Sobre a condição humana

Esther Bejarano ajudou-nos a lembrar o que é importante: a indiferença perante a desumanização mata e podemos escolher o nosso lado da trincheira.

Numa situação de emergência, quando perdemos muitas das nossas âncoras, ficamos nus. Somos mais honestos na coragem, na cobardia, na ânsia, no ódio, na generosidade.

Assisti esta semana ao espetáculo de Esther Bejarano com a sua banda Microfone Mafia e o Projecto CiNS (“Circo no Nacional Socialismo) na Escola Alemã de Lisboa. Sabia o que me esperava, conheci outros sobreviventes do Holocausto, e queria colocar Esther no meu atlas, porque a história se ancora em pessoas.

O auditório da escola está esgotado, alunos, pais, professores e quem quis estar presente. Será uma viagem exigente, com pessoas e o que as faz ser pessoas.

A primeira parte do espectáculo coube ao CiNS, usando a acrobacia e o poder do humor contou a história de Irene Bento, artista judia que sobreviveu graças à coragem do Circus Althoff, cujo proprietário e artistas a esconderam durante três anos da SS e da Gestapo. Três anos em que se equilibrou no trapézio, em todas as apresentações do circo, com um nome falso, desafiando o regime. A beleza resgata-nos da desgraça mais completa.

Depois veio Esther. Lê do seu livro de memórias. Aos 95 anos ainda tem a voz clara, enche um palco apesar de ser pequena, tão pequena, tão frágil e tira-nos o chão. No braço esquerdo traz tatuado o número 41.948. Ouvir uma sobrevivente pronunciar o seu número, a negação de ser pessoa, perfura a pele. Conta a sua deportação para o campo da morte e a seleção.

Mulheres grávidas, mulheres com filhos pequenos, mulheres com mais de 45 anos tinham um destino: a morte por asfixia nas câmaras de gás. Os pais e a irmã não sobreviveram à barbárie nazi. O pai judeu havia sido agraciado com a Cruz de Ferro de primeira classe, a mais alta condecoração por bravura em cenário de guerra. Judeu, alemão, herói de guerra, um ninguém para os nacional-socialistas.

Quando desceu do comboio perguntaram-lhe se sabia tocar um instrumento, a orquestra precisava de uma acordeonista. Sem saber tocar, mas confiando na sua educação musical disse que sim, tocou e entrou para a orquestra. Por vezes a orquestra tocava quando as colunas de mulheres e crianças caminhavam para as câmaras de gás. “Se há música não pode ser tão mau”, disse-lhe alguém com o negro humor judaico.

Depois da libertação do campo fez da música a sua resistência. Em 1989 fundou uma banda de hip hop, onde canta o seu filho Jolam Bejarano e o rapper turco Kutlu Yurtseven. Kutlu, turco-alemão-renano-muçulmano, introduziu a banda, “o que ouvimos até agora é o horror inimaginável, que nunca devemos esquecer, nunca devemos deixar de lembrar. Não podemos mudar, mas agora no presente temos de lutar contra a desumanidade e pelos direitos humanos em todo o mundo. E para isso é preciso alegria e solidariedade”.

A Alemanha atribuiu-lhe a mais elevada condecoração civil, a Bundesverdienstkreuz, os alunos das muitas escolas que visita sabem que o testemunho e a memória não têm prémio, menos ainda preço. Só em 2019 fez 150 concertos e um número sem conta de visitas a escolas.

A Escola Alemã de Lisboa deu uma lição de cátedra, ensinou à sala cheia, que riu e chorou copiosamente, mais sobre a natureza humana do que se teria aprendido noutro qualquer lugar do mundo. Esther Bejarano pôs tudo em proporção, incluindo a nossa existência e ajudou-nos a lembrar o que é importante: a indiferença perante a desumanização mata e podemos escolher o nosso lado da trincheira.

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