Sociedade estupidificada

As pessoas vivem num isolacionismo preocupante, só preenchido pelo tempo que passam nas redes sociais. E cada vez têm mais dificuldade de se relacionarem em sociedade.

Como mudou o mundo nos últimos anos. Longe vão os tempos em que só podíamos escolher entre a RTP1 e a RTP2, em que assistíamos a programas como o “Se bem me lembro”, de Vitorino Nemésio, o “TV Rural”, de Sousa Veloso, ou o “Passeio dos Alegres”, de Júlio Isidro, ou em que nos deixávamos seduzir pela Festival Eurovisão da Canção ou por concursos como “A Visita da Cornélia”, “O Gesto é Tudo” ou os “Jogos Sem Fronteiras”.

Nessa época, há não muitos anos atrás, vivíamos, dirão alguns, num mundo a preto e branco, sem grandes possibilidades de escolha, com opções muito redutoras. Não havia Internet, não existiam telemóveis, as pessoas não passavam as refeições a olhar para um ecrã, na esperança que alguém postasse uma foto no Instagram, fizesse um Tweet ou enviasse uma mensagem pelo Messenger.

No entanto, contrariamente ao que se possa pensar, as pessoas tinham, maioritariamente, uma vida mais feliz do que aquela que hoje levam num mundo que aderiu a uma palete de cores outrora impensável. As refeições eram o tempo das famílias, os pais falavam com os filhos, transmitiam-lhes ensinamentos, trocavam experiências, conviviam.

As crianças e os jovens brincavam alegremente nas ruas, fazendo uma atividade física que hoje foi substituída por longas horas a olhar para um monitor, às vezes interagindo com outras pessoas apenas através do Skype. Escreviam-se cartas, enviavam-se telegramas, efetuavam-se convívios, faziam-se telefonemas.

Os aniversariantes não recebiam centenas ou mesmo milhares de mensagens pelo Facebook, muitas vezes de pessoas com as quais nunca se haviam cruzado na vida, sendo visitados pelos amigos mais chegados, recebendo telefonemas dos familiares e daqueles que estavam mais longe. Os verdadeiros amigos eram de carne e osso, tinham uma ligação real e não meramente virtual, falavam uns com os outros em pessoa, não enviavam mensagens, nem faziam likes.

Com o progresso, as sociedades mudaram. Para melhor, em muitos aspetos. Para pior, em outros tantos. Hoje, a capacidade de escolha é esmagadora. Quando ligamos a televisão podemos escolher não apenas entre a RTP1 e a RTP2, mas entre centenas de canais, nacionais e estrangeiros, que nos fazem chegar os programas mais variados, maioritariamente de baixíssima qualidade.

Em Portugal, as audiências são quase sempre lideradas por telenovelas fracas, que exploram temas comuns do quotidiano, sem apresentarem qualquer valor acrescentado, e por reality shows cada vez mais degradantes do ponto de vista humano.

Depois de termos sido invadidos por programas como o “Big Brother”, a “Quinta das Celebridades”, a “Casa dos Segredos” e o “Love on Top”, vemos, agora, entrar-nos pela casa adentro programas humanamente deploráveis, como o “Casados à Primeira Vista”, o “Carro do Amor”, “First Dates” ou, mais recentemente, “Quem quer namorar com o agricultor?” e “Quem quer casar com o meu filho?”. Em comum, estes programas são a clara demonstração das dificuldades atualmente existentes de as pessoas, mais ou menos jovens, se relacionarem em sociedade.

Vivendo num isolacionismo preocupante, só preenchido pelo tempo que passam nas redes sociais, as pessoas procuram, a todo o custo, encontrar alguém real que lhes preencha as carências afetivas que são cada vez mais sentidas por todos os que não têm senão milhares de amigos virtuais. Incapazes de se “conectarem” ao vivo e a cores, os jovens são hoje atirados para relacionamentos fugazes, com parceiros que não conhecem no mundo real, trocando experiências que são, na maior parte dos casos, dolorosas do ponto de vista emocional, já que estão quase sempre condenadas ao insucesso.

Os relacionamentos sexuais, hoje muito mais facilitados do que há 20 ou 30 anos, são vistos frequentemente como meros momentos de libertação química, faltando-lhes a intimidade própria de quem partilha, para além do corpo, a mente. Insatisfeitos, os jovens trocam de parceiros com uma velocidade impressionante, navegando em apps de encontros, na esperança de encontrarem alguém que lhes dê mais do que um prazer momentâneo, caindo, por vezes, numa rotina psicologicamente frustrante.

Hoje, tudo é mais rápido, mais efémero, menos humano, menos personalizado. A sociedade está cada vez mais estupidificada. Vivemos sozinhos no meio da multidão.

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