Soberanos do tempo (5)

Lê-se até à exaustão que não haverá regresso ao normal e que começará um “novo normal”. Mas, fundamentalmente, o que há de novidade é “apenas” a intensificação do que não é novo.

Neste tempo de paragem de emergência, propomos uma série de reflexões sobre o tempo vivido nas suas dimensões sociais, económicas e existenciais.  Trata-se de um trabalho em progresso, necessariamente efémero e sem qualquer outra ambição que não seja a de aprofundar o questionamento crítico sobre o momento de crise que estamos a atravessar. 

 

Quem viu “Chernobyl”, um portento de série para estes dias, bem pôde reavivar a memória sobre como uma catástrofe pode ser o empurrão que leva à mudança de um regime político. A partir daquele outro 25 de abril, há 34 anos, a União Soviética declinava irreversivelmente. As causas do desastre e a resposta posterior ao desastre não eram indiferentes aos bloqueios do regime, sobretudo as suas opacidades. Algo que Gorbatchev reconheceu. Agora, a braços com outra catástrofe, houve quem logo estabelecesse um paralelo para o regime chinês: a Covid-19 podia ser a Chernobyl do regime chinês.

O prolífico Žižek, que acaba de publicar “Pandemic!” um breve livro a tentar pensar, ainda que depressa, o que estamos a viver, chamou a atenção para o paralelo e também para os seus limites. Bem ao seu estilo, Žižek inverte a questão de forma provocativa: «há aqui um paradoxo: o coronavírus também nos obrigará a reinventar o comunismo com base na confiança no povo e na ciência.»

Mas, em boa verdade, talvez mais do que o regime político chinês, ou outro qualquer, seja o regime económico global que precise de encontrar na pandemia da Covid-19 a sua Chernobyl. Porque não tem sido indiferente à propagação desta pandemia a existência “global” do hemisfério Norte a que o Sul do planeta não tem acesso tão amplo, o que nem significa infelizmente que estejam mais imunes. E porque não tem sido indiferente à propagação a mais que alertada – e desde há muito – impreparação para este tipo de cenário, e que era, por todas as razões, bastante previsível.

As catástrofes são acontecimentos muito ambivalentes. São uma oportunidade para repensar e mudar alguma coisa, sobretudo se as conseguimos antecipar sem termos de passar por elas. A isto Jean-Pierre Dupuy chamou “catastrofismo esclarecido”. Porque são inesperadas, as catástrofes são acontecimentos da própria temporalidade. Surpreendem-nos, rompem com o que esperamos e com o que nos esperávamos mais adiante, a aguardar por nós. Antecipar o inesperado torna-o menos inesperado e, conhecendo-o, permite responder-lhe melhor.

Às razões epistemológicas de Dupuy, somam-se outras, de ordem ética, de um dever de antecipar a catástrofe possível. Hans Jonas, o filósofo do “princípio da responsabilidade”, evocou mesmo as virtudes de uma “heurística do medo”. E, mais recentemente, o sociólogo Ulrich Beck retomou a ideia chamando-lhe “catastrofismo emancipatório”. Todas estas perspectivas de uma forma ou de outra concebem uma “pedagogia do desastre”, como lhe chama ainda Serge Latouche, e todas menos no sentido de se tirarem lições de catástrofes (essas podemos dar por garantidas), mas de uma antecipação que as possa prevenir, pela menos na sua máxima extensão.

Ainda a este propósito, Naomi Klein chamou a atenção para o facto de que as catástrofes recentes, muito mais do que oportunidades de mudança, se tornaram na realidade oportunidades para agravar desigualdades.  Klein fala precisamente de “capitalismo do desastre”, que tira proveito das vítimas, e dá como exemplo maior, entre outros, a maneira como o pós-furacão Katrina foi tão insensível à pobreza como disponível para um capitalismo sem máscara.

Ora, é nesta terrível ambivalência que estamos.  Ao lado do medo da catástrofe próxima, inesperada, da morte por um vírus que não conhecíamos, cresce o medo da pós-catástrofe ou, dizendo melhor, da catástrofe do regresso ao esperado que conhecemos das vidas que levamos, mas mais endurecido. A necessidade de fazer frente à recessão, a défices multiplicados, a recuos de uma década de juros de dívidas, dados todos por certos, mistura-se agora com restrições movidas pelo imperativo da saúde, a justificar uma austeridade soberana e impiedosa, sem apelo nem agravo.

E, ao mesmo tempo, a compressão de liberdades individuais em contexto de emergência mistura-se com critérios etários, restrições de circulação assimétricas, dirigidas apenas aos mais velhos, de que já se fala e se discute a constitucionalidade. Uma vez adquirido o precedente, é preciso perceber que outros critérios, de género, modo de vida, que uma qualquer racionalidade de meios determine, farão caminho. Este é um quadro distópico, não imaginado, mas apontado como certo.

