Soberanos do tempo (4)

Como é possível viver-se a morte e o luto sem proximidade? Esta pandemia está a matar-nos para a morte. Mas dolorosamente, sem anestesias sociais.

Neste tempo de paragem de emergência, propomos uma série de reflexões sobre o tempo vivido nas suas dimensões sociais, económicas e existenciais.  Trata-se de um trabalho em progresso, necessariamente efémero e sem qualquer outra ambição que não seja a de aprofundar o questionamento crítico sobre o momento de crise que estamos a atravessar.

 

“Quais foram os números de hoje?” Quase todos dias fazemos esta pergunta já sem pensar. “Os números dos infetados e de mortes, subiram ou desceram?” A obsessão quotidiana pelos números banaliza a realidade brutal que estes representam. Começando pela forma como se enuncia a própria pergunta. Referimo-nos às estatísticas, que se replicam sem fim em milhões de ecrãs caseiros nos mais variados formatos interativos, como o número de mortes e não o número dos mortos.

Na verdade, é através dos mapas que mostram a densidade de pontinhos cintilantes e gráficos que sobem e descem, parecendo ter vida própria, que representamos os mortos da pandemia. Esta híper-abstração em que os mortos se reduzem, muitas vezes, à grafia de pontinhos, acelera vertiginosamente um desligamento da vida que tem sido traço da maneira como a morte vai sendo representada e não vivida nas sociedades contemporâneas.

Num livro publicado há mais de trinta anos, intitulado “A Morte no Portugal Contemporâneo”, um conjunto de cientistas sociais estudaram o fenómeno da morte a partir de aproximações sociológicas, literárias e histórias (como indica o subtítulo do livro). Numa brilhante introdução, Hermínio Martins levanta um conjunto de questões fundamentais sobre o modo como a morte é vivida nas sociedades e como os contemporâneos lidam com os seus mortos.

O texto intitula-se “Tristes Durées”. É um título sugestivo constituído apenas por duas palavras, sendo uma delas estrangeira que não conhece uma tradução direta para português nem para outras línguas. Em francês, durée significa mais do que mera duração que identifica um dado período temporal, esta remete para uma extensão indefinida do tempo que é vivida em continuidade. É sintomático o autor estabelecer uma relação imediata entre o fenómeno da morte e os múltiplos sentidos da duração ou, se quisermos, as suas múltiplas temporalidades… as suas durées tristes.

Hermínio Martins tenta sumariar os aspetos fundamentais de como a morte é enquadrada no mundo ocidental. No essencial as quatro críticas avançadas não só se mantêm atuais como se tornaram ainda mais salientes.

O primeiro aspeto designa-o de hospitalização e medicalização da morte assentes em instituições totais que se organizam com base numa “crescente técnico-burocratização da administração dos seres humanos com o seu consequente funcionamento baseado em regras impessoais de equidade burocrática”, onde tudo é alvo de formalização e de certificação a começar pelo próprio falecido que a partir do momento em que fechou os olhos se transforma automaticamente num peso burocrático. Segundo o sociólogo, “a pessoa que morrer e os seus familiares tornam-se subordinados à autoridade técnico-científica”, da qual não podem nem conseguem escapar.

O segundo aspeto, que em parte decorre do anterior, tem a ver com a desritualização da morte. Ao se tornar um aparato tecno-burocrático a morte desincrustou-se do seio da comunidade e do mundo da vida. Por sua vez, as ritualidades religiosas e outras não só se institucionalizaram parcialmente como se mercadorizaram por intermédio da inevitável ação de um conjunto de agentes da indústria da morte que, por exemplo, regulam e comandam o decurso das cerimónias fúnebres. No fundo, a componente simbólica esfuma-se da ritualidade que, por sua vez, se restringe à mera condição de rotina. A dureé é empobrecida e limitada a uma duração mecanizada e destituída de sentido.

Hermínio fala-nos precisamente da ausência de sentido da morte cuja temporalidade se perde na voragem do tempo produtivista das economias capitalistas. O tempo social e cultural da morte – de paragem, de contemplação e de ritualidade – não se compadece com o tempo contínuo, sem fissuras, que alimenta o “progressismo da vida civilizada”.

A industrialização do tempo não permite que a morte provoque uma suspensão da engrenagem, esta passou a ser vivida como uma efémera pausa momentânea por aqueles que rodeiam e acompanham a pessoa falecida. Essa ausência de sentido tem consequências múltiplas, desde logo naquilo que o autor designa como sendo a decadência da linguagem ou do discurso sobre a morte. Os conteúdos destes discursos empobreceram drasticamente, comprimindo-se num mínimo de significados e de expressões que se repetem como autómatos.

