Sociedade de Oncologia defende teleconsultas no apoio aos doentes

Um inquérito aos serviços de oncologia médica de todo o país, apresentado no 17.º Congresso Nacional de Oncologia e que avaliou o impacto inicial da pandemia em Portugal, entre março e abril, quase 60% dos serviços inquiridos “tiveram um crescimento de 30% das teleconsultas face ao volume total”.

A Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO) defende uma valorização da aposta na teleconsulta para manter o acompanhamento dos doentes oncológicos no contexto das restrições impostas pela pandemia de covid-19, evitando um adiamento massivo de consultas.

Em entrevista à Lusa, a presidente da SPO, Ana Raimundo, destacou que “menos de 10% das consultas de follow-up foram adiadas”.

De acordo com um inquérito aos serviços de oncologia médica de todo o país, apresentado hoje no 17.º Congresso Nacional de Oncologia e que avaliou o impacto inicial da pandemia em Portugal, entre março e abril, quase 60% dos serviços inquiridos “tiveram um crescimento de 30% das teleconsultas face ao volume total”.

“No caso de oncologia, considerada uma doença crónica e em que, normalmente, o médico assistente já conhece o doente, as teleconsultas funcionam bastante bem. O ‘feedback’ foi muito positivo por parte dos doentes, que se sentiram seguros pelo facto de não terem de se deslocar ao hospital, e pelos próprios profissionais, que conseguem fazer uma avaliação do estado do doente de forma eficaz”, afirmou.

O estudo abrangeu 21 unidades, com 52,4% a pertencerem a um hospital central do Serviço Nacional de Saúde e 71,4% num serviço integrado numa instituição dedicada a covid-19, avaliando somente o funcionamento dos serviços de oncologia médica, no qual, segundo Ana Raimundo, “os doentes que já tinham o seu diagnóstico e que já estavam em tratamento ou seguimento pelos serviços de oncologia não sentiram um grande impacto [com a pandemia]”.

A líder da SPO destacou também a estabilidade ao nível dos recursos humanos destes serviços, sem recrutamento de mais elementos ou uma saída significativa de profissionais para colaborar no apoio à resposta à covid-19, uma situação que diz manter-se no decurso da atual segunda vaga da infeção pelo novo coronavírus.

“Provavelmente, serão dos últimos elementos médicos a serem recrutados, devido às características dos doentes que seguem, e serão recrutados já numa situação extrema, em que já foram todos os outros profissionais recrutados, porque a taxa de mortalidade por cancro é superior à taxa de mortalidade por covid-19”, notou.

A maior taxa de mortalidade do cancro pode também estar refletida no aumento da mortalidade extra-covid em Portugal durante 2020 face à média dos últimos anos.

A presidente da SPO admitiu que “existem alguns cancros de evolução mais rápida e agressiva que, se não forem diagnosticados atempadamente, matam rapidamente”, mas notou que esta realidade se deve a outras patologias crónicas.

“Esse aumento da taxa de mortalidade tem sobretudo a ver com a falta de seguimento e controlo das doenças crónicas, como as doenças cardiovasculares, a diabetes ou as doenças respiratórias crónicas. São doentes que deixaram de ter um seguimento e apoio em tempo útil e também doentes que adiaram a sua ida ao médico e aos hospitais com medo”, frisou.

Outra das consequências da pandemia em termos oncológicos teve lugar no recrutamento de novos doentes para ensaios clínicos.

De acordo com Ana Raimundo, o “recrutamento de novos doentes aproximou-se de zero” e mesmo com o reatamento da maior parte dos ensaios clínicos a partir de junho “não houve um restabelecimento a 100%”.

Portugal contabiliza pelo menos 3.824 mortos associados à covid-19 em 255.970 casos confirmados de infeção, segundo o último boletim da Direção-Geral da Saúde (DGS).

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro de 2019, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

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