Depois da atomização e da massa de átomos que fomos ficando ao longo de um século ou mais, o imperativo da eficiência, da sua maximização, promete amassar razões de economia, de política e de saúde numa massa única homogénea. Individualmente menos biológicos à medida que vamos sendo empurrados para o transhumano, na verdade, e um tanto paradoxalmente, somos socialmente cada vez mais apenas o corpo coletivo de uma massa biológica.

Lê-se até à exaustão que não haverá regresso ao normal e que começará um “novo normal”. Mas, fundamentalmente, o que há de novidade é “apenas” a intensificação do que não é novo. A catástrofe ao serviço da aceleração, da eficiência da extração. A novidade significativa que vamos vivendo angustiadamente não apresenta o novo, o diferente, mas o mesmo reiterado e empedernido como nunca vimos.

A economia dita que terminem as medidas que a abrandaram, que aceitemos a condição de existirmos doravante ainda mais como massa coletiva biológica para assim tornar possível continuá-la, cada indivíduo com uma autonomia que não será maior do que a de uma célula. O ultimato que obtém a sujeição voluntária das sociedades, enquanto subsistir vontade democrática (e mesmo individual) é brutal: todas as alternativas serão piores.  Mas até que ponto pode esta alternativa ser aceitável?

Pode a economia avançada do conhecimento, do terceiro milénio, da sociedade da informação, pós-industrial, etc., valer, afinal, apenas a escolha entre a vida e a servidão voluntária de um país? Se nos conformamos a uma competição de catástrofes, resignamo-nos à degradação da dignidade coletiva, admitimos que a lógica da competição até da catástrofe faça oportunidade.

Diante do desastre do capitalismo do desastre, as melhores esperanças são que o desastre natural de uma pandemia viral (mesmo se com razões humanas por detrás) conseguisse estar para o que ameaça seguir-se, socialmente devastador, como Chernobyl foi, no passado, para um regime político.

Hoje é 25 de Abril, o nosso, com 46 maduros anos, e devemos celebrar sobretudo o quanto queremos preservar a capacidade de manter o nosso futuro nas nossas mãos. Crise é uma palavra muito abusada, mas diz bem com a sua etimologia o que está em causa: decidir e, antes disso, separar para, então, poder decidir.

No seu último livro, Beck avança com o conceito de metamorfose do mundo para identificar a força como as catástrofes irrompem – sejam ambientais, económicas, humanitárias, sanitárias – de forma a provocar uma forte reconfiguração nas sociedades. No presente momento estamos a viver uma profunda metamorfose causada pela pandemia que nos vai levar a caminhos inesperados e difíceis de trilhar. No entanto, apesar do peso do incerto, pressentem-se possibilidades alternativas que são ao mesmo tempo polarizadoras.

A possibilidade entre duas compreensões da vida a partir da natureza que se tornaram a escolha fundamental a fazer:  ou a sobrevivência natural, do mais adaptado ao meio ambiente, fetichizada em competição num mercado global, sem fronteiras; ou a biodiversidade e ecossistemas, como metáfora e racionalidade ecológica para a coexistência social e ambiental de sujeito e comunidades singulares.

A possibilidade entre a novidade que nos devolve apenas o mesmo normal muito mais empedernido decorrente de um capitalismo contínuo e sem controlo, ainda mais acelerado em todas as suas desigualdades e assimetrias, e o genuinamente novo que fissurasse essa novidade provocando uma enorme fricção que nos permitisse tomar conta do futuro.

Em vez de uma metamorfose externa largada à sua soltura que levará a cataclismos crescentes, precisamos de metamorfosear o sentido do tempo em direção ao nosso controlo, às nossas forças internas. É, agora, a hora da política espetar de frente nos destinos exteriormente traçados e romper com as inevitabilidades adversas.

Acima de tudo, precisamos de manter e exercer o poder de trazer a crise como contra catástrofe. Se a catástrofe é o acontecimento inesperado, do tempo que nos interrompe, pois bem, a crise é outro acontecimento súbito, da decisão difícil, mas em que somos nós que interrompemos o tempo, para dele sermos soberanos. E o que se diz assim, de forma abstrata, significa que devemos não prescindir de estabelecer um caminho de saída da catástrofe, sem ultimatos.

Como sujeitos da nossa própria ação coletiva e não como corpo de uma massa biológica que não controlamos. Com cuidado, a navegar encostado à costa, experimentando ir mais ao largo, sem grandes certezas. Hoje o nosso pior inimigo são as convicções. Mas construindo nesta esquina do tempo um novo normal digno desse nome, onde possamos ordenar uma terra de fraternidade sem rostos de desigualdade.

André Barata é autor do livro E se Parássemos de Sobreviver: Pequeno Livro para Pensar e Agir contra a Ditadura do Tempo, Documenta, 2018.

Renato Miguel do Carmo é co-autor do livro A Miséria do Tempo: Vidas Suspensas pelo Desemprego, Tinta-da-China, 2020.

 

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