Constrói-se uma espécie de robotização da linguagem da morte que praticamente a exonera de simbolismo e de humanidade. De certa maneira, é como se a vivência da morte morresse. No fundo, somos nós, os vivos, que vamos morrendo para a morte.

Nesta condição, a morte desliga-se da vida tornando-a um espectro de si própria. Mark Fisher falava do neoliberalismo como um zombie. Não vai sendo muito diferente a categoria ontológica em que nos vamos encaixando, contínuos indefinidamente prolongados a que chamamos viver, para quem a morte se tornou um tabu, desligando a finitude de um sentido de vida, ou a vida de um sentido de si mesma.

O presente momento de suspensão da vida comum devido à pandemia de COVID-19 acelera e radicaliza todos os aspetos mencionados anteriormente. A urgência e a necessidade extrema de higienização anularam a vivência da morte, deslocando-a e removendo-a brutalmente do mundo dos vivos. Mais do que a ausência de sentido, a radical higienização da morte tornou-a ausente dos nossos sentidos.

A hipermediatização das relações sociais chegou à morte na mesma medida em que a mediação simbólica parte. Assistimos de fora, pelos ecrãs do nosso confinamento, a familiares e amigos que em quase todos os países deixaram de poder acompanhar em copresença os últimos dias dos seus falecidos. Vedaram-lhes o culto e a comunhão da morte, na melhor das hipóteses simplificados, reduzidos ao osso. E vedámo-nos o encontro derradeiro, substituído pelo seu simulacro literal.

O que não é simulacro são os caixões amontoados em gigantes arcas frigoríficas, os funerais desertos de gente e de emoções, as cerimónias reduzidas ao gélido minimalismo dos gestos mecânicos e desumanos, os cemitérios encerrados, as valas comuns. A morte foi envolvida numa gigante máscara impenetrável afastando-a do toque, do abraço, do odor, do choro, da mediação, do sentido, do simbólico… Como é possível viver-se a morte e o luto sem proximidade? Esta pandemia está a matar-nos para a morte. Mas dolorosamente, sem anestesias sociais, como se a visão crua do que está a acontecer às suas vítimas nos arrancasse a condição de sujeitos dos corpos.

O tempo que virá a seguir à suspensão forçada, não pode ser apenas de reatamento da vida que se levava anteriormente. A emergência que padecemos deve levar-nos a confrontar e a questionar muitos dos nossos adquiridos prévios. Um deles este, de que a morte se invisibilizou e se desmaterializou na sociedade contemporânea e que a sua temporalidade se expressa numa desritualização, cada vez mais desincrustada da proximidade e da comunhão emocional e física. A cultura contemporânea da morte abstraída da ordem do simbólico, e rebatida na gestão do literal, derradeiramente a dos corpos de uma epidemia, tem de ser radicalmente questionada.

Não podemos permitir que as consequências profundas da atual crise transformem definitivamente o sentido da morte numa mera abstração cuja temporalidade coincida completamente com os ritmos do tempo económico e industrializado.

Pelo contrário, devemos forçar o máximo para que a descoincidência impere e persista. É necessário reconquistar o tempo e o espaço devidos, com as suas opacidades inescrutáveis, na vivência social e emocional da morte. Como uma fissura capaz de impedir que o domínio do tempo produtivo, contínuo e abstrato, se absolutize ainda mais e se estenda a todas as esferas da vida individual e coletiva.

Questionar o desligamento do significado pessoal, vivido e cultural da morte tem de ser ainda uma atenta consideração sobre a sua ciência, nestes dias tão preeminente. Tornada variável de uma equação, a morte é forçada a abandonar a sua condição de axioma existencial para passar a ser teorema de uma nova ciência, uma matemática social que é tão ciência social como não é ciência humana, dedução tão fria em nome da saúde pública como quente é os seus gráficos tornarem-se fetiches de adivinhação, ou ainda, os conceitos estatísticos se tornarem instrumento biopolítico para um biototalitarismo, enquanto nós  observamos religiosamente cada manhã toda esta ciência da mortalidade com a vertigem da dúvida trágica sobre se haverá amanhãs reconhecíveis.

 

Renato Miguel do Carmo é co-autor do livro A Miséria do Tempo: Vidas Suspensas pelo Desemprego, Tinta-da-China, 2020.

André Barata é autor do livro E se Parássemos de Sobreviver: Pequeno Livro para Pensar e Agir contra a Ditadura do Tempo, Documenta, 2018.

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