento positivo, mas mais moderado, marcado pela resiliência do mercado interno e dos segmentos premium, pelo impacto temporário das cheias e pela capacidade de captação de novos mercados longínquos. “O setor mantém-se como pilar estratégico da economia nacional, mas enfrenta desafios claros de sustentabilidade e concorrência internacional”, sublinha BPI.


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