Sócrates 2.0

A crise na direita, para a qual Rui Rio contribuiu com tanto afinco, é uma das causas que permitiu que a própria direita se renovasse.

Quando esta edição do Jornal Económico chegar às bancas, a 1ª Convenção da Europa e da Liberdade vai estar a decorrer. Organizada pelo MEL – Movimento Europa e Liberdade, e com um programa extenso, vamos poder assistir a intervenções e debates entre actuais e antigos protagonistas do centro-direita e representantes da sociedade civil.

Os vários partidos e projectos de direita aceitaram o convite para debater o futuro europeu e do país. Aceitaram todos menos o principal líder da direita, Rui Rio. Convidado a discursar na abertura da convenção, não se dignou sequer a responder ao convite.

Fechado o primeiro ano do mandato de Rui Rio enquanto líder, é caso para dizer que não é defeito, é feitio. Se ao fim de um ano, o que oferece enquanto marca do seu reinado é a divisão e implosão do maior partido de direita, a nove meses das eleições legislativas é altura de os restantes partidos e protagonistas deixarem o PSD entregue ao seu destino. Já não é tempo de criticar, mas sim de agradecer ao seu líder.

Afinal, é a crise na direita, para a qual contribuiu com tanto afinco, uma das causas que permitiu à própria direita que se renovasse. Da minha parte agradeço e espero que a convenção seja o primeiro passo para um debate positivo e para a união das direitas.

O novo ano político arranca com a convenção, com uma contestação social em vários sectores no país a ultrapassar os anos da troika, uma média de espera de três anos para uma mera consulta de cardiologia, e a divulgação de uma auditoria do Tribunal de Contas que esclarece que a dívida do Serviço Nacional de Saúde a fornecedores cresceu 52% desde a posse deste Governo.

No entanto, segundo o Governo, nunca o país e a economia estiveram tão bem e para o provar decidiu avançar com a construção do novo aeroporto do Montijo. Um projecto megalómano para encher o olho ao eleitor, com um investimento previsto de 1,15 mil milhões de euros, sem sequer um mero estudo de impacto ambiental prévio. Estamos em plena época Sócrates 2.0. Basta recordar o ano de 2008, quando o então primeiro-ministro declarou que o governo decidira construir o novo aeroporto em Alcochete.

O estudo do LNEC não deixava dúvidas, era a opção técnica e financeira mais favorável, garantiu, e a notícia era tão importante e tão urgente para o país que o primeiro-ministro a quis dar pessoalmente. “Dada a importância desta infra-estrutura, resolvi eu próprio dar-vos conta da decisão do Governo quanto à localização do novo aeroporto internacional de Lisboa”.

Porque recordar é viver, e no caso de Sócrates também significa um passeio gratuito aos infernos da corrupção, relembro a real situação financeira do país em 2008, o descalabro económico a seguir, os actos teatrais do governo a negar os cofres vazios e os anos que foram necessários para repor a situação económica.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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