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SL Benfica: dois modelos financeiros para o mesmo desafio

Rui Costa e João Noronha Lopes partem do mesmo diagnóstico: o Benfica precisa de combinar sucesso desportivo com uma base financeira mais sólida e menos dependente da venda de jogadores. Mas divergem na estratégia — um aposta em crescimento por investimento e escala, o outro por disciplina e transparência.
7 Novembro 2025, 08h38

Dois projetos, um mesmo desafio

O Benfica regressa às urnas a 8 de novembro para a segunda volta das eleições dos órgãos sociais, num momento em que o debate sobre o modelo financeiro do clube ganha particular atualidade.

Na passada quarta-feira, o Benfica somou a quarta derrota na fase de grupos da Liga dos Campeões, praticamente afastando a hipótese de apuramento. A implicação é direta e financeira: o clube poderá deixar de arrecadar entre 20 e 30 milhões de euros de prémios da UEFA face à época anterior — uma quebra equivalente a cerca de 13% das receitas totais do último exercício.

Com tudo o resto constante — incluindo as mais-valias da venda de João Neves e a participação no Mundial de Clubes —, esta redução anularia praticamente os 30 milhões de euros de lucro registados no último ano. Este episódio ilustra com clareza a forte dependência do Benfica das receitas da Liga dos Campeões e mostra como os resultados desportivos condicionam a sustentabilidade financeira do clube.

É neste contexto que se defrontam dois projetos com o mesmo objetivo declarado — combinar sucesso desportivo com estabilidade económica —, mas estratégias distintas para o atingir: Rui Costa, atual presidente e defensor da continuidade, e João Noronha Lopes, que propõe uma alternativa centrada na disciplina orçamental e na reforma da governação. Mais do que uma escolha entre perfis de liderança, o que está em causa é o modelo económico e financeiro do Benfica: como crescer, investir e estabilizar as contas num futebol cada vez mais competitivo e volátil.

O que os une

Ambos os candidatos partem do mesmo diagnóstico: o Benfica precisa de reduzir a dependência das mais-valias com jogadores, aumentar a diversificação das receitas e garantir uma gestão mais profissional.

Os dados europeus reforçam esta perceção comum. Entre os 20 clubes com maiores receitas do mundo (Money League) e os 20 mais bem classificados no ranking da UEFA que mede o desempenho acumulado nas últimas dez épocas, 15 são os mesmos. Isto  ilustra claramente a percepção comum: o sucesso desportivo consistente está hoje fortemente associado ao poder económico. Os clubes com maior capacidade financeira são, regra geral, os que se mantêm de forma sustentada no topo das competições europeias.

A diferença entre Rui Costa e Noronha Lopes não está no diagnóstico, mas na execução: o primeiro acredita no crescimento por escala e investimento, o segundo defende disciplina e governação

Rui Costa: crescer por escala e investimento

O programa “Só o Benfica Importa” propõe um modelo de continuidade com expansão. A meta é atingir 500 milhões de euros de receitas anuais e reduzir o passivo em 100 milhões até 2029, através de uma estratégia de diversificação e internacionalização.

Rui Costa aposta em grandes projetos de investimento, como o Benfica District, complexo adjacente ao Estádio da Luz com arena, pavilhões e zonas comerciais, e a Cidade Benfica, dedicada à formação e modalidades. Também prevê a abertura do Hotel 1904 e um programa de recompra de ações e obrigações da SAD, destinado a reforçar o capital próprio e a confiança do mercado.

O modelo assenta na ideia de crescimento por escala — mais receitas, mais investimento, maior dimensão. Mas a meta dos 500 milhões de euros parece extremamente ambiciosa. Nos últimos quatro anos, mesmo com um exercício recorde em 2024/25, impulsionado pela participação no Mundial de Clubes e pela boa performance na Liga dos Campeões, o Benfica viu as suas receitas crescerem de 169 milhões para cerca de 230 milhões. Mais do que duplicar esse valor em apenas quatro anos significaria um salto sem precedentes, num contexto de menor inflação e de crescimento limitado do mercado nacional. Atingir 500 milhões não seria apenas duplicar o volume atual: colocaria o Benfica entre os 12 clubes com maiores receitas do mundo, à frente de AC Milan, Inter de Milão, Juventus e do Atlético de Madrid, e próximo de equipas como Borussia Dortmund ou Chelsea.

Além disso, o programa não explica de forma convincente como compatibilizar o aumento do investimento com a prometida redução do passivo. Embora mencione “eficiência”, não estabelece qualquer compromisso de redução de custos — pelo contrário, os novos projetos de infraestruturas tenderão a aumentar a despesa fixa e a complexidade da gestão. Com custos operacionais a crescer cerca de 5% ao ano, o equilíbrio financeiro continuará dependente do sucesso desportivo — uma variável que o modelo atual não controla.

Em síntese, Rui Costa aposta em crescer por escala e investimento, mas o plano depende de um contexto de desempenho desportivo e financeiro excecional para ser sustentável.

João Noronha Lopes: disciplina e transparência

O programa “Benfica Acima de Tudo” propõe uma mudança estrutural na governação e uma visão de gestão mais institucional e profissional. Noronha Lopes apresenta um modelo assente em disciplina, transparência e sustentabilidade, suportado por planeamento estratégico a dez anos e metas de equilíbrio operacional — isto é, receitas correntes superiores às despesas correntes.

Um dos pilares do programa é a criação do Portal da Transparência Benfiquista, onde seriam publicadas as principais decisões financeiras, contratos relevantes, comissões e execução orçamental do clube e da SAD. Este compromisso é complementado por uma reorganização orçamental por áreas de atividade e pela fixação de limites de endividamento compatíveis com as regras da UEFA, reforçando a prestação de contas e a credibilidade da gestão.

O programa apresenta também um conjunto de iniciativas concretas para aumentar as receitas e diversificar a base financeira do clube. Entre elas, a internacionalização comercial através de parcerias estratégicas para merchandising e conteúdos digitais nos principais mercados externos; a criação de uma rede global de escolas Benfica, explorando a marca através de licenciamento e royalties; e a exploração da linha “Benfica Vintage”, em colaboração com marcas e criadores de moda. Propõe ainda a Incubadora do Seixal, um polo de inovação tecnológica e desportiva destinado a gerar produtos e parcerias comerciais, bem como a rentabilização das modalidades, combinando visibilidade competitiva com viabilidade económica e novas receitas de bilhética e patrocínios. Por fim, estabelece o objetivo de faturação recorrente independente das vendas de jogadores, visando reduzir a volatilidade das contas e reforçar a autonomia financeira.

A ênfase está na sustentabilidade e na diversificação, com um plano que tenta reduzir a dependência de resultados desportivos e assegurar maior previsibilidade económica. O programa de Noronha Lopes é mais desenvolvido e detalhado do que o de Rui Costa. Ainda assim, tal como o seu adversário, não inclui projeções financeiras nem metas quantificadas de impacto, o que limita a avaliação da sua exequibilidade e do potencial de concretização das medidas apresentadas.

Dimensão Rui Costa – “Só o Benfica Importa” João Noronha Lopes – “Benfica Acima de Tudo”
Gestão e governação Continuidade e centralização na SAD; aposta na estabilidade e na estrutura existente. Reforma institucional; governação profissional e transparente com planeamento estratégico a 10 anos.
Metas financeiras 500 M€ de receitas anuais e -100 M€ de passivo até 2029. Equilíbrio operacional e metas de sustentabilidade sem depender de vendas de jogadores.
Estratégia de receitas Crescimento por escala: bilhética, digital, eventos, patrocínios e internacionalização da marca. Diversificação: parcerias internacionais, escolas Benfica, linha “Vintage”, incubadora tecnológica e rentabilização das modalidades.
Nível de detalhe e exequibilidade Metas numéricas ambiciosas, mas sem plano financeiro ou projeções credíveis.  

Estratégias diversificadas e mais detalhadas, mas ainda sem metas quantitativas ou projeções financeiras.

Investimento previsto Benfica District, Cidade Benfica e Hotel 1904; projetos de capital intensivo e novos custos fixos. Investimento seletivo e descentralizado, com foco em inovação, digital e menor intensidade de capital.
Riscos e desafios Dependência do sucesso desportivo e pressão sobre custos estruturais. Falta de escala e incerteza quanto ao impacto financeiro das novas iniciativas.

Conclusão

A segunda volta das eleições no Benfica é mais do que um confronto entre dois candidatos: é um referendo sobre o modelo financeiro do clube. Os sócios decidirão entre um projeto que promete crescer por investimento e dimensão, e outro que privilegia rigor e disciplina, com abordagens distintas a um mesmo desafio.

Mas importa recordar que as finanças não são uma dimensão isolada: estão no centro de tudo o que o Benfica é e pode vir a ser — da competitividade desportiva à capacidade de investir, da autonomia face a terceiros à relação com os adeptos.

Nesta eleição, os benfiquistas escolhem não apenas uma liderança, mas também um modelo de desenvolvimento para o futuro do clube. Apesar de ambos os programas apresentarem um elevado grau de generalidade e várias zonas de incerteza, as diferenças são claras. O de Rui Costa é mais ambicioso, mas pouco desenvolvido e sem detalhe operacional; o de Noronha Lopes é mais estruturado e transparente, mas assenta numa estratégia ainda genérica de crescimento. São visões distintas sobre como garantir a sustentabilidade financeira do clube.

E se algo é certo, é que o sucesso desportivo sustentável depende de um modelo económico robusto. A ambição, por si só, já não basta — e quando basta, é efémera. Cabe agora aos sócios decidir qual destes caminhos melhor garante o futuro do Benfica.